quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

José Régio em diálogos com o Amor

Depois do texto com o enfoque no programa existencial de José Régio (1901-1969) e na sua luta com Deus, volto ao autor, agora vendo-o no tema do amor. Poesia que espanta pelo carácter sincero, pelo fundo humano, eterno, que nos cativa, bastando tão só escutarmos o sangue que nos compõe, a poética torrencial de Régio atinge na temática do Amor a vibração do espírito e da carne, do êxtase do corpo e do arroubo místico, felicidade e abandono, encontro e desencontro, mas sempre «corpo de ânsia»:

«Boca sôfrega, /Rosa brava / Eu sonhei que te esfolhava/ Pétala a pétala!// Flor de volúpia sem lei! / Não te apagues, sonho! mata-me /Como eu sonhei.». O Amor é um instituto com a doutrina dos cinco sentidos: mirar o corpo, aprendê-lo e apreendê-lo táctil e odorificamente, degustá-lo e, o grito, que atesta tudo isso, esse, solta-se no silêncio dos versos.

Na temática do Amor, a poesia regiana constrói o corpo para, a partir dele, ficcionar a sensação do amor. Porém, é tal a naturalidade com que o executa, que se torna indistinto se é o poeta que cria a alma com palavras ou as palavras que dão forma à alma do poeta. Um arroubo que, aliado à mestria literária, cria o convencimento, e a rendição do leitor. E assim se faz a «União» entre corpo e espírito, com o primeiro a adejar com as asas do segundo:

Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços;
Sobre os meus ombros, teu cabelo.
Descansando dos meus e teus cansaços,
Tu dormes por nós ambos. Só eu velo.

Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde acaba o meu? Teu e meu têm sentido?

Teu ligeiro suor penetra a minha pele:
Teu suor dos transportes de há momento
Que me atrevo a provar como quem lambe mel,
Em que refresco as mãos como num leve unguento.

Brandamente, por vezes, te desvio
De mim, para melhor, depois, sentir
Que és bem tu que eu agarro, acaricio,
Bem tu que eu pude em mim fundir.

Ai, anular-te em mim sem te perder!
Aniquilar-me em ti, – mas sendo nós!
Velo, e nem sinto a noite a discorrer.
Sonho, e que sonho de que amor feroz? (…)

Desnudar o corpo para uma vida sem disfarce

Numa poesia de ímpeto carnal, o corpo é revisitado, quase poro a poro , e o erotismo escorre de palavra a palavra. Porém, a noção de que, como dizia David Mourão-Ferreira, «um corpo não é só carne» está patente nesta temática de Régio. Explora-se o corpo como que querendo ver-se dentro dele a causa do desejo; depois da aventura do corpo os olhos surgem como agentes doutra hipnose, a vida sem disfarce, o Amor espiritual:

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... – abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Corpo e alma: a transgressão total

A procura de uma identidade, a necessidade de se encontrar a alma do outro, surge como uma plenitude que alimenta o círculo vicioso do amor: primeiro o desejo que se cumpre no corpo, onde se descobre a alma e a cumplicidade do outro que despoleta de novo o desejo, o lado profano e transgressor do Amor:

«Tu conheceste a força dos meus pulsos, /A miséria do meu ser, / Os recantos da minha humanidade, / A grandeza do meu amor cruel, / Os veios de oiro que o meu barro trouxe.../ Eu, os teus nervos convulsos, / O teu poder, /A tua fragilidade, /Os sinais da tua pele, /O gosto do teu sangue doce... / Depois.../ Depois o quê, amor? Depois, mais nada, / – Que Jeová não sabe perdoar! » ou, ainda, no Monólogo a Dois: «De olhos fechados me abandono, ouvindo / Meu coração pulsar, meu sangue discorrer, / E, sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo / Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…»

A cisão entre a posse do corpo amado e a do corpo sem amor está patente no poema narrativo, como o são todos, que relata o encontro do sujeito com um “amor” de rua, com uma prostituta: «Ela vem, gingando, mole, as ancas. / Chega-se: “Boa noite, amor… Eu rio. / Amor!... Que amor pode ser? / Animada, ela agarra-se: “Está frio, /não se quer aquecer?...” / Sim, porque não? Aquecer-me-ei contigo. / (Gelado é o meu lençol, e nu, como um sudário…) /Terás, pobre mulher, por umas horas, um amigo, / Embora eu continue solitário.».

