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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caleidoscópio feminino

Vinte e sete histórias do brasileiro Rubem Fonseca

Se «não há mulher que não sonhe em matar o marido», Francisca torna o sonho realidade; Guiomar faz com que o companheiro aprenda e realize por ela as tarefas domésticas; Luíza faz uma «ablação peniana» ao namorado; Zézé (Josefina) prepara-se para o Dia Internacional do Orgasmo; Belinha é assassinada pelo namorado, que é assassino profissional, pois ele fica escandalizado por ela querer matar o pai: estes são alguns motes para as histórias do Ela e as Outras mulheres, décimo primeiro título que a Campo das Letras editou entre nós do prolixo, carnal, desbocado e virulento escritor brasileiro Rubem Fonseca, Prémio Camões 2003.

São vinte e sete mulheres, uma para cada conto, construídas no quotidiano urbano violento. São adolescentes, jovens, adultas, de meia-idade e idade avançada; são vítimas, dedicadas, meigas, solitárias, manipuladoras, cerebrais, lascivas, ninfomaníacas, cleptomaníacas; são 148 páginas de histórias curtas, concisas e de enredos imprevistos, que se lêem de um fôlego, em apenas algumas horas.

Mesmo que em muitos contos Rubem Fonseca construa a psicologia feminina de forma estereotipada, cheia de lugares comuns, com moldes repetitivos de violência e sexo (obsessões na escrita do autor e que lhe têm granjeado críticas de ser um escritor comercial), noutros irrompe o processo de construção de histórias com fulgor quase genial. Em subsídio da leitura activa está, também, a componente cinematográfica das pequenas narrativas, velozes e dinâmicas, que prendem o leitor ao texto levando-o de surpresa em surpresa até aos finais inesperados, arrancando-lhe um sorriso ou uma repulsa, e nunca a indiferença.

Por ordem alfabética, vão surgindo os nomes das mulheres, titulando os contos, marcando diversas cadências na pulsação desta antologia.
Francisca, tal «como toda a mulher casada», vivia «tomando remédios aos montões para aliviar momentaneamente» a sua «insuportável carga de frustrações», até que um dia decide usar os seus medicamentos para mudar a vida. A resolução era simples: juntá-los à bebida do marido para depois o matar. Corre assim o texto:

Estava morta de cansaço quando cheguei à varanda, mas ainda tive forças para deitá-lo de barriga sobre a grade da varanda e depois agarrar suas pernas, levantá-las e impulsionar o corpo.
A queda causou um distante som oco ao bater na calçada.
Depois liguei para a polícia dizendo que o meu marido tinha bebido demais e havia caído da varanda. Acrescentei que ele era viciado em entorpecentes.
Voltei para a sala e bebi outra taça de champanhe. Adoçava a boca, antes de começar a comer o pão que o diabo amassou.
Depois, na frente do espelho ensaiei a história que ia contar para a polícia. Seu delegado, isso aconteceu no mês passado com o morador do 1201, que também misturava bebida com calmantes, era alto e gordo como o meu marido e caiu da varanda, a grade é muito baixa.
Ele provavelmente também foi empurrado pela esposa, mas esse final não ia contar.
Fiz minha cara de choro e as lágrimas escorreram. É fácil chorar se a pessoa está feliz.

A história de Belinha introduz a figura do assassino a soldo, muito cultivada na literatura brasileira e que se radica na violência real que grassa no país. Esta figura está incluída noutros contos desta colectânea, nomeadamente na história de Teresa, mulher que é salva por um destes assassinos que matam por dinheiro, mas «nem sempre»; e assim se mostra a dedicação das letras brasileiras pela exploração esta figura da violência nos seus múltipos contornos, filão para a sátira social.

Belinha tem dezoito anos, é menina de boas famílias, formada em bons colégios, fala francês e gosta do namorado bandido porque o «tesão» dele era verdadeiro. Mas a rapariga comete um erro de cálculo ao pedir-lhe que assassine o pai para ela ficar com o dinheiro, pois o namorado, assassino profissional que a adorava, tinha a sua honra, e descarrega-lhe a Walter «bem na nuca para ela morrer de maneira instantânea e sem dor.»: «Como é que alguém pode querer matar o pai ou a mãe?».

Ela e Outras Mulheres, Rubem Fonseca; editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008


© Teresa Sá Couto

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Canto do Sul

Galardoado com o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, A sul da escrita de Dora Nunes Gago, de 2007, faz jus ao patrono do Prémio: a escrita depurada e delicada é um hino à criação literária de autores nascidos no sul de Portugal, ao mesmo tempo que colhe a alma da terra exibindo-lhe as texturas, as melodias e os cheiros. Conto após conto, o leitor é envolvido em sinestesias que o catapultam para a única terra possível: a terra das casas brancas semeadas na planície tendo por tecto um azul infinito, das badaladas lânguidas dos sinos, do «canto trinado das cigarras», do «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», do amarelo odorífico das mimosas, do «cheiro forte da terra molhada e criadora».

