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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Milton, William Blake

 (texto publicado no sítio Orgia Literária, em 11.01. 2010)

«Foi o menos contemporâneo dos homens» e «é um dos homens mais estranhos da literatura», disse Jorge Luís Borges sobre William Blake. Gravador, pintor, poeta visionário, William Blake (1757-1827) urdiu na chapa de gravação o fogo da sua irascibilidade, a sua inspiração tumultuosa, o humanismo apocalíptico assente numa complexa mitologia pessoal a dar conta da iniquidade e expiação humanas. Em Milton, recentíssimo título da Antígona, Blake invoca e recria John Milton (1608-1674), o «Despertador», o bardo de  O Paraíso Perdido, para mostrar que a regeneração humana se faz pela imaginação.

Longo poema épico, Milton chega-nos numa edição bilingue, com 51 ilustrações a cores, e insere-se no projecto de edições de William Blake iniciado pela Antígona, em 1994, com a primeira edição de Cantigas da Inocência e da Experiência, ao que se seguiram Quatro Visões Memoráveis, Sete Livros Iluminados, Poemas do Manuscrito Pickering e Uma Ilha na Lua, sempre com tradução, introdução e notas de excelência de Manuel Portela. Porque se impõe, assinale-se ainda a beleza gráfica de todos os livros, pelo que William Blake está em Portugal com a devida magnificência.

William Blake é um «realista da imaginação», escreveu W. B. Yeats aludindo à presença do visível no autor de Milton; uma espécie de olho interior ou, como diz Manuel Portela, na Introdução, o «olho do vórtice a que os seus textos procuram chegar», pois, segundo Blake, a imaginação é «o mundo real e eterno do qual mesmo este vegetal universo não passa de débil sombra». Sobre a transfiguração visionária, Manuel Portela refere que a forma de «espreitar o infinito que a mente abre entre a orbe do olho e a orbe do céu» parece situar Blake «entre o realismo visionário» e «a fantasmagoria surrealista», aproximando-o dum «cinema de visões». Pela imaginação, Blake expande o espaço até ao infinito e, num «Instante: uma Pulsação da Artéria», cria um universo livre da falsa aparência material, dito, afinal, desta forma clara: «O Céu é uma Tenda imortal (…) / E cada Espaço que um Homem avista em redor é a sua morada, / De pé no seu próprio telhado, ou no seu jardim num monte /De vinte e cinco cúbitos de altura, tal espaço é o seu Universo». (p.157)

No Prefácio, Blake invoca Shakespeare e Milton, «ambos diminuídos pela doença & infecção geral» por uma «classe de Homens cujo único prazer consiste em Destruir», defende que não são precisos os «Modelos Gregos nem Romanos se com justeza & verdade seguirmos a Imaginação, esse Mundo de Eternidade» e conclui com «Oxalá que todo o povo do Senhor fosse Profeta.». Para que se cumpra a sua profecia de que na «Nova Era» tudo será corrigido, há que instigar nos homens a forja criadora: «Erguei-vos, Ó Jovens da Nova Era!, e empregai as vossas cabeças contra os Mercenários ignorantes! (…) Pintores! Convoco-vos! Escultores! Arquitectos! Não aceiteis que os Ineptos em voga tolham as vossas forças com o preço que estão dispostos a pagar por obras desprezíveis ou através dos elogios publicitários que delas fazem».(p.29)

A «Salvação Eterna» estará no canto do «Homem Antigo», e o exemplo no percurso de Milton, que sacrifica a imortalidade ao descer de novo à Terra para, no mundo dos mortais, combater as forças opositoras da arte e do espírito humano. Em cometa, Milton entra no «Ovo Mundano», pelo Sul, pelos fogos de Satanás, em direcção a Norte, a Adão, percurso da regeneração humana:

Para me banhar nas Águas da Vida; e lavar o Não Humano / Venho em Auto-aniquilação & em grandeza de Inspiração / Livrar-me da Demonstração Racional pela Fé do Salvador / Livrar-me dos trapos corrompidos da Memória pela Inspiração / Expulsar Bacon, Locke & Newton do manto de Albion / Despir-lhe os trajos andrajosos, & vesti-lo de Imaginação / Expulsar da Poesia tudo o que não for Inspiração /Para que não mais se atreva a zombar com o epíteto de Loucura /Lançado sobre os Inspirados pelo insípido acabador de Borrões desprezíveis (p. 217)

