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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O amor é para os parvos , de Manuel Jorge Marmelo

Confessar ao amor tudo o que o amor tem direito depois dele ter partido é ter uma experiência pungente. Porém, só quando o amor alui é possível enfrentá-lo, dissecá-lo, estudá-lo, ajustar contas com ele; depois do amor, sabe-se que «O amor é aquilo: caminhar às cegas no arame estendido sobre o precipício».

Estancado o amor, o tempo é de aridez, mas também de conhecimento. Manuel Jorge Marmelo apresenta-nos essa reflexão num livro de coragem e mestria narrativa. Uma ficção que mostra a verdade daquele laço complexo que ata o ser humano à loucura, ao vazio da alma. Um livro com o leitor dentro dele, a reflectir em uníssono com o narrador e a dar aquiescência à conclusão – menos prosaica do que parece –, que lhe cede o título: O Amor é para os parvos. E todos o somos, pois é consequência de vivermos e amarmos.

O Amor é para os parvos foi editado no ano de 2000, pela extinta Campo das Letras, e é agora reeditado pela Quetzal, numa altura em que o autor lança, também, pela mesma editora, o novíssimo e arrebatador Uma Mentira Mil Vezes Repetida.

Em O amor é para os parvos, Manuel Jorge Marmelo confirmando-nos os seus dotes de ficcionista, e de pintor de almas, com palavras. Depois do amor perdido, em solidão, o narrador enceta uma viagem ao passado através de um longo monólogo ou um falso diálogo (e falso monólogo) dirigido à amada que partiu deixando-lhe uma fotografia desbotada em cima do seu lugar vazio na almofada da cama de ambos. Falso diálogo, porque o Tu, elemento central da acção, dela se encontra ausente; falso monólogo, porque a expressão escrita adquire tom narrativo e descritivo, criando a vivacidade do diálogo, mais propícia à expressão de sentimentos que se pretendem descritos em cima da hora e em presença da amada. Partindo da questão que dá forma a toda a narrativa  - Lembras? -, entrelaçam-se-lhe muitas outras questões num apelo constante à amada e ao entendimento de um amor perdido: Porquê?, Para quê?, Não percebes?, Entendes?, E tu?..., enformando o estilo coloquial que confere vibração à leitura, e para a qual concorrem outras técnicas, como a do narrador recuperar com as palavras os momentos da paixão que as dispensou, por bastar-lhe o «idioma topográfico da epiderme transpirada»:
«Dois corpos. Dois corpos não carecem de mais do que da fugidia linguagem dos sussurros, dos beijos que eriçam a pele, dos arquejos que preparam a doce deflagração de um amplexo», lê-se. Porém,o sujeito só sabe que o preço da entrega foi elevado, quando se despenha. Na solidão fria surgem as perguntas, as dúvidas, as contradições do amor: «mas o amor limita-se à conjugação de dois substantivos?».

A reflexão espraia-se pelas etapas e formas da consciência do amor que parece não se bastar à carne evanescente e, depois de duas bocas «estarem demasiado próximas para que qualquer vocábulo possa ser dito», importará mais: «não era já esse o amor que eu queria para nós. Havia de ser um amor pleno, de corpo presente, e, para tal, era preciso que visses tudo o que era essencial ver, que soubesses realmente quem eu sou e o que fica nos bastidores do meu recolhimento. Mostrei-te, por isso um poema. O poema que não achaste lindo e que te pôs no rosto um par de olhos escancarados.». O poema mostrava pedaços de alma, segredos. Falava, não sobre a ilusão do amor, mas sobre a vida real, sobre a morte: o apaziguamento do Eu que escolheu um local para se um dia se quisesse suicidar, um local bonito, onde a cidade desagua, onde a vida se liberta. Um segredo mal compreendido que lhe terá custado o amor? Também por esta vertente, o autor lança a reflexão que contrapõe o sublime do amor partilhado ao esvaziamento da vida corrente, e de que forma amor e vivência quotidiana podem coexistir.