O «panteão espiritual» do Sul começa com Ibn Amar, «poeta do Al-Garb», corre o ano de 1086. Narrado na primeira pessoa, o poeta, escravo e prisioneiro de guerra, encarcerado numa cela em Sevilha pelas mãos de Al-Mutamid, antes seu amigo, revê a sua terra, a sua vida, as escolhas e os caminhos que essas escolhas ditaram. Na claustrofobia do cativeiro, relembra traições, intrigas, invejas, ambições que «vão minando e corroendo os carácteres mais puros, como a traça faz no mais belo e rico tecido». Porém, o tecido da sua alma mantém incólume o ouro: enquanto espera pelo futuro, desenvolve a sua poética «depurada de toda a vileza e traição» e, com ela, tece a sua imortalidade.

Segue-se o ano de 1536 para se testemunhar o último suspiro de Garcia de Resende, o «poeta-amante que preferia a morte a viver sem a sua amada», que escreveu para o futuro a Cultura e a História portuguesas num legado abraçado, continuado e divulgado pelo poeta do mundo, que seria Luís de Camões. Ainda no século XVI, surge o eterno canto do rouxinol que, místico, canta a saudade e a alma exausta: Bernardim Ribeiro

Entra-se em 1859 com o canto de ternura de João de Deus. Puro na poesia, zeloso no ensino das primeiras letras, o autor da Cartilha Maternal cumpria a sua missão de corrente na lapidação da cultura portuguesa. Ainda no século XIX irrompe o «poeta, dândi, cronista e panfletário», o singular Fialho de Almeida.

O século XX traz a infeliz que vagueou pela vida «perdida nos seus devaneios»: Florbela Espanca. É o conto mais longo da série e recria pungentemente a vida triste da «Princesa desalento», os amores infelizes, a imaturidade afectiva, a má reputação, as tentativas de suicídio até ao consumado.

No sentido inverso do desprezo social surge o popular e amado António Aleixo, o ti Toino, com a sua vida de miséria que albergava a riqueza da alma. E corre assim o texto: «António sente-se feliz com o apoio do povo, apesar da doença que o vai consumindo, das forças que se esvaem, como a água através da peneira …Desconfia que o final se aproxima a passos largos. É nisto que vai meditando, a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia. Todavia, não sabe ainda que quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida.».

Também Emiliano, penúltimo inscrito neste hino de Dora Nunes Gago, está quase a abalar da vida. O médico e «poeta da luz e da cor» conhece a dor da perda, pois está-lhe sulcada na existência. «Sentado no seu cadeirão, com uma folha de papel poisada no colo, toda a dor, o sofrimento, mas também as cores pujantes da natureza se convertiam em poesia.».

O canto finda com o esplendor da vida de Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (entre 1923-25), falecido a 18 de Outubro de 1941, na Argélia. Desde cedo conviveu com escritores, entre eles João de Deus e Fialho de Almeida. É no retiro argelino que produz muitas das suas obras reveladoras de um humanista preocupado com a justiça e seduzido pela sensualidade. Mas é também com este final que a autora dos nove contos abre as portas para o futuro, num claro desafio: não nos esquecermos dos que puseram o seu sangue no idioma, que é o nosso, é fazermos a parte que nos cabe, é garantir-lhes a imortalidade.

A Sul da Escrita, Dora Nunes Gago, Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007


© Teresa Sá Couto


página de Dora Gago, AQUI

terça-feira, 28 de julho de 2009

«Pessoas, Animais e Outros que Tais»

A arte de contar histórias

Um narrador que fala com o leitor, um cão companheiro de jornada do narrador com faro infalível para detectar feitios e personalidades, e treze histórias entrecruzadas, é a proposta do livro Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado assinado por Pedro Baptista, um exímio contador de histórias.

Não há sossego nesta leitura. No centro irradiador da narrativa está uma loja de velharias, frequentada pelos clientes habitués que dão origem a estórias com outras estórias engatilhadas que a escrita encaixa a um ritmo vertiginoso. Com subtileza, o reino animal é convocado, criativa e inusitadamente, para se construírem as personagens no desfile de títeres da existência, para se destruírem apatias na leitura. São 163 páginas farejadas pelo cão Púchkin, onde até surge uma história de amor entre um burro e um ardina, além da história do fascínio entre o leitor e a leitura.

O narrador Domingos Pintado é um reformado acabado de chegar aos sessenta anos, antiquário e alfarrabista, estabelecido no Porto, na travessa de Cedofeita, «quase a chegar ao largo chamado de Alberto Pimentel, onde acabam as Oliveiras e Mártires da Liberdade começa». A sua loja cheia de «cangalhada» expõe, além de velharias literárias, todo o tipo de objectos, a «panóplia das coisas do mundo». Por isso, nela exalam os cheiros do tempo e vibram os sons que compõem enredos. Fiel companheiro do leitor, este narrador transmite-lhe todas as ambiências, todos os humores além de, com mestria, o levar para dentro das narrativas para o fazer participante no julgamento das personagens e do próprio narrador.