Concluo que qualquer discurso sobre o amor será sempre um discurso de solidão que na literatura encontra o lugar para a sua afirmação. José Régio mostra-nos o Amor total, ignescente: o Amor de transgressão.

Bibliografia consultada: José Régio, Obra Completa – Poesia I e Poesia II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa

( to Artur)

© Teresa Sá Couto

9 comentários:

Hugo Besteiro disse...

E eu, quando li "José Régio em diálogos com o Amor", a pensar que seria "( to Hugo)"... Que desilusão :P

O poema do "Não me peças palavras, nem baladas" foi provavelmente a primeira coisa que li do Régio e é o meu poema preferido dele.

Não gosto de molestar livros mas arranquei esse poema de uma antologia poética para andar com ele num bloco de notas... Vá, mas tenho desculpa.. era a do Soares para o Público :P

hb disse...

Só depois é que reparei...

Gosto bastante da foto!

E também me esqueci...

Beijos de ano novo

Teresa disse...

Olá Hugo. Estes dois textos são para os "regianos" onde, evidentemente, também te incluis ;) E como percebo essa dilaceração da página: eu faria exactamente o mesmo!

Tenho de voltar ao Régio, mas agora com narrativa, que li tudo dele, ainda que há muito tempo (comecei a lê-lo tinha 12 anos...rsrsrs)

A foto é "especial": tirei-a há cerca de 16 anos, estava a escultura no jardim da Gulbenkian (agora está no Museu de Arte Moderna) e andei zelosa e pacientemente a medir-lhe a luz para lhe captar a expressão que eu queria. Dei-lhe o título "Súplica" e até fiz um poema para o conjunto, o qual lhe perdi o rasto. Nunca a tinha utilizado...até hoje, ao surgir-me, súbita, dum dos muitos mistérios da minha mente...;)

Beijos de Bom Ano
Teresa

Hugo Besteiro disse...

Parabéns pela foto. Gosto mesmo. Em relação ao título, também comecei a fazer o mesmo com as minhas fotos no intuitos porque o pediram, mas não tenho grande interesse nisso. :)

Em relação à literatura, o que achas disto: http://tacada.blogspot.com/2009/01/o-nobel-que-no-veio-da-sucia.html ?

Teresa disse...

Pois, Hugo. Não me espanta, o que não quer dizer que não me indigne. Não me espanta porque o oportunismo e a manipulação humanas minam tudo. E quantos casos mais haverá? Por outro lado, galardões à parte (e suspeições de "cópias",estas com acusações todos os dias), cabe ao leitor eleger a sua literatura, pois só nele ela tem legitimidade.

Bjos
TSC

Anónimo disse...

Ms T,
O meu progenitor foi aluno dele... de françes e português no liceu de Portalegre. Faz o seu tempo.
Curiosidade: ele andava de botas quase sempre.
Conheço mal a obra... gostei do que aqui vi escrito.
João

Teresa disse...

Obrigada, Joni. Lê, que é imperdível.

Em miúda vivi perto da casa do Régio.Sim, com cinco anos de idade estava eu a viver em Portalegre...as voltas que a roda dá....

isabel victor disse...

"o círculo vicioso do amor: primeiro o desejo que se cumpre no corpo, onde se descobre a alma e a cumplicidade do outro que despoleta de novo o desejo, o lado profano e transgressor do Amor"


Esplêndido.


Dialogando ...

abraço TSC

Teresa disse...

Obrigada pelo "diálogo", Isabel

Gosto de tê-la por cá!
Bjinhos
TSC