O êxtase sexual que marca o instante da entrada de Milton no corpo de William Blake e a postura de crucificação representam, observa Manuel Portela, «a reunificação psíquica, sexual e cósmica» das «duas vozes bárdicas», numa comunhão assim enunciada por Blake:
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Mas quando Milton entrou no meu Pé: vi as regiões infernais / Da Imaginação; e também todos os homens da Terra, / E todos os do Céu vi nas regiões infernais da Imaginação (…) /Mas eu não sabia que era Milton, pois o homem não sabe /O que se passa nos seus membros antes de muitas eras de Espaço & Tempo /Revelarem os segredos da Eternidade: pois mais vastas /Do que quaisquer outras coisas terrenas são as feições terrenas do Homem. / E todo este Mundo Vegetal surgiu no meu Pé esquerdo, / Qual sandália brilhante e imortal feita de pedras preciosas & oiro: / Inclinei-me & atei-a para seguir em frente pela Eternidade. (p.111)

Se, «nos Lagares de Vinho», as uvas humanas se entregam aos divertimentos do amor e às «delícias do jogo amoroso /Lágrima da uva, o suor de morte do cacho o último suspiro», mostra-se quão árduos são os passos e ímpia a caminhada pelo «Ovo Mundano» esvaído na tensão dos seus contrários fabricadores de dilemas permanentes: «Os Cavalos loucos! A Charrua confundida! Os companheiros enfurecidos. / A culpa é minha! Deveria ter-me lembrado que a piedade divide a alma / E desumaniza o homem». (p.57).

E a jornada de autodescoberta de Milton, troa, total, no poema: «soa estrondoso o martelo de Los» (Los, anagrama de Sol, símbolo do Espírito Santo e da Imaginação criadora), nos labirintos de Londres, depois no resto do mundo, a forjar o Ferro, nas brasas da forja criativa pela qual o indivíduo se regenera; as Igrejas da Época «em terror & desespero», a adoração pelo medo; a tormenta humana saída do caos, e a prensa incansável e indomável a imprimir a imaginação, que dispõe «as suas palavras em ordem acima do cérebro mortal /Como os dentes da roda dentada engrenam nos dentes da roda oposta», a criar reverência à sua emanação, a produzir trechos de uma beleza inaudita, como este:
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Ouves o Rouxinol dar início ao Canto da Primavera:
A Cotovia está pousada na sua cama terrosa: quando a manhã
Desperta: escuta em silêncio: depois irrompe no Milheiral ondulante!
E lidera bem alto o Coro do Dia! triiit, triiit, triiit, triiit,
Sobe nas asas da luz para a Vastidão Imensa:
Faz eco na bela Casca azul & brilhante do céu:
A sua garganta trabalha com inspiração; cada pena
Da garganta & do peito &e das asas vibra com afluência Divina
Toda a Natureza escuta em silêncio & o Sol poderoso
Pára sobre a Montanha reparando na pequena Ave
Com olhos de humildade, & encanto & amor & espanto.
No coberto verde todas as Aves começam então o seu Canto sonoro
O Tordo, o Pintarroxo & o Pintassilgo, o Pisco & a Carriça
Despertam o Sol do seu doce devaneio na Montanha (p. 169)

«A beleza para Blake corresponde ao instante em que se encontram o leitor e a obra e é uma espécie de união mística», diz, ainda, Borges. Na chapa de gravação, onde vazava a sua cosmogonia, Blake profetizava o assombro e a inspiração que a sua obra provocaria. Aventa-se que terá morrido a cantar.


William Blake, Milton, Tradução e notas de Manuel Portela, Antígona, 2009

 © Teresa Sá Couto

sábado, 6 de dezembro de 2008

Genialidade intimidadora de William Blake

«O caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria», disse o escritor, pintor e gravador inglês William Blake (1757-1827). Com talento inaudito, mas tido na sua época por loucura e bizarria, William Blake só alcançaria no futuro o acolhimento e o elogio da sua obra gravada em diversas, mas interdisciplinares, formas artísticas. Com sabedoria, anteviu a imortalidade quando disse: «Se o doido persistisse na sua loucura tornar-se-ia sensato».