Dado a degustações, o singular narrador almoça frequentemente no Buraco, na rua Bulhão Pato, carapauzinhos de escabeche, onde a «conta era feita a olho e sempre igual», «puxava por um cafezito no Majestic ou no Ateneu, em seguida um salto à Latina, quando não à Bertrand e à Leitura, a ver as novidades ou, melhor, «a ver se havia novidade». Com ele, ou melhor, connosco – narrador e leitor –, o inseparável cão Púchkin «que não só era como uma pessoa, era mesmo uma pessoa. Não humana, mas pessoa», um grande psicólogo. Mesmo antes de nós – narrador e leitor –, o canídeo topou logo o Pimenta, personagem que percorre as narrativas que, todavia, podem também ser lidas autonomamente, como se de contos se tratassem.

Aristides Pimenta é um «autêntico mito» de partidas cruéis e humilhantes, pelo que o desejo de se lhe dar «uma ensinadela assomava cada vez mais a mente de todos» até que um dia o rapaz de uma estalagem pincelou «toda a pelugem dos interiores nasais do Pimentola» com o «material mais prosaico da vida animal…estrabo, bolisco, bestoiro, com sua licença, era mesmo merda» e é ver o altivo Pimenta no descontrolo da loucura. Figura esquálida, nariz afilado e «meia dúzia de pelos semeados a despropósito no centro da cabeça», aparecia umas vezes para companhia «que uma pessoa precisa numa hora deprimida, outras o inverso a estragar o dia que até tinha começado por sorrir, outras nem uma coisa nem outra, um chato de adormecer». O cão rosnava-lhe, presenteando-o com o «melhor dos seus sorrisos», mostrando a «dentuça escancarada a rosnar apaixonado»: «com efeito, o Pimenta era daqueles capazes de fazer uma patifaria a um cão, por causa da similitude de alguns sentimentos que com eles partilhava e não eram os que mais enalteciam a nobreza dos canídeos. O Pimenta entrara em derrapagem, numa depressão acelerada, agravada pela patologia do corno: «a mulher, muito mais jovem, desarvorou e, ao que se rosna, foi aquecer a cama dum actor», a do Marques, a quem o Pimenta antes pregara uma partida.
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Ao invés do Pimenta, o clarividente Púchkin aprovara o Senhor Mello, e sempre que o homem se anunciava na loja, o cão latia de forma reiterada, «reclamando pressa na abertura da porta». É o Mello que conta emocionado a história do ardina, do jumento e da couve, uma história de idílio, «da terna ligação entre o humano e asinino»: o animal que, habituado à couve que o ardina lhe dava todos os dias de manhã na esquina onde trabalhava, falecido o ardina, matou-se à fome, recusando-se a comer fosse o que fosse. Classicista que não gosta de se expor, mas o narrador fá-lo por ele, o Mello é outra das personagens que a narrativa detém, dentre o arco-íris de personagens que nela pouco se demoram – entram e saem ao sabor da excelsa divagação – mas que tatuam a grande história deste livro.

«Como considerava a entrada das personagens na cena da loja ou a sua simples passagem à frente da montra de uma grande riqueza, digamos… temática, comecei a orientar as notas do meu caderno anual para a produção destas histórias, que a leitora ou o leitor estão a ter a paciência de seguir. É a primeira colectânea mas, se a coisa correr, haverá mais no armazém», lê-se na página 90.

Cabe-me dizer ao Dr. Domingos Pintado que esperamos com mal disfarçada impaciência um novo tomo das suas histórias «recolhidas na loja e registadas nos canhenhos». Culpa dele por nos ter deixado adictos destas viagens. Exigência nossa no reencontro com a escrita arejada, elegante e inesgotável.


Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado, Pedro Baptista; editorial Campo das Letras; Porto 2006


© Teresa Sá Couto

sábado, 20 de junho de 2009

O desaforo da escrita de José António Barreiros

Há um homem por detrás de um fragmento de vidro. Olha fixamente a realidade e, cansado de a ver, congemina o que fazer com ela. Pela acção do olhar fixo, o fragmento de vidro estilhaça-se em dezasseis fulgurantes luminescências de um caleidoscópio chamado Contos do Desaforo. O homem da singular urdidura é José António Barreiros e o livro que aqui referencio é de 2007 e é a sua estreia nas paisagens que «a imaginação escreve e a fantasia ilustra».

«Só escreve quem vê. Só vê quem afasta (e se afasta)», diz Gonçalo M. Tavares no prefácio, referindo-se ao método utilizado por José António Barreiros. E é esse jogo de movimentos de proximidade e afastamento da realidade que encontramos nas curtas narrativas que ousam xeque-mates de desaforo contra o lugar comum e a apatia. São dezasseis olhares insubmissos pintalgados de humor insuperável, para uma leitura imperdível.