As razões da memória

O timbre e o ritmo do destino seguem o tombo de todos os laços desfeitos; de trambolhão em trambolhão, vai-se desvelando a vida do narrador. A escrita resgata a memória da meninice, busca a identidade do sujeito  que é «todo coração.». Todavia, a memória da meninice é lisa, branca, um «mundo de leite, mas seco», um «absoluto nada» e reconstrói-se apenas pelo que o Eu ouviu contar. A repetição cadenciada dá o tom lancinante da frustração: «Apagou-se tudo. Tudo. Tenho tentado tanta vez recordar alguma coisa, mas não me lembro de nada. Nada.». A avalancha da memória deixa «sedimentos mais no sangue que na razão» e, às vezes, acorda de noite, «encharcado em suor, com um grito estrangulado na garganta, apavorado por um sonho que não sonhei, sem imagens, sem sons…um sonho vazio de tudo, excepto de pânico».
Filho de Alberto, pai que o abandonou em pequeno e mais tarde se suicidaria, e de Augusta, mulher demente que o tentou matar várias vezes – também ela crescera, como ele, «amputada desse membro invisível que é o amor de mãe» –, o narrador abre as janelas da sua «vida empoeirada», recupera os espectros do passado, e mostra-se à amada, incluindo-a, assim, na sua história de equívocos:
«Dou à memória uma razão para que exerça a sua condição de arquivo de existências, reconstituindo-te, recompondo-nos, voltando a colocar a cabeça em cima do teu corpo nu.».

A técnica de apelo a uma entidade ausente está também na convocação do leitor chamado a testemunhar o processo da escrita: «Está aí alguém? Nenhuma resposta. Silêncio, apenas. Não te vejo e, contudo, pressinto que estás aí….por isso escrevo. Escrevo e apago. Escrevo e apago. Escrevo e apago.». O leitor está presente e, atento, reflecte sobre se «O Amor é Para os Parvos»: basta imitar o narrador e questionar a própria memória: «Lembras?». As recordações virão em estrépito e as respostas serão, quiçá, demolidoras.

O Amor é para os Parvos, Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011


*outros textos meus sobre obras de Manuel Jorge Marmelo AQUI

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio


Há um tipógrafo que chora palavras, algures nas margens do rio Douro. Chora-as para o rio, e apazigua-se.
Há uma rapariga que, sentada na beira do rio, colhe, com «a concha das mãos dos olhos» sôfregos, palavras choradas pelo tipógrafo. Lê-as, e aprende a chorá-las, engrossando-se o caudal. E há o leitor, adicto, puxado para essa correnteza donde jamais quererá sair. Assim se cumpre o mistério: «Ler é tudo isso, afinal, e ainda gostar e continuar lendo, mesmo depois das lágrimas e dos sustos, das angústias e dos medos».

O livro Os Olhos do Homem que Chorava no Rio é um romance escrito a quatro mãos exímias: Manuel Jorge Marmelo e Ana Paula Tavares. É um livro de mistérios sobre o mistério das palavras. É impossível entrarmos nele sem que façamos, de imediato, parte dele. Ele aloja-nos na sua parte maior, a construção da nossa própria história. Um portento de originalidade. Um adejar de alma.

A escrita, como sacrifício e penitência é explanada no e pelo tipógrafo. Ele sabe todas as palavras, e todos os livros. É no rio da língua, onde empresta o coração, que as chora, «devagarinho entre soluços e pausas para respirar», lava-as, simplifica-as, liberta-as para leitores ávidos. As palavras, de todos os livros, são sempre as mesmas, remisturadas e recombinadas. Algumas são talhadas para a perfídia, outras para o colo e o mimo. É o escritor, o responsável pelos humores do rio, pela trama narrativa, por acender o lume das emoções. A rapariga que lê é o motivo último do tipógrafo. Sem ela, ele não existiria, pois «nenhuma das suas lágrimas seria lida».

A leitura como recriação é apresentada na rapariga que lê com sobressalto «as sílabas que se destacam da água, aumentando o ritmo ao fio das palavras, repete-as baixinho como se tivesse medo de as perder lê os fragmentos de histórias que completa todas as tardes». Ás vezes, «Num dia de mais palavras, um pequeno coração pode não caber no peito.». Outras vezes, «transita o corpóreo para um limbo qualquer, para um recanto inabitado onde se guardam as coisas que detêm os segredos do mundo.». São as vivências com as palavras que nos ensinam a chorá-las, a clarificá-las. Não será assim com todos os afectos?
Acompanhando quem escreve e quem lê, existe, ainda, uma «legião de Vultos», mais solares, ou mais sombrios. É por isso, que no meio das palavras, se ouvem «ecos de vozes, por vezes sombras de vozes, frases como bolhas de ar». Há que esperar pela música, o som perfeito do Adufe. Este som “mais-que-perfeito” acompanha toda a prosa poética desta história surpreendente, interlocutora com o mais fundo de nós.Resta-nos dizer que este livro imaginado só adquire a sua consistência no exterior, em nós seus leitores que lhe definimos o enredo:

Donde vêm as palavras? Que fundos têm? Que correnteza é essa onde elas se juntam e em vertigem estremecem-nos na fímbria dos nervos? Que legião de vultos é essa que vigia as águas e nos faz deitar ao rio de palavras, mais água de palavras, num caudal sempre insatisfeito?

Se sabemos que as palavras vêm do assombro, respondemos ao mistério com um círculo vicioso de mistérios. Um desafio para bravas emoções.
Este é, indubitavelmente, um livro para se ler de um fôlego. Teremos, depois, a certeza que o lemos mal, e necessitaremos de recomeçar. Há que lê-lo devagar e chorar cada palavra. Ao som da música que dele escorre, subiremos o rio, da foz até à fonte. Quantas vezes forem precisas. Quantas vezes quisermos construir a nossa história.

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio; Ana Paula Tavares / Manuel Jorge Marmelo; Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2005

*elaborei este texto em 2005, na altura do lançamento do livro.

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

«As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções»


Com as mulheres há que ter uma postura cartesiana: «primeiro destruir as opiniões e, depois, não confiar cegamente nos sentidos, tantas vezes ilusórios e falsos», ou então vê-se um tipo enredado «nas mais inverosímeis trapalhadas». Por isso As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções.

Isto não é uma brincadeira. É até um caso muito sério. Um caso seríssimo espraiado em 141 páginas de barafundas, apimentadas por um humor fino e inteligente, com escrita dúctil, vibrante e coloquial. Uma comédia de costumes, de Manuel Jorge Marmelo, regozijo para os leitores, homens e mulheres de cá, mas já no lado de lá a falar castelhano: está editado em Espanha pela editora basca Txalaparta e, mais longe, em Itália, pela pela Vertigo Edizioni, Roma, 2008 (ver segunda imagem). Mais um voo português à conquista do mundo. E que voo!

Foi o primeiro livro traduzido de Manuel Jorge Marmelo. O acordo prevê a posterior edição em outros três países de língua castelhana da América Latina: Chile, Argentina e Uruguai. O autor nasceu no Porto em 1971. É jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com O Homem que julgou morrer de amor/O caso virtual (ver na etiqueta correspondente ao autor).

O «As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções» apresenta-nos uma profusão de histórias burlescas e bem contadas, num processo narrativo sólido. O narrador, participante, mas não omnisciente, sobretudo no que diz respeito a mulheres, é Madureira, 43 anos, espécie de trolha, «canalizador-carpinteiro-pedreiro-pintor-mecânico-de-pequenos-electrodomésticos, formado na Faculdade da Necessidade», bígamo, casado “secretamente” com Uiko e Maria da Anunciação, com 3 filhos em cada família, e mais umas "aventuras". Porém, avisa, quanto mais mulheres, «mais discussões e os inconvenientes conjugais».

Esta polivalência fá-lo enredar-se com todos os outros: Noronha, dono de uma Agência de Inovação Ocupacional que arranja emprego a Maria Rosa com o advogado Francisco J. Morais, passando estes a ser amantes. O advogado Morais é um indivíduo sem escrúpulos, formado na Católica, casado com Belinha e pai de Catarina, bela miúda, mas mártir do visa gold. Belinda é uma trintona avançada, a quem a falta de homem na cama, dormem em quartos separados, «desperta-lhe apetites furacónicos», e por isso o professor de aeróbica tem dificuldade de escolher entre a mãe e a filha.

É sobre a movimentação feminina que o narrador faz as elucubrações e conjecturas, de tal forma enredadas que nem o leitor sabe como elas reagirão nos inúmeros desfechos. Fica provada a tese inicial: as mulheres são «um bicho fugidio» e criaturas imprevisíveis que sabem mais sobre o homem do que ele sobre elas.