No âmbito das comemorações dos 250 anos do nascimento do autor, a editora Antígona lançou o poderoso Songs of Innocence and of Experience, em português «Cantigas da Inocência e da Experiência». A edição bilingue, português e inglês, inclui todas as ilustrações do texto original, tudo precedido por um ensaio de Manuel Portela, responsável também pela tradução da obra. Um livro imprescindível.
Genial, intimidador, inquietante, libertário, humanista, crítico social – nomeadamente sobre a igreja inglesa, apontada com soberba pelo distanciamento que mantinha dos que mais precisavam do seu conforto –, Blake acabaria por ser reconhecido como a voz que propunha a mudança, inclusive pela Igreja Gnóstica Católica, que o santificou.

Manuel Portela fundamenta assim, brilhantemente, estas formas de ser expressas pela arte de William Blake:

«A um Deus zelador e acusador, cuja ira tem de ser aplacada através de sacrifícios, Blake contrapõe um Deus protector, sempre mais próximo das criaturas do que elas podem imaginar. Ao juízo castigador do primeiro contrapõe o amor solidário do segundo, com a sua mensagem de amor, misericórdia, justiça e paz. É no amor divino, de cujo acto gratuito brotaram todas as formas, que se encontra a condição de possibilidade do universo e da própria substancia humana. (…) Recusando o fetichismo da figura divina e as superstições eclesiásticas, reconhece na matéria humana a presença da transcendência, que ele próprio tenta hereticamente transubstanciar na gravura. Percebendo a dimensão política da revelação divina através de Jesus, afirma a necessidade de se quebrarem as leis – instrumentos da prisão do espírito e do corpo – para a afirmação da possibilidade de ser. Só deste modo está ao alcance do indivíduo a autodeterminação para uma vida livre da violência da dominação e livre do medo de si mesmo.».

E escreve assim o inconformado Blake, no poema «O pequeno vagabundo»:

Mãe, querida Mãe, a Igreja é fria,
Mas a Taberna é sã, alegre & quente;
Além disso, eu sei que me tratam bem,
Coisa que a gente lá no céu não tem.

Se na Igreja nos dessem cerveja,
E lume que nos consolasse a alma,
Era orações e hinos todo o dia:
Da Igreja ninguém se perderia.

Pregasse o Padre, bebesse & cantasse,
E nós como as aves na primavera;
A beata, que está sempre na Igreja,
Não vergastava as crianças traquinas.

E Deus, como pai contente por ver

Os filhos tão contente como ele:
Não falava em Diabo ou em Barril
Mas dava-lhe um beijo & roupa e bebida.

Sobre o carácter inesgotável das mensagens de Blake, adverte o tradutor sobre as limitações da tradução, pois «por baixo da forma impressa» continua a «ouvir latejar sons e sentidos que, com outro leque de escolhas, teriam levado o texto numa direcção diferente», e acescenta: «a ilusão de forma final dada pela palavra impressa na página contradiz o movimento sempre vivo e turbulento da linguagem».
É esse latejar inquietante, que mostra os dois lados da alma, que sentimos no magnífico poema «Uma árvore venenosa» (segunda imagem, à direita). Confira-se:

Com amigo me dasavim:
Disse-lho, à ira dei fim.
Desavim-me com inimigo:
Nada disse, cresceu comigo.

Com receios a fui regar,

Noite & dia sempre a chorar:
E o sol foram sorrisos,
E ardilosos avisos.

Foi crescendo noite e dia
Numa maçã luzidia,
Que inimigo cobiçou,
Sabendo quem a criou.

Veio roubar-ma ao pomar
Estando a noite a velar;
De manhã vejo-o bem morto
Junto à arvore do meu horto.


Cantigas da Inocência e da Experiência, William Blake, edições Antígona, Lisboa, Outubro 2007

© Teresa Sá Couto