«A única coisa de que preciso para ser feliz é de tempo. Muito tempo», lê-se no primeiro texto, distinto dos que se lhe seguem, pois é esculpido em jeito de justificação ao leitor sobre «a necessidade de contar». E são de tempo as narrativas, de tempo e dos arranques sem razão de que é feita a vida que é feita de tempo. Mas o que tem para nos contar o autor? Conta-nos que todos somos, num qualquer momento, intrusos no nosso lugar, que todos temos um armário, com mais ou menos gavetas, «imóvel e disponível» e uma vontade desmedida de desarrumar o mundo para, à nossa maneira, o podermos arrumar nas gavetas do nosso armário, assim aprisionando a realidade, fugaz e passageira, ou a ilusão dela.

«Um dia, o céu e a terra unir-se-ão numa cratera fatal. Até lá, eu escrevo isto, pensando na eternidade, como se nisso acreditasse», diz o autor e explica a «escrita obsessiva e simultaneamente necessária e inútil»: «Sem ela eu não teria um mundo que vivesse, devorado pela monotonia do óbvio, pela materialidade do evidente. E, no entanto, descontado um ou outro encantamento que isso provoque, nada mais volátil do que as palavras que aqui ficam, como um perfume que um momento de rua faz evanescer. No fundo, é uma escrita de nada, manuscrita em folhas de coisa nenhuma. Mas haverá mais substância no real do que esta, que não existe?»

Afastando-se da realidade para a apreender - «estar longe é isso mesmo, é verem-se apenas as grandes coisas» - José António Barreiros edifica o «sonho de uma casa de papel» e o leitor constrói a ilusão de nela se encontrar. É a luta com o tempo e a necessidade de se ser algo nele.

A semelhança com o real é mera ilusão

«Cruzo-me comigo em cada página, às vezes fingindo não me ver», diz o autor em nota introdutória, esclarecendo que escondeu «muito quotidiano, ficcionando-o, para parecer plausível». Munido de uma escrita elástica, capta acontecimentos correntes, personagens em trânsito, entre o ser alguma coisa e coisa nenhuma, aprisiona a fugacidade: «há, nos encontros fugazes, a força do desejo: neles se concentra a vontade de encontrar».

Também o leitor se cruza consigo ao encontrar-se com as personagens e com a ironia do olhar que capta a comédia humana:
«Fazem assim as famílias. Atestam os carros de malas e de miúdos, guardam zangas para a viagem e coisas fundamentais de que se esquecerão. Entre o parar para vomitar, que eles são pequenos, e para urinar, porque ela é velha, lá vão galgando quilómetros, para voltarem estafados de terem ido».

E lá está o encontro com a mulher que não consegue entender porque não pode deixar em testamento a parca reforma às suas galinhas, minudências afectivas incomportáveis num documento do Direito; com o professor de liceu que vem numa camioneta para Lisboa e regista a azáfama galhofeira de duas viajantes com o seu pacote de bolachas; com o réu silencioso que só nas alegações finais resolve discursar para mostrar que ao ouvir a convicção de quem o acusa convence-se do seu crime: «Se um homem se condena por não saber resistir à veemência dos que o acusam, se a verdade é a força da convicção com que é dita e proclamada, condenara-se.».

Reputado advogado criminalista, José António Barreiros saltou para o mediatismo da nossa aldeia por defender Vale e Azevedo, Pimenta Machado ou José Castelo Branco. Sobre a sua intervenção pela escrita de ficção, o autor diz num dos seus blogues que «se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume». Aguarda-se. «Na representação cómica que é a vida», todos somos «arrumadores de almas», e esta escrita desafia-nos a arrumar as nossas gavetas ou a termos a ilusão disso, o que é a mesma coisa.


Outros blogues de José António Barreiros, aqui e aqui

Contos do desaforo, José antónio Barreiros; Editorial Presença, Lisboa 2007


© Teresa Sá Couto

domingo, 8 de março de 2009

Natália Correia, uma força superior

Incontornável: falar de Natália Correia é entrar em revoada. Mulher de voz diversa, rebelde e intelectualmente avassaladora, de «Espáduas brancas palpitantes:/ asas no exílio dum corpo», «Por vezes fêmea. Por vezes monja./Conforme a noite. Conforme o dia», cumpriu-se na palavra e pela palavra, estendida em poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, relatos de viagem, registando sempre a peculiar forma de viver, indignada e insubmissa.

«Além de mim age um ignotus que ainda estou para saber o que é», dizia Natália para nos explicar, assim inexplicavelmente, a natalidade da sua criação genial. Concretamente, sabemo-la a feiticeira que se adiantou ao tempo e que continua a deslumbrar-nos com a sua verve original e inconfundível que nos atira na odisseia da existência.

O livro de Natália «Contos Inéditos e Crónicas de Viagem» é uma exibição, mais uma, da força superior e da escrita maior da autora. Prefaciado soberanamente por Zheto Cunha Gonçalves, é o 3º volume da colecção, por ele dirigida, que colige a obra jornalística de Natália Correia jamais editada em livro. Uma surpresa imperdível.

