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sábado, 11 de maio de 2019

"Os Animais Perdidos Na Floresta" de Francisco Duarte de Azevedo





 Com o Os Animais Perdidos Na Floresta, Francisco Duarte de Azevedo conclui a trilogia poética proposta há vários anos ; à semelhança dos outros títulos, As Habitações Interrompidas e Livro de Inverno e Transições, também este tem prefácio meu; é esse texto que aqui publico. 



Cântico de solidão 





                                         Enquanto eu bebo a respiração dum fruto / o tempo chama-me, pelo rio.
  
                                                                                                                                     M.S.Lourenço 

                                                     Os rios, obstinados, / abrem sulcos profundos / nos nossos braços.
                                                                                                                    Francisco Duarte Azevedo

  A solidão é um rio, às vezes negro, outras vezes azul intenso, outras, ainda, verde gramíneo, amarelo crepuscular, branco das manhãs ou das areias, mas, indubitavelmente, o rio da solidão escreve-se a vermelho. É um rio revoltoso o que encontramos neste terceiro tomo da trilogia proposta há já alguns anos por Francisco Duarte Azevedo. No seu tutano, uma explosão, o centro das incertezas, a habitação; nas suas artérias, o latejo da demanda, o uivo do tempo, a pulsação do instinto da escrita ininterrupta.

 À semelhança dos dois primeiros títulos da trilogia – As Habitações Interrompidas e Livro de Inverno e Transições -, Os Animais Perdidos na Floresta reverbera os temas da memória, da natureza e da solidão mas este atinge agora um cântico lapidado onde a palavra toca “a polpa das pedras” e, em golpe de asa, liberta-se do “jugo terreno”, a sua condição, acede “a um céu/ delicado sobre a falésia” para se lançar no infinito ao encontro da sua plenitude ou dito, ainda, assim: “Ao acaso./ No centro
 da floresta/ entre a montanha/ e o infinito/ assistiremos/
 ao voo metálico/ de um pássaro/ de fogo contornando/ as asas da imaginação.”.
  Jorge Luís Borges, no Prólogo de A Rosa Profunda, de 1975, escreveu: “A palavra teria no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo desgastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente, como a vizinhança do mar.”(2). Em Os Animais Perdidos Na Floresta, a água é o discurso sobre a génese, sobre os sacrifícios da viagem, a luz é o discurso sobre o efémero, o transitório, o vento é inquietação, o sopro criador que dissemina, avança e inventa o canto dos “pássaros que já não falam”, que produz um eco sonoro que nos envolve, despe e impele para novas significações da palavra. Água, luz e vento são, assim, princípios fundadores, artérias deste cântico poético sobre a solidão. Diz-nos o texto: “Navegamos no âmago/ de substâncias etéreas./ Para tocar a polpa
das pedras,/ o coração necessita de água/ e da tua voz. Para isso me iniciei.”.
  Com efeito, há uma solidão lacustre nesta poesia que procura as ruínas no fundo das águas doces: “Na macieza do éter/ são frustrantes/ todas as tentativas/ para alterar o rumo/ da navegação./ O que é isso/ dos navios sorvendo/o lodo dos rios? “, sendo o “isso”  o enigma dos caminhos que se desdobram em múltiplas sendas criando labirintos que são o desígnio da própria  poesia.
   Na viagem que nos é proposta, há uma emergência de quietude que confere à caminhada um principio de onirismo, “Há uma insistência/ para amaciar os gestos/ num campo de girassóis adormecidos.”, há a confiança:  “Como o aprendiz/ montado/ na sua cegueira ansiosa,/ amestrarei
 o corcel /e um cravo
 florescerá/ entre os dentes”; e há também a tensão entre dois polos extremos, a energia e a lassidão, a esperança e o niilismo: “E no desespero/ assimétrico
 do confronto/ entre massa e energia,/ os elementos celestes/ derramam-se 
sobre a terra./ Uma chávena
de café/ amargo e quente 
emerge/ das entranhas do fogo.”.  Por vezes, uma refracção violenta desvela um movimento auto-reflexivo, uma demanda intelectual impregnada de memória de paraísos perdidos e de desejos suspendidos:

Se o pudesse abraçar

abraçava mas não posso.

