sábado, 27 de dezembro de 2008

«Exterminem Todas as Bestas»

Com o título extraído do romance «O coração das Trevas» de Joseph Conrad, o livro «Exterminem Todas as Bestas» de Sven Lindqvist requer toda a nossa atenção. Advertindo que este trabalho é «uma história e não um contributo para a investigação da história», o autor lembra que a palavra Europa deriva de uma palavra semítica que significa «escuridão» e coage-nos a enfrentar e a tirar conclusões do que há muito sabemos: o horror perpetrado pelos europeus ao longo da história, edificando palcos de Inferno em nome da vaidade antropomórfica e antropocêntrica.

O trajecto pelos 169 curtos capítulos é, necessariamente, uma viagem pelos matizes do terror, pela intemporalidade do medo, e a tentativa de compreender essa energia monstruosa: «Um homem pode destruir tudo dentro de si, amor, ódio e crença, e até mesmo a dúvida, mas, enquanto se agarrar à vida, não pode destruir o medo».

H. L. Mencken (1880-1956) disse que “A consciência é uma voz interior que nos adverte que alguém pode estar olhando”. É neste sentido que entendo o presente livro de Sven Lindqvist: ele é um olhar acutilante que se fixa, sem contemplações, na nossa consciência colectiva de europeus e a faz estremecer de alto a baixo, desde tempos remotos até à actualidade. Inscrito na Colecção «O nosso Tempo», da Editorial Caminho, o livro é ainda mais inquietante porque não nos traz nada de novo, mas mostra-nos o que jamais deveríamos ter esquecido. O próprio autor desfralda essa inquietação ao explicar o objectivo das páginas desassombradas: «Você já sabe quanto baste. Eu também. Não é de informação que carecemos. O que nos falta é coragem para compreender o que sabemos e tirarmos conclusões.».

Sven Lindqvist desenvolve a sua narrativa num misto de «livro de viagens, relato autobiográfico e história das ideias», enquanto percorre o deserto do Sara e o computador à procura do conceito de extermínio. Com o Livro de Conrad no motor da reflexão – esse «autor profético» que «previra os horrores vindouros», ou falava dos genocídios do seu tempo? -, apuram-se as responsabilidades da Europa para com os povos de outros continentes. Relembra a visão europeia sobre as “raças inferiores”: «a verdadeira compaixão das raças superiores consistia em facilitar-lhes o desaparecimento». Recorda que o Extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich não foi original: «Hitler encontrou modelo nos britânicos e noutros povos do ocidente só que ele virou-se para Ocidente». Escreve que a «arte de matar à distância tornou-se desde muito cedo uma especialidade europeia». Defende que na Europa pré-industrial, «atrasada e com parcos recursos», a «principal exportação era a força, por todo o mundo éramos considerados guerreiros nómadas ao estilo dos mongóis e dos tártaros». Fala do aperfeiçoamento das armas ao longo da História, e da sua utilização: «A utilização de balas dum-dum entre Estados "civilizados" era proibida. Estavam reservadas para a caça de animais de grande porte e para as guerras coloniais».

Demonstra-nos que os europeus «tornaram-se os deuses dos canhões que matavam muito antes de as armas dos seus opositores os atingirem. Trezentos anos mais tarde, esses deuses tinham conquistado um terço do mundo.». Recorda-nos o tráfico de escravos, as chacinas, as matanças maciças, as humilhações infligidas pelo Homo Sapiens do continente civilizado. Depois do colonialismo, no início do séc. XIX surge o Imperialismo e uma nova forma de racismo, com um grande número de europeus a interpretar «a superioridade militar como superioridade intelectual e até biológica»: os barcos a vapor eram a nova maravilha – retratados como portadores de luz e rectidão moral – que possibilitavam o transporte da artilharia para o interior da Ásia e da Africa.

Apoiando-se em documentos de natureza diversa, escritos à época, o autor vai unindo as partículas da nossa memória e elaborando o mapa da nossa vergonha. Fala na força do colonialismo britânico contra os ashantis, em 1874, e no Egipto, em 1884. Analisa connosco o que foi escrito por um correspondente de guerra do The Morning Post sobre a batalha de Omdurman, em 1898: «Não voltará a ver-se nada que se assemelhe à batalha de Omdurman (…) Foi o último elo na longa cadeia daqueles espectaculares conflitos cujo esplendor vivo e majestoso tanto contribuiu para dar à guerra um carácter sedutor (…) um jogo esplêndido onde ninguém contava morrer». São muitos os documentos referidos, muitos os testemunhos, demasiadas as verdades, tantas quantas são as formas da nossa ignomínia.