O livro de inéditos, editado pela Parceria A.M.Pereira, está dividido em duas partes, com textos escritos entre 1948 e 1985 e dispostos de forma cronológica. A primeira parte contém a estupenda lavra ficcional de Natália, em sete contos, e a segunda, mais de cariz jornalístico, traz-nos encontros com diversas personalidades, nacionais e estrangeiras (Norton de Matos ou Kadafi, por exemplo), além de narrativas de viagens. Contudo, em todos os textos, irrompe a surpresa narrativa, rutila a poesia, produto de um ministério de assombro literário; todos os textos nos dão «notícias do homem», escritos com «êxtases e intemperanças do sentimento», segundo palavras de Natália, agora relembradas por Zheto Cunha Gonçalves que, no prefácio, contextualiza a autora e dá-nos uma leitura de cada um dos contos inéditos.

Defende o prefaciador, e não poderíamos concordar mais, que «uma fortíssima carga poética subjaz e alimenta, da primeira à ultima linha, a par da ironia, ora branca como a magia, ora negra como o mais negro, cáustico e corrosivo humor, a narração e a factura desta escrita – nua e límpida como a desobediência que advém da rebeldia e da paixão, do encantamento do mundo e da intransigência para com a estupidez que é a falsificação da vida submetida às leis de moralismos utilitários.». A factura paga por Natália por deter esta inexcedível força da natureza – e que por se sentir um ser livre interveio conforme a sua consciência, sempre com coragem e frontalidade –, agrilhoou-a no epíteto de «excêntrica», do qual jamais se liberta, e que fez com que se desprezasse a sua criação artística. À adversidade do seu tempo, Natália responde com a ética de se inventar constantemente, e ora se rebela e se agita, ora se recolhe e medita, sempre produzindo palavras alquímicas.

«Feliz» é o título do primeiro conto e da personagem que ele edifica: uma mulher, «a idiota da região», que «nascera aleijadinha do juízo» e ostentava sempre um sorriso no rosto. Sozinha no mundo, Feliz encontra em Bento Gaiato o «único amigo, o único animal humano que a acariciara» e, mesmo sendo «coisa ruim» que se aproveita dela, Feliz, numa prova de gratidão assume o assassinato praticado pelo seu Bento. A crítica corrosiva «do português médio» irrompe em «Filme Tragicómico da Vida nas Praias em 3 Partes» com «heróicas virgens de bairro», «aves tontas» com ambições das «stars hollywoodenses» e de «um possível marido». Revelam-se «os títeres» de sempre, traçam-se retratos vibrantes da «urbe trágica e ridícula que se petrifica numa lágrima de Charlot».

Repletos de desamparo e desenraizamento, os contos «Um Homem Enamorado do Outono» e «Esplanada» trazem vozes de pessoas que «não são mais do que solidão», loucura e demência, e desatam-nos emoções antiquíssimas, fulgurações de sangue intemporais: «a música sai dum violino roído pelo tempo e o cego do violino é apenas mais uma sombra dessa tarde que se esvai num sopro de amargura.» Estupendamente inusitados, ou não fossem natalianos, surgem os contos «Barbo», «O Espelho de Anaita» e «Memórias de Uma Tia Tonta», este último, com um monólogo da personagem dirigido a Jesus, uma demência hilariante, construída com singular engenho narrativo.

As «Crónicas de Viagem», o conjunto de apontamentos jornalísticos, não perdem o arroubo da escrita dos contos, enleando-nos no deslumbramento da leitura. Assim é quando regista a sua viagem turística ao reduto do pintor El Greco e, como ele, arranca à sua arte «as expressões mais vivas e originais».
Na Líbia, “descasca” a imagem mítica de Moammar Kaddafi, o «controverso ungido da Unidade Árabe», em diversos pontos: o puritano, o misógino, o fanático, e, quanto «o mito se faz carne», a figura carismática daquele líder. Regista a sua visita a Moscovo, à «Mãe heroína» em plena «Perestroika».

Em Londres, numa marcha anti-atómica, encontra-se com Bertrand Russel, «o pacifista mais teimoso do mundo» um homem «radicalmente livre» e parece mostrar-nos no seu próprio reflexo: «a liberdade não é o privilégio de nenhuma ideologia mas antes aquilo que permite ao homem denunciar as pseudo-liberdades com que as ideologias nos atraem.».

Em Ponte de Lima, «numa viagem recreativa», descobre a eterna juventude do General Norton de Matos que mostrou «alta impetuosidade patriótica, que galvaniza o mais céptico apátrida », numa conversa «em que as horas rolaram nas fulgurações do espírito jovem».

Natália Correia, que soube a solidão do desprezo e das portas fechadas, soube olhar a solidão do Alentejo, esse «meio sem ponta» que espera, escrevendo-o desta forma:

Campos de ouro… muita terra… campos lilases… muita terra… Aldeias cenográficas de peças realistas com um toque Iorquiano… tão realistas que chegam a ser irreais… Homens atarracados que descobriram a atitude que convém à situação humana de estar… Estar… à espera de quê? (…) O humor que perpassa como uma aragem neste mundo ardente e estático, responde: "À espera de nada. À espera apenas… Acaso não é a existência, em toda a sua gama humílima e grandiosa, um tecido infinito de compassos de espera?".


Natália Correia, Contos Inéditos e crónicas de viagem; Editora Parceria A.M.Pereira, Lisboa 2005


© Teresa Sá Couto

sábado, 17 de janeiro de 2009

A verdade e a máscara

Com as palavras podem escrever-se «palavras-ficção»: «Água, Cão, Cavalo, Cabeça»; quatro palavras, gatilhos para «os movimentos de ficção» de vinte e cinco pequenas narrativas sincopadas, na cadência do disparo. «O cão pode ser visto como música equilibrada (harmonia é a palavra) devido às suas quatro patas (como uma mesa orgânica). Mas se ao cão se cortar uma das patas a nossa vida altera-se, e sangra tudo, como quem é traído por uma mulher ou pela morte do pai.».

Assim corre a escrita que busca as desarmonias, os desequilíbrios, a loucura do ser humano ou a verdade por detrás da máscara. Assim é o mundo, e as palavras desnudam-no para o tomar. E assim reconhecemos a escrita original e inconfundível de Gonçalo M. Tavares.

Numa das estórias deste «água, cão, cavalo, cabeça», lê-se que a natureza do homem «não tem mapas, nem cores como os mapas». A natureza do homem é «uma aranha», melhor, «um aranhiço: é mais confuso do que uma aranha». E, acrescenta-se, os aranhiços «são como os pais que protegem o filho e o filho que se protege a si próprio, e ainda como todos os seres com sangue e até as plantas: é preciso sobreviver, eis o universo».

É neste “projecto de sobrevivência” que se insere a obra de Gonçalo: no universo largo e complexo, com a complexidade da natureza do homem, capturada nas faces mais sombrias. Como a bala, que é um «animal impaciente e rápido», a escrita do autor, viva e sem pudor, investe o impensado, abala a “ordem estabelecida”, revoluciona-nos a forma de olhar. A responsabilidade do discurso de Gonçalo está em mostrar a desordem para, pela palavra, encontrar uma ordem, o que pode corresponder à ideia de que é desintegrando-se que o cosmos se organiza ou na missiva de He Xiu: «Uma ordem surgira da decadência e da desordem».

Os quatro substantivos que fazem o título deste novo livro constituem novas investidas na análise desse universo, manipulada por um investigador de talento.
«água» remete-nos para vida, sangue, lágrimas, dor; «cabeça» remete-nos para loucura, o lugar onde nos escondemos; «cão» e «cavalo» surgem-nos como metáforas literárias para «os aranhiços» de «água» a «cabeça». Última na disposição é, todavia, a «cabeça» o “segredo” de tudo,:

a cabeça é o sitio para a fuga mais rápida que as outras, posso entrar na raiva e voltar, e um segundo depois entrar no tédio, e depois voltar.
Viaja-se: o ocupante da cabeça vai aqui, depois mais à frente (desejo, asco, angústia) e regressa.

Também o cansaço pode chegar à cabeça e, lê-se, é um momento mínimo, menos que um segundo, mas vem por vezes um pensamento de ódio, e é isto o cansaço, é aqui que ele pode chegar. É preciso ter medo dos homens e das mulheres cansadas. E a cidade é rápida de mais, empurra-nos para o nosso corpo pior (de entre os vários possíveis.).

O corpo “que revela”, sempre presente na obra do autor, é o produto da ditadura da cabeça. O texto mostra-nos isso, como quando conta a consequência de ter sido disparada uma arma só de fazer barulho, numa pata, e na cabeça de um cão:
A forma como o cão caminha não foi do tiro no pé, mas na cabeça: está louco, o cão, vê-se nas pernas.

Onde fica o amor e o coração?

No projecto de sobrevivência, o que se faz ao amor e ao coração? O texto responde:
E o único fenómeno estranho ao instinto de sobrevivência que manda em qualquer pessoa, animal ou anjo que exista, é o amor. Mas o amor é tão popular entre os vivos que se tornou num sentimento da multidão: há que receá-lo como se receia a palavra de ordem de qualquer ajuntamento exaltado.

Quanto ao coração, é arremessado como um projéctil pesado:
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração (…)para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento rápido com o braço, e por último travar subitamente e projectar o pulso para a frente (…)uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.