A escrita é muitas vezes brejeira, mas, diz o narrador, «Não é a escrita que descamba; são os tempos». E não é raro estes tempos de escrita despoletarem-nos gargalhadas, ou sorrisos rasgados. Trava um diálogo directo com o leitor, desculpando-se ora das suas opiniões, ora desvalorizando o marfim que lhe cresce na cabeça, por obra da Maria da Anunciação, ora por isto e por aquilo, o que atesta a sua atrapalhação perante a imprevisibilidade feminina. Ou perante o mundo todo, sobre o qual confessa: «Aliás, o mundo todo devia ser servido com um manual detalhado, uma bibliografia inclusa – com dosagem recomendada e intervalos entre tomas – que a todos preparasse, à nascença, para os infinitos desaires que a vida nos reserva»
.
As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto 1ª edição de 1999, 8ª edição de 2002

© Teresa Sá Couto

nota: dedico este texto ao meu amigo João Ferro, que o descobriu noutro blogue meu, antigo, o qual já me tinha esquecido que existia.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

«O Porto: Orgulho e Ressentimento»

Olhar a invicta com olhos de pássaro, «esperar e ficar de atalaia, como um caçador de átimos; ter os sentidos engatilhados e um bornal vazio onde depositar, com desvelo, o pequeno e delicado momento que nos há-de ficar para sempre». Assim se perenizam momentos em «O Porto: Orgulho e Ressentimento», um livro, antológico, de Manuel Jorge Marmelo. Os textos foram publicados no jornal Público, e outros, breves apontamentos sobre a cidade, escritos no blog do autor, antes «Nariz de Ferro», depois Tatarana.

Como jornalista, o autor dá-nos o olhar minucioso com que perscruta a realidade. Como contista, oferece-nos pequenas narrativas numa escrita depurada, com palavras musicais que tecem sensíveis voos de alma, entretecidas, a muitos passos, numa bela prosa poética, repleta de sinestesias que permitem transmitir sugestões e impressões da realidade captada. Transborda o afecto pela cidade parda, mesmo quando as ruas desatam a mágoa. E aventa-se a razão: «todos os delírios cabem no espaço que coisa nenhuma ocupa. É obrigatório sonhar que estas ruas podem voltar a ser alegres. Um dia

Diz o autor que «a subtil magia de certos lugares não dura, às vezes, mais do que um instante. Não que desapareça de facto, pois o fundamental está lá, perenemente. Mas basta que os olhos se distraiam alguns segundos, não mais, para que se desvaneça o imaterial e transitório que opera o milagre de transformar um sitio aprazível numa epifania de maravilhar.». Contra todo o esquecimento, tudo é registado na paleta da observação: gente que passa, gente que se detém num doce vagar, magotes cavaqueando, «um escarro matinal», azáfama e silêncios, rumor de pernas, rumor de penas, vidas de gatos, crianças que «guincham enquanto dão de comer às aves», animais que investigam e debicam migalhas, «frases garatujadas nas paredes do Porto, misteriosas e mágicas», como o misterioso e mágico nevoeiro que ora «povoa a manhã de espantos», ora revela melancolias e desejos de evasão.

Tomando o ar em «golfadas puras», o autor deambula pela cidade, mesmo que o dia amanheça noite, mesmo que o vento cicie nas orelhas «ameaças de chuva», embrenhando-se por becos e vielas, à procura de um «raio de luz que ilumine tudo», ainda que tarde em surgir. Com a doutrina dos sentidos bem afinada, vai revelando a cidade que poucos vêem ou sentem, disciplinado ao método infalível: «caminhar sem rumo. Parar para ver. Fumar um cigarro. Respirar fundo.». Encostar o ouvido aos muros para escutar a palpitação do barro e da pedra. Inventar novos mitos».

Dá-se largas à reinvenção da realidade com o Jardim das Virtudes a rivalizar com o jardim do éden, nos murmúrios de água e erva «perlada de orvalhos», um local que «esmaga e acolhe como um braço apertado e morno», e solta-se a poesia mesmo que – ou talvez por isso mesmo – as «quimeras» sejam sem cabeça. Mira-se Gaia com as suas «casitas de presépio» e navega-se na mansidão preguiçosa do Douro, linha divisória do sagrado e profano, rio que não só separa cidades como deuses: «De um lado Baco, o do vinho, do outro o omnipotente da Bíblia, o das igrejas e dos santos.». Sobe-se ao alto da Torre dos Clérigos, «o gigante de granito» para se ver aquele Porto «minúsculo e rasteiro», e com os braços «abarcar a cidade inteira».