Os meus braços
são pequenos
para tamanha imensidão.
Precisaria da tua ajuda

e perdi-a. E os braços 
de 
mais duas, três ou quatro

pessoas não bastariam

para abraçar o mundo

da árvore de memórias 
e lendas tão antigas
como
 a criação dos séculos.

Precisaria apenas
do teu abraço 
para abraçar 
o baobá por inteiro. 
  Na viagem, as mãos têm um papel essencial, porquanto são a “bagagem do criador”, o seu “elemento original”: “O silêncio não digerido,/ as mãos aquietadas/ 
sob a sombra das águas
/ e o corcel mansamente
/ estacado à porta dos desejos/ contemplam de soslaio o aprendiz.“; embebida numa luz “crepuscular”,  a palavra é projectada pela mão que percorre a tela “como um caminho cego”, desenha o silêncio que “uiva no vento”, certa de que “Uma árvore estremecerá./ Apenas uma.
 Aquela/ onde depositas
 o reencontro/ dos elementos/ e acolhe as nossas habitações.”, lê-se.
  “Que pássaro/ é este que na ponta / dos dedos/ faz o ninho?”, escreveu o nosso saudoso poeta Albano Martins no poema Para a Flautista de “O Pássaro de Fogo”, de Stravinsky (3), onde se evidencia que a Arte é o lugar onde habita a voz ;  “digerido” o silêncio, é preciso dar-lhe voz, e cabe às mãos instaurar o silêncio no silêncio da tela – e recordo que as capas que envolvem os três títulos da trilogia são reproduções de quadros de Francisco Duarte Azevedo – ou, no caso, no silêncio estridente das palavras que são jogo, manha, o lugar  onde a incerteza se torna um viático porquanto a dúvida atinge a dimensão reflexiva, a dúvida pela qual o sujeito se interroga sobre as condições do seu próprio pensamento: “E as águas do rio / seguem o seu caminho./ Já não sei onde estancam.
/ Se no deserto imenso /ou nesse outro mar azul / tão distante e incerto.”.
  Disse, ainda, Jorge Luís Borges que a solidão é a sina do transviado mas também do pioneiro. Outrossim do poeta, acrescente-se, e Francisco Duarte Azevedo evidencia-o uma vez mais neste Os Animais Perdidos na Floresta.  Nas “cúpulas dos bosques” cantam os pássaros o cântico febril na vigilância dos dias, sendo a vigília o instinto do poeta: “Sonha-se de olhos abertos
/ no centro da solidão./ Como um dicionário fechado/ no sacrário das palavras.”. Ligada à vigilância, a ansiedade estimula a pesquisa errante, e não  parará de trabalhar subterraneamente na procura das soluções que as suas angústias exigem. Neste tomo, a errância está patente na forma de poemas ora curtos, ora mais longos, em prosa, atrelados ao real ou saltando dele com metáforas frenéticas e enigmáticas, onde as palavras que são a “lucidez da insónia”, as palavras  “importadas de memórias/ derramadas e imprecisas” edificam “Imagens/ passageiras girando na espuma / da madrugada”,  ”cansam-se, irritam-se”, “Explodem
 como um vulcão /outrora indeciso entre água, ar e fogo”. As palavras arriscam, afrontam, mergulham no delírio e na loucura criativa que culmina e desfralda quando há simultaneamente ausência: 

As acácias as casuarinas
regurgitam 
no delírio
dos rios e nas areias
da praia.
Os seres perdidos 
na floresta
rasgam as veias
 sob a pele
a camada do fogo
 e o crepitar 
vermelho 
de bocas exauridas.
Do mar, 
sorvem o sal
o plâncton 
para temperