segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aniversário de Eugénio de Andrade

O poeta Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, faria hoje, dia 19 de Janeiro de 2009, 86 anos. Deixou-nos em 2005.

Filho da Beira e seu embaixador, a sua poesia ecoa por todo o mundo Português. Dizia ele que a sua poesia é «o historial de uma grande fidelidade: à terra, à língua, ao calor de alguns encontros afortunados». Direi eu sobre ele que foi assim que nos fidelizou: pela simplicidade solar, pela limpidez e por aquela espécie de música que envolve a sua poesia.

A mãe é, por excelência, a figura central da sua poesia. A mãe e a terra, o que é dizer exactamente o mesmo. O Poeta, esclarece-nos: «O Alentejo é a pátria, a pequena pátria, a pátria "chica" como dizem os espanhóis, porque eu, embora não tenha nascido no Alentejo, nasci naquela parte da Beira Baixa que indubitavelmente o prolonga. É de lá que vêm as imagens arquetípicas da minha poesia, e algumas delas nunca mais se atenuaram. Quero eu dizer: foi com a terra, o vento, a luz, a água, foi sobretudo com minha mãe, que aprendi essas palavras transparentes, cheias de brilhos. (...) Falar da terra ou da mãe é a mesma coisa. Quando digo mãe digo terra, quando digo terra digo mãe. O corpo, esse, é uma explosão: é nele que se dá o encontro com o outro, é a descoberta da razão da vida».

Poeta do Amor e do Erotismo
Sempre ligado à Terra, esse berço da vida, ventre, habitação dos corpos, Eugénio é tido, também, como o Poeta do Amor. O elemento mítico do Fogo, o desejo, a combustão dos corpos, o que ilumina e destrói, surge conjugado com Terra, harmonicamente:

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum.

O animar dos corpos confunde-se com a Terra e tudo o que a realiza, numa quente e cúmplice intimidade:

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume

***
Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)

A poesia irrompe em harmonia com os outros dois elementos míticos: ÁGUA e AR.
A água é o princípio seminal fértil, a sede, a boca, o erotismo, a fecundação, a palavra, a pureza da criação:

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
Como se pode morrer?

O ar é respiração do corpo, o desassossego, mas outrossim, a construção da liberdade e da esperança: «Beber-te a sede e partir / eu sou de tão longe»; «Morre / de ter ousado / na água amar o fogo», ou ainda, «Deixa a mão / caminhar / perder o alento / até onde se não respira».

A palavra certa

Ser-se fiel à palavra é sê-lo à alma. Assim o é a lírica de Eugénio: simples, despojada, um hino de palavras concretas e límpidas.
Diz o poeta sobre a sua relação de fidelidade às palavras: «Não se escreve com emoções; escreve-se com a memória. Como um oleiro, ao trabalhar um vaso, quando escrevo estou só preocupado em transformar essa memória em palavras, em musica. "Sentir, sinta quem lê", como dizia Fernando Pessoa» ; «Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do Verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como o pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol».

Bibliografia: Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos, Campo das Letras, 1998; Poesia e Prosa, Vol.III. Círculo de Leitores, 1987; Antologia Breve, Fundação Eugénio de Andrade, 1999

nota: este meu texto foi inicialmente editado, com variantes, no site TriploV
.© Teresa Sá Couto
.
.
(ao Hugo , que me alertou para a data do aniversário de E.A)

2 comentários:

Hugo Besteiro disse...

bom texto e boas escolhas de versos.

sinto-me honrado por me dedicares o texto :) se o Hugo for eu, claro :P

beijos

Teresa disse...

Evidentemente que me refiro ao HB...rsrs
Bjinhos
TSC