Todavia, também se desce, e o abraço transforma-se num nó que parece apertar a alma e que só a escrita liberta. Comprova-se que mostrar o lado e o reverso é uma consequência da deambulação. Interventivo e crítico, o autor averba misérias da cidade: no largo do Lagarteiro, detém-se junto de famílias, com doentes e crianças, que vivem no interior dos carros, na «miséria, lama e lixo», resultado dos «despejos que a câmara municipal promoveu num conjunto de habitações que ali haviam sido ocupadas»; munido da amplificação que a escrita possibilita, faz sobressair um monte de lixo diante de um hotel de luxo onde «o gato preto famélico e com olho vazado, mergulhou nos dejectos em busca do desjejum»; outrossim, surgem as Fontainhas, quase com «uma pobreza bíblica», «um terreiro de abandono, desolação e lixo, como se a cidade findasse no sítio exacto onde começa a escarpar-se, a empobrecer-se (…), sitio velho, gasto, aviltado pelo tempo, onde os plátanos enfileirados estendem suplicantes braços, retorcidos e nus.».

Um património mundial, de casebres insalubres, refere, onde as pombas são negras –da mesma cor do gato de olho vazado -, «pretas retintas». A técnica de juntar os contrastes para melhor os destacar tem o seu ponto máximo nas elucubrações sobre a Foz, desembocando na rua com nome Alegre onde se atesta o «silêncio furtivo dos dois mundos que aí persistem»: o silêncio dos abastados, símbolo do desprezo, com o cão de guarda a rosnar à passagem de estranhos – a fazer-nos lembrar o Bairro Moderno de Cesário Verde – e o outro silêncio, o rústico, o desprezado, das paredes caiadas, da roupa a secar nas janelas.

A adesão ao mundo dos humildes é assumida na escrita que o reabilita, numa transformação de vitalidade ou projecto de sobrevivência: o arrolar das rolas quebra o silêncio, o ar impregna-se de cheiros da tangerineiras e limoeiros, ostenta-se a vida em «couves tronchudas, num subtil jogo narrativo testemunhado pelas nuvens que «brincam a mostrar e esconder o sol». Na subtileza dos encontros que ocorrem nos «humores da cidade, entre sol e neblina», destaque-se, ainda, as figuras femininas plenas de sensualidade, mesmo que em breves apontamentos como o da «mulher que, feminil, estende um tapete rosado».

Contrapondo-se aos homens da faina – «rudes e mal barbeados que sobem a rampa do cais acartando cabazes de fanecas acabados de chegar do mar» –, surgem surpreendentes figuras femininas, «talvez um pequeno cardume», numa aparição quase mística e repleta de erotismo:
«Com carícias lentas espantavam as algas e os pequenos mariscos que lhes tivessem ficado agarrados aos cabelos; com vigorosos arrepios, como guinadas de carpa, sacudiam a água das escamas. (...) Nestas escadas cantariam, pode-se sonhar à vontade, o seu agudo canto de encantar, semelhando golfinhos, semelhando baleias, semelhando o inaudível sussurro das anémonas e os murmúrios de todos os seres do mar. (…) Apenas confiavam, as sereias, nos marinheiros ébrios e nos contadores de patranhas, com os quais se entregavam, calhando, a fogosas e inverosímeis noites de amor. Metade fêmeas, metade peixes, tinham todo o mel nos lábios e nos bicos dos seios, toda a pimenta nos cabelos longos, todo o colorau e o gengibre todo nas partes humanas do corpo. Ai o viço e o encanto. Abaixo, nas escamas prateadas, temperadas só com sal, ficava o tremor da paixão, o arrepiado amplexo dos brilhos náuticos.».