Fica assente: depois do ser humano ter deixado de ser uno, depois que descobriu que existiam outras raças, outras formas de ser e estar, descobriu também como exercer o extermínio. «A longa lista da paleontologia encontra-se meio cheia com registos de extermínios; ordens inteiras, famílias, grupos e classes desapareceram sem deixar qualquer marca ou tradição na fauna viva do mundo. (…) Até mesmo no mundo dos nossos dias as forças da extinção encontram-se activas. Nos últimos cem anos, os seres humanos enxamearam todo o globo terrestre e empurram espécie após espécie da beira do precipício.».

Com o ano 2008 a chegar ao fim, e com todos a fazerem o "balanço de vida", eis um livro para nos fazer reflectir. E haja coragem para enfrentarmos as verdades de um mundo pejado de insanidade.

Exterminem Todas as Bestas, Sven Lindqvist; Editorial Caminho, Lisboa 2005

© Teresa Sá Couto

8 comentários:

Anónimo disse...

Li umas coisas do Conrad em teenager

Teresa disse...

Foi leitura de muitos de nós, nessa idade. E continua a ser uma óptima leitura, que este livro, aliás, nos relembra.

Obrigada pela visita!!!
TSC

Hugo Besteiro disse...

Olá,

Essa colecção parece-me muito boa. Aconselho o livro da Diana Johnstone sobre a Jugoslávia.

Gostaria de ver aqui, por questões de macabra actualidade, algo sobre o livro «Israel, Palestina: Verdades sobre um Conflito» do Alain Gresh, editado em Portugal pela Campo das Letras.

Que 2009 traga, finalmente, uma Palestina que segure nas suas próprias mãos os seus territórios e o seu destino!

Um beijo,
hb

Teresa disse...

Olá Hugo
Adivinhaste-me os pensamentos, pois já tinha pensado pedir esse livro à Campo das Letras, agora que regressou a vergonha àquela martirizada Faixa do ódio, actualidade macabra, dizes bem!!

Penso que te referes ao livro «Cruzada de Cegos - Jugoslávia, a Primeira Guerra da Globalização» de Diana Johnstone,editado pela Caminho. É magnífico, sim senhor!! Sobre a temática do Médio Oriente, editei no ano passado um texto sobre o romance da jornalista Rula Jebreal, palestiniana com passaporte israelita, titulado «A Esposa de Assuão». Talvez o reponha aqui.

Um beijo
TSC

Hugo Besteiro disse...

Olá (de novo),

Eu tenho o livro em casa, mas por acaso também o encontrei em formato digital. Posso manda-lo por e-mail ou assim.


Beijo,
hb

Teresa disse...

Muito Obrigada Hugo, mas eu peço o livro à Editora ;))). Sabes,gosto de "escrevinhar" os livros com os meus lápis nº1

outro Bjo
TSC

Anónimo disse...

Olá Teresa,
Não conhecia os autores mencionados e por isso agradeço-lhe o link no FB.
Relacionei com este, aquele livro de George Steiner 'No Castelo do Barba Azul-algumas notas para a redefinição da cultura', publicada em '92 pela Relógio d'Água, em que Steiner também denuncia o projecto de civilização, afirmando 'só se ter tornado possível graças ao imenso privilégio de se ter ignorado as potencialidades inumanas do homem civilizado tal como hoje o conhecemos.'.

É sempre uma inspiração visitar o seu blogge,seguido daquele impulso de ir logo à fnac procurar as obras, que pela sua cativante escrita, assim nos oferece, tão generosamente, a provar...
um beijo e obrigada
sara canelhas

Teresa disse...

Olá Sara,
que magnífica surpresa aparecer aqui na minha casa :)

Conheço também o livro que referencia, e concordo com o que diz.
Este, que aqui apresento é, de facto, estupendo.

Beijinhos
T.