Carl Sagan disse: «Eis que, pela primeira vez, fazemos parte deste mundo, o nosso vasto e terrível universo.». É assim que sentimos a leitura de Gonçalo M. Tavares. Fique, sem mais comentários, um último exemplo:

(…)Tinha que pagar a um oculista. Levava o cheque já preenchido. Cheguei ao sitio e disseram-me: Morreu ontem, num desastre de carro. Tinha o cheque em nome dele, e agora estava morto. O primeiro pensamento foi: se eu tenho um cheque para lhe pagar, ele não pode estar morto. O segundo pensamento, passado uns segundos, foi: vou ficar com o dinheiro. O terceiro pensamento foi: como é que a tua cabeça foi capaz de ter aquele 2º pensamento? O quarto foi: toda a gente pensa todas as hipóteses numa situação, mesmo as hipóteses mais nojentas. Mas o senhor tinha um pai ainda vivo, e eu rasguei o cheque antigo e escrevi o nome do pai no cheque – era quase o mesmo, só mudava a primeira palavra. Estávamos os dois num restaurante de comidas rápidas, de pé. E o pai do meu oculista, que morrera num desastre de automóvel dois dias antes, estava vestido de preto e estava triste, falava pouco, e tinha os olhos baixos. Mas recebeu o cheque.

Água, Cão, Cavalo, Cabeça, Gonçalo M.Tavares; Editorial Caminho, Lisboa 2006

© Teresa Sá Couto

nota: outros textos sobre a obra de G.M.Tavares, em baixo, na etiqueta correspondente

«Histórias Falsas» encostadas à verdade

Há livros com sabedoria para saírem do presente levando-nos, leitores, em viagens donde retornamos mudados. «Histórias Falsas» de Gonçalo M. Tavares é um desses objectos de mudança: fora da sua esfera, e fora de si, o leitor pode regressar finalmente ao seu centro, numa espécie de «Conhece-te a ti mesmo».

Recuando três mil anos, ao tempo dos grandes filósofos, constroem-se nove pequenas estórias, com ficção encostada à verdade, com grandes revelações sobre a errância humana: o homem é um caminheiro numa vida de encruzilhadas e desvios de percurso, para melhor ou pior. O que interessa é mostrar os caminhos: «o homem que desce o caminho mais fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele.».

Pascal perguntava: «que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, cloaca de incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem deslindará esta embrulhada?». Ora, é neste deslindar do ser humano que enquadramos a escrita de Gonçalo M. Tavares. As suas histórias de personagens aliam a ficção à reflexão existencial, dissecando o homem até à verdade: o homem é um sujeito de contradições, é ordem e desordem, afecto e ódio, razão e loucura, porque é racionalidade e irracionalidade. Como defende Edgar Morin, «Verdade e erro são antagonistas e complementares na errância humana», e Gonçalo mostra-nos isso como nenhum outro escritor.

No dédalo dos caminhos, conta-se a «história de Listo Mercatore» e as suas duas vidas, antes e depois de conhecer o filósofo Diógenes. Na primeira, «Bebia de manhã para ter coragem para enganar, à noite para esquecer os efeitos dessa coragem e para adormecer. Para alimentar o estômago, os sentidos e o desejo, precisava de dinheiro. Os banquetes e as mulheres alimentavam as farsas». À noite tinha sonhos que o atormentavam: «por mais que se ande, o que se andou permanece no corpo: chama-se cansaço, fadiga; ou memória. Ele agia e as suas acções permaneciam nos ossos, pesavam. Como aquele homem que vive com um punhal espetado nas costas e não tem determinação para se livrar da lâmina ou, em último caso, para pedir ajuda.».

Um dia, conhece Diógenes, o filósofo que comia, sentado no chão um prato de lentilhas. Com a arrogância de quem tinha o estômago farto, Mercatore disse-lhe: «Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.» Diógenes respondeu-lhe à letra: «E tu – disse o filósofo – se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.». Esta resposta foi epifania para Mercatore. Perturbado, caiu em si. Tornou-se um asceta. Purificou-se. Quando morreu, no seu quarto estavam apenas algumas garrafas de água; e lentilhas» E o seu corpo «transmitia uma calma incomum. Morrera no meio do sono, tranquilo.».

Na «história de Aurius Anaxos», assiste-se à destruição de Aurius, primo do filósofo Anaxágoras, e por ele influenciado. Durante a vida, Aurius «entusiasmava-se inteiramente com um caminho, uma acção e, logo a seguir –por vezes mesmo no meio da subida – aí mesmo, a metade, desistia, virando costas e recomeçando, agora por outro lado, indiferente ao esforço que fizera para chegar àquele ponto». Quis mostrar que não era inconstante como o criticavam, tornou-se obsessivo e, ouvinte com mau ouvido, pois deturpava os ensinamentos, a inveja do primo tomou conta dele.

Na «história de Elia de Mircea», testemunhamos a aprendizagem de Elia, que tentava ser sábio e ouvia o mestre, o sábio Lao Tse, que ensinava: «o verdadeiro mestre não é o que força a passagem, é o que a seduz. Quando o mestre passa os cães não ladram, admiram.»; fácil é vencer quando se é mais forte; difícil é utilizar a força para os outros não perderem; mas só isso é justo.». Até que uma noite a intensidade que ensina entra-lhe no sonho, «um sonho com tanta importância que atravessou a parede, tornou-se real e consequente». Assim se mostra que a aprendizagem dura a vida inteira.