Evasão – os pássaros do Sul

Embrenhado na cidade, o autor lança um olhar ao largo, numa manifesta evasão. A metáfora do ir /libertar-se surge com os pássaros que passam na rota para o Sul: «havia hoje, ao entardecer, loucos bandos de pássaros voando nos céus da minha cidade. Iam para sul, eu sei. E como entendo a sua fuga!»; «não há sequer pássaros no céu, porém, e os braços das árvores estão nus. O ar não aquece. O corpo encolhe e arrepia-se. Invejo, por isso, todos os bichos da criação que, chegada a invernia, se refugiam no Sul, na metade da terra que é Verão.». Também o vento surge como incentivo à fuga: «o vento tem mil demónios soprando na tarde: assobiam-me, chamam-me, dizem-me que vá.».

O plano irreal irrompe pelo plano real. Engaiolado, detém-se na observação de gaiolas vazias para logo fechar os olhos e, assim, poder «viajar para longe, para o início dos tempos. Estar na cidade e ir ao pedaço de paraíso a que cada homem tem direito – nem que seja por um instante e nada mais.». Ainda neste exemplo percebe-se que a fuga é, todavia, impossível. Essa impossibilidade é o motor da criação destas palavras espraiadas por 142 páginas.

Diz o autor que «tal como a viagem, tal como as cores deste sítio, essa ideia abandonada talvez precise apenas de um raio de sol que a aqueça e dê brilho. Que a faça boa.». Manuel Jorge Marmelo dá-nos uma antologia de luz sobre a sua cidade com que se aquecem bons momentos de leitura.

O Porto: Orgulho e Ressentimento, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto, Janeiro 2006

© Teresa Sá Couto


* Dedico este meu texto aos fotógrafos Manuela Vaz Marques e António Amen pelos olhares devotos à cidade do Porto

domingo, 3 de maio de 2009

«O Homem que Julgou Morrer de Amor»

O Homem que Julgou Morrer de Amor é o romance de estreia de Manuel Jorge Marmelo, editado em 1996. Uma «excelente novela», segundo Mário Cláudio, que em 2006 surgiu em segunda edição revista, reescrita e depurada, zelos do seu incansável autor.

Comummente considerada uma história de amor, esta novela é, principalmente, uma história sobre os demónios do ser humano, que entrevemos na missiva de Goethe: «Somos os nossos próprios demónios, expulsamo-nos do paraíso»: Transímaco ama Helena – um amor impossível porque ela é pertença de Sócrates – e ama a justiça – um amor frustrado porque em Atenas grassa a corrupção. As duas impossibilidades de amor conjuram a destruição da razão e alma de Transímaco que acaba por se suicidar. Todavia, esta é mais um capítulo da história de um outro amor maior e, este sim, feliz: o amor de Manuel Jorge Marmelo pela escrita, amor arrebatado, humilde e zeloso comprovado na produção contínua que tem fidelizado sempre mais leitores.

«A vida tem, na verdade, um rumo definido, como o dos rios. Mas sempre há um ponto, nesse curso, em que o relevo das montanhas permite que as águas se bifurquem. É então que cabe ao homem escolher qual dos caminhos tomar», diz o sacerdote do templo de Apolo a Transímaco, um dos mais respeitosos advogados atenienses, orador de excepção que pasmava a plateia da Ágora argumentando «como se litigasse uma qualquer coisa». Fazendo da Justiça o seu estandarte, Transímaco acusava Sócrates e Platão de não a praticarem, e de minarem a cidade e a pátria com «palavras vãs». Mas, disse-lhe o mesmo sacerdote: «A justiça é apenas um dos elementos de que a razão é composta na mesma proporção em que a injustiça a integra. E o mesmo sucede entre o coração e a cabeça, que repartem igualmente o espaço que a razão lhes reserva.». No coração de Transímaco, onde estava instalado o amor pela Justiça, tatuava-se o amor por Helena, escrava de Sócrates, outrossim o ódio pelo velho filósofo.

O correr da escrita, enformada por uma prosa poética límpida e com admirável plasticidade, ilumina-nos os degraus da queda do jovem e, por eles, a reflexão sobre os desmandos dos homens: «um homem que, de noite, caminha sozinho e nada vê, já se sabe, leva a cabeça livre para todos os pensamentos, os mais amenos e também aqueles mais ásperos, conforme for a sua predisposição para matutar nuns e noutros». E Transímaco «ora suspirava por Helena, ora espumava de ódio a Sócrates»; «esforçava-se para recordar o rosto de Helena, mas eram as frases de Sócrates que lhe ocorriam», e logo define a sua missão: «libertá-la-ei ou pagarei o meu fracasso com a própria vida», pois é justo matar Sócrates para libertar Helena. Mas não é justo «construir o edifício do amor sobre a dor da morte», diz-lhe Helena.

