sábado, 17 de janeiro de 2009

A verdade e a máscara

Com as palavras podem escrever-se «palavras-ficção»: «Água, Cão, Cavalo, Cabeça»; quatro palavras, gatilhos para «os movimentos de ficção» de vinte e cinco pequenas narrativas sincopadas, na cadência do disparo. «O cão pode ser visto como música equilibrada (harmonia é a palavra) devido às suas quatro patas (como uma mesa orgânica). Mas se ao cão se cortar uma das patas a nossa vida altera-se, e sangra tudo, como quem é traído por uma mulher ou pela morte do pai.».

Assim corre a escrita que busca as desarmonias, os desequilíbrios, a loucura do ser humano ou a verdade por detrás da máscara. Assim é o mundo, e as palavras desnudam-no para o tomar. E assim reconhecemos a escrita original e inconfundível de Gonçalo M. Tavares.

Numa das estórias deste «água, cão, cavalo, cabeça», lê-se que a natureza do homem «não tem mapas, nem cores como os mapas». A natureza do homem é «uma aranha», melhor, «um aranhiço: é mais confuso do que uma aranha». E, acrescenta-se, os aranhiços «são como os pais que protegem o filho e o filho que se protege a si próprio, e ainda como todos os seres com sangue e até as plantas: é preciso sobreviver, eis o universo».

É neste “projecto de sobrevivência” que se insere a obra de Gonçalo: no universo largo e complexo, com a complexidade da natureza do homem, capturada nas faces mais sombrias. Como a bala, que é um «animal impaciente e rápido», a escrita do autor, viva e sem pudor, investe o impensado, abala a “ordem estabelecida”, revoluciona-nos a forma de olhar. A responsabilidade do discurso de Gonçalo está em mostrar a desordem para, pela palavra, encontrar uma ordem, o que pode corresponder à ideia de que é desintegrando-se que o cosmos se organiza ou na missiva de He Xiu: «Uma ordem surgira da decadência e da desordem».

Os quatro substantivos que fazem o título deste novo livro constituem novas investidas na análise desse universo, manipulada por um investigador de talento.
«água» remete-nos para vida, sangue, lágrimas, dor; «cabeça» remete-nos para loucura, o lugar onde nos escondemos; «cão» e «cavalo» surgem-nos como metáforas literárias para «os aranhiços» de «água» a «cabeça». Última na disposição é, todavia, a «cabeça» o “segredo” de tudo,:

a cabeça é o sitio para a fuga mais rápida que as outras, posso entrar na raiva e voltar, e um segundo depois entrar no tédio, e depois voltar.
Viaja-se: o ocupante da cabeça vai aqui, depois mais à frente (desejo, asco, angústia) e regressa.

Também o cansaço pode chegar à cabeça e, lê-se, é um momento mínimo, menos que um segundo, mas vem por vezes um pensamento de ódio, e é isto o cansaço, é aqui que ele pode chegar. É preciso ter medo dos homens e das mulheres cansadas. E a cidade é rápida de mais, empurra-nos para o nosso corpo pior (de entre os vários possíveis.).

O corpo “que revela”, sempre presente na obra do autor, é o produto da ditadura da cabeça. O texto mostra-nos isso, como quando conta a consequência de ter sido disparada uma arma só de fazer barulho, numa pata, e na cabeça de um cão:
A forma como o cão caminha não foi do tiro no pé, mas na cabeça: está louco, o cão, vê-se nas pernas.

Onde fica o amor e o coração?

No projecto de sobrevivência, o que se faz ao amor e ao coração? O texto responde:
E o único fenómeno estranho ao instinto de sobrevivência que manda em qualquer pessoa, animal ou anjo que exista, é o amor. Mas o amor é tão popular entre os vivos que se tornou num sentimento da multidão: há que receá-lo como se receia a palavra de ordem de qualquer ajuntamento exaltado.

Quanto ao coração, é arremessado como um projéctil pesado:
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração (…)para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento rápido com o braço, e por último travar subitamente e projectar o pulso para a frente (…)uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.

Carl Sagan disse: «Eis que, pela primeira vez, fazemos parte deste mundo, o nosso vasto e terrível universo.». É assim que sentimos a leitura de Gonçalo M. Tavares. Fique, sem mais comentários, um último exemplo:

(…)Tinha que pagar a um oculista. Levava o cheque já preenchido. Cheguei ao sitio e disseram-me: Morreu ontem, num desastre de carro. Tinha o cheque em nome dele, e agora estava morto. O primeiro pensamento foi: se eu tenho um cheque para lhe pagar, ele não pode estar morto. O segundo pensamento, passado uns segundos, foi: vou ficar com o dinheiro. O terceiro pensamento foi: como é que a tua cabeça foi capaz de ter aquele 2º pensamento? O quarto foi: toda a gente pensa todas as hipóteses numa situação, mesmo as hipóteses mais nojentas. Mas o senhor tinha um pai ainda vivo, e eu rasguei o cheque antigo e escrevi o nome do pai no cheque – era quase o mesmo, só mudava a primeira palavra. Estávamos os dois num restaurante de comidas rápidas, de pé. E o pai do meu oculista, que morrera num desastre de automóvel dois dias antes, estava vestido de preto e estava triste, falava pouco, e tinha os olhos baixos. Mas recebeu o cheque.

Água, Cão, Cavalo, Cabeça, Gonçalo M.Tavares; Editorial Caminho, Lisboa 2006

© Teresa Sá Couto

nota: outros textos sobre a obra de G.M.Tavares, em baixo, na etiqueta correspondente

4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Atribui-te o premio blog de ouro...
tens de ir ao hasempreumlivro para copiá-lo..

CSd

Teresa disse...

Do que te lembraste!! ;)))))
Obrigada, Cláudia!!
Quando for ao Norte, temos de pôr a conversa em dia!
Beijinhos
T.S.C.

isabel victor disse...

Excepcional !


(Prazer em conhecer ...)




iv*

Teresa disse...

Digo o mesmo, Isabel!! Obrigada!
Devemos isto à inigualável CSD..eheh

Bjinhos
Teresa Sá Couto