O sacrifício e o fulgor das figuras femininas

É recorrência no autor aliar à mulher o Amor e a Morte, constitutivos do drama existencial – como constatámos noutras suas obras apresentadas. Também neste livro, a mulher é o «animal com o coração maior que o corpo», a que nunca desiste do amor, a luz que se mantém quando no homem só há sombras. «A história de Julieta, a santa da Baviera» é representativa de mulheres «com a força que só o coração e o desespero conseguem», carregando às costas filhos e maridos, livrando-os da morte. Romeu, o duque da Baviera, era «obcecado pela procura e excessivo na rapidez com que passava pelas coisas»: ele e Julieta amaram-se «e no dia seguinte acordaram. Ela embevecida. Ele, com tédio». Cruel, «matava como o agricultor semeia», até que encontrou um adversário maior, que o derrotou. «Abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte». Mas eis que aparece Julieta, já velha, ainda apaixonada, para o carregar às costas. Sem milagres, são os dois queimados – «só se pode odiar a mulher que ama o inimigo». Num último sacrifício, Julieta oferece primeiro às chamas o seu corpo, que só depois consomem o do seu amado. Por isso, enaltecendo-a, o adversário, o imperador Conrado III mandou construir-lhe, no local, uma estátua, «quase um milénio depois de Cristo ter levantado a ingénua hipótese do amor».

A «história de Lianor» é a de uma mulher recusada por Tales de Mileto – não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.». Ela quis morrer e atirou-se ao mar fazendo com que Tales levasse uma vida virada para a água onde o corpo dela desaparecera.

A «história de Faustina» fala-nos da esposa do Imperador Marco Aurélio – que dava à mulher «o pouco que pode dar quem do mundo se defende não esbanjando emoções» – que se apaixonou por um centurião. Traição irremissível, todavia pediu clemência para o amante: «A paixão, por momentos, a falar mais alto do que a ambição»; nesse acto chegava até onde pode chegar o amor: à total imprudência. Pedia o impossível, acelerava o inevitável». Os silêncios do Imperador «vinham de quem tem o poder: assustavam». Crendo que só o asco faria com que ela esquecesse aquele amor, o sangue quente do amante foi vertido sobre o corpo de Faustina, o que a atormentaria até à morte.

Surpreender a realidade pelo seu lado mais inesperado é um exercício perturbador, mas prenhe de revelação. E é de conhecimento que se trata, quando apreendemos a singularidade da expressão literária de Gonçalo M. Tavares.

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas; Editora Campo das Letras, Porto, 2005

© Teresa Sá Couto

nota: a edição deste texto surge na sequência de pedidos, que há algum tempo tenho vindo a receber, sobre "por onde começar a ler Gonçalo M. Tavares". O último, feito por Adélia Riès, veio despoletar em definitivo a minha acção. As sugestões podem ser várias. Opto, todavia, por este «Histórias Falsas» e pelo «Água, cão, Cavalo, Cabeça», com texto que passo também a editar. Votos de Boas Leituras.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vinte e duas imagens da infância

Grande Prémio Camilo Castelo Branco para Ondjaki

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, autor de uma vasta obra que se desdobra em contos, romances e poesia, autor da magnífica história infantil «Ynari – a menina das cinco tranças», acaba de ser galardoado com o Grande Prémio de Conto "Camilo Castelo Branco" 2007 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Os da Minha Rua", já editado no Brasil (segunda capa na fotomontagem).

Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando comprova-se que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afecto, da identidade.

Ondjaki regressa às pequenas estórias com Angola no batimento narrativo, agora ainda mais mágica, pois olhada pelos olhos da idade da inocência. «Escrevo para compreender. Compreender o quê? Tudo», disse José Saramago. Respondendo ao grito das raízes e desafiando o pó do tempo, o jovem poeta de Há Prendisajens com o Xão recria os ramos e os laços da infância para os fixar e compreender ou, segundo Manoel Barros, «um livro o ensinou a não saber nada – agora já sabe».

Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projectando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: «A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…) nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.».

Cinco miúdos, Ndalu, o narrador, Tibas, o mais velho, Bruno Ferraz e Jika, o mais novo, constituem a equipa do tang que sonhava com coca-cola a ponto de dos seus olhos sair um brilho «tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e a assustar os mosquitos». Com eles constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está a aprender a viver como as crianças que a contam. Neste sentido, esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.

A nova nação pelos olhos das crianças

Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».

Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:

«Chamava-se "Cine Atlântico" e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, umas poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela toda gente fazer um silêncio de espera e logo depois assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começarem a gritar "Jerri Quan!, Jerri Quan!". Bateram palmas e eu também..».

Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».

A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:

«um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi estava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também, muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.».

A perda e a luz

Diz-nos o texto:
(…)o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso ir perguntar aos galhos de um abacateiro velho(…);

(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.

Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.


Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007
© Teresa Sá Couto