Górgias, Sólon, Meleto e Hipofonte, são nomes grandes do pensamento da Grécia antiga convocados com mestria para o enredo ficcional de Manuel Jorge Marmelo.

Ser homem e lobo...

«Algo há que nos move e impele – mas muitas vezes, sabemo-lo, somos pouco mais do que autómatos obedecendo a misteriosos desígnios. Chame-se destino ou fado a essa pulsão, ela não será mais do que desvario, loucura, teimosia. O homem é uma máquina cruel e destrutiva». Assim fala o narrador, falando por Hipofonte – o sábio que cegara por excesso de realidade ou «para perder de vista tudo o que sobre os homens aprendera» – que, por sua vez, se dirige a Transímaco dizendo que o jovem advogado «sofria de amor, ciúme e de ódio, o que vem a ser, quase sempre, a mesma coisa».

Na busca dos demónios humanos, o mesmo narrador, não participante, mas omnisciente, e também ele – à semelhança de Transímaco – com a arte da persuasão, instiga o leitor a reflectir sobre a coexistência de duas naturezas no homem: o espírito e o instinto; a natureza humana, que nutre ideais humanos, e a natureza lupina, feroz e selvagem: «o homem é, de entre todos os animais, aquele que mais se assemelha ao lobo»; deixe-se que ao homem dócil «se avilte e observe as desarmonias da natureza e as imperfeições do mundo; que se encerre», «remoído pela fome e pela saudade de um amor proibido» e o homem transfigura-se num ser selvagem, «uma besta capaz de eliminar todos os obstáculos».

Sem conseguir domar os sentimentos, sublimar o amor, Transímaco deixa à solta a sua natureza selvagem e o Eu tende para a destruição, patente numa «pulsão qualquer que lhe afogueava o rosto e lhe humedecia as entranhas» e na ideia fixa e sinistra de matar Sócrates para libertar, para si, Helena. Inapto para executar o golpe fatal, o suicídio afigura-se-lhe uma saída de emergência para a vergonha pela sua incapacidade. Ele que, antes, do alto da colina com vista sobre Atenas, pensou, ou o narrador por ele, que «enquanto pudesse recordar aquele primeiro vislumbre de Helena, seria incapaz de morrer», e no instante da morte «ocorreu-lhe que morria por amor». Conclui o leitor sobre a “ilusão” da personagem: matar-se significaria que o amor por Helena também teria morrido, subtileza patente no título deste romance, de narrativa aberta que permite ao leitor deter-se "no final proposto" para o moldar segundo os sentidos da sua leitura.

E onde fica a justiça? Diz-se do Deus Cristão que «escreve direito por linhas tortas». O mesmo se pode dizer aos Deuses Pagãos desta Grécia antiga: enquanto o jovem Transímaco se enforcava na Oliveira da colina com vista para Atenas – muito, como se viu, por móbil de Sócrates –, a cidade condenava Sócrates por «corromper a juventude», o que o levou a beber a cicuta fatal. Por outro lado, o elemento feminino, símbolo da fecundidade e, por isso, de inícios – parece sair vitorioso: Helena fica livre e Atenas, sem dois dos seus grandes oradores, pode soltar as águas do bem… ou do mal….


O Homem que julgou Morrer de Amor, Manuel Jorge Marmelo, 2ª edição; Editorial Campo das Letras, Porto, 2006

© Teresa Sá Couto


sexta-feira, 4 de julho de 2008

O DOMADOR DE VENTOS

«Aonde o Vento me Levar» é um título de Manuel Jorge Marmelo. Título ardiloso que indicia o grande jogo que se joga entre a palavra na deriva do vento e o único que os pode dominar: o escritor. E este é o grande e misterioso jogo entre o criador e a criação que o autor cumpre com engenho, também no desafio com o leitor.

«O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos», escreveu Jorge Luís Borges. Também Manuel Jorge Marmelo se propõe, e nos propõe, «descobrir esse rio» onde se mata a sede de quem somos e onde, mirando-nos nas suas águas, nos podemos redescobrir. O livro que agora sugiro dá conta dessa demanda, é um espaço cósmico, espelho e mapa do universo, o Aleph, lugar onde confluem «sem se confundirem, todos os lugares» da terra, todos os livros e todos os homens. E cumpre-se uma leitura de alquimias.

Todos temos algo de fixo e de movediço. Também nesta ficção, o narrador, o Eu, propõe-se escrever um livro de viagens sem sair do seu lugar. Assim, envia a personagem «M.» para que lhe envie notas que ele converterá em literatura. Mas o que acontece ao projecto literário quando a personagem tem ganas de autonomia e subverte os papéis tornando-se ela no escritor, deixando o primeiro escritor à deriva? Podem as personagens escrever um livro relegando o escritor para o papel de observador? E pode esta peleja ser substantiva ao ponto de com ela se urdir uma narrativa? Manuel Jorge Marmelo responde-nos em 158 páginas de reboliço, como sempre o são as da melhor literatura.

O escritor e a criação

«Começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?», escreveu Jorge luís Borges em «O Aleph» (1949). Também Manuel Jorge Marmelo, detendo-se nessa tensão entre ficção e realidade, e como elas se contaminam, apresenta-nos a quimera literária através de um narrador céptico que maldiz o método utilizado para escrever, lamentando-se por «ter deixado entrar tanta realidade no casulo de livro» que construiu dentro de si, concluindo: «eis, pois, o que me falta: copiar, inventar e mentir.

A isto se resume a literatura.». Este princípio de ocultação da realidade como motor da obra literária é veiculado por Enrique Vila-Matas no seu último romance Doutor Pasavento, com a personagem que, de um quarto e cidade reais, passeia «por alamedas mentais nesse fim do mundo onde se colocou» o seu cérebro: «desaparecer é ceder lugar ao outro» e, «quem quiser ir mais além terá de desaparecer».

Em «Aonde o vento me levar» mostra-se como a ficção é um caminho de introspecção e, por isso, gerador de realidade: «M. talvez nem sequer exista. Tê-lo-ei arrancado de dentro de mim, como um pedaço inútil das minhas entranhas, e, ao fazê-lo, dei-lhe uma vida que jamais terei. Mesmo se não devo excluir completamente a possibilidade, nada remota, de me ter ele inventado a mim, enche-me de um peculiar orgulho saber que essa porção daquilo que sou (ou julgo ser) foi já tão longe.»

Homenagem a África

Com o narrador, anda o leitor de cá para lá, entre páginas de outros livros que ele lhe abre, a sorrir pela consentida sujeição à leitura – ou deslumbrado com o Aleph de Manuel Jorge Marmelo, que o envolve em sons, cheiros e texturas de África –, pouco se importando com os seus lamentos por não conseguir uma história que dê corpo ao seu livro.Escreveu, ainda, o escritor argentino: «Vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que escreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.».

De incertos e longínquos locais da África profunda, descalço para se fundir com a terra, “M.”, que não está quieto, «escreve e escreve e escreve» e vai enviando aerogramas que o narrador reproduz, não sem se questionar sobre a inutilidade da viagem e sobre o espaçamento com que lhe chegam alguns dos bilhetes de M. que, «Se está num sitio e, depois, aparece escrevendo em outro bastante distante, algum caminho há-de ter feito». Metáfora da inventiva literária, que pode atravessar fronteiras onde bem entende: «Não tenho passaporte e sou quase incorpóreo (…) Afago a casca grossa dos embondeiros e neles sinto a muda palpitação da terra. Faço amor com as árvores e acaricio a pele dos rios. Mergulho os dedos na terra para fecundá-la de mim.».

«Aonde o vento me levar» é a «síntese imperfeita de um livro sobre coisa nenhuma e no qual nada acontece»: “M.” viaja «sem rumo predefinido», como tantas vezes qualquer um de nós o faz; a viagem de “M.” é «destrambelhada, temerária e estéril» como sempre o é, nalgum ponto, a existência humana; “M.” tem um «segredo, uma contra-senha, um abracadabra», como todos nós. Cabe-nos, pois, usar a chave que nos coube para acedermos à nossa outra porção. E há que partir e ir até aonde o vento nos levar.

Aonde o Vento me levar, Manuel Jorge Marmelo; Editorial Campo das Letras, Porto

© Teresa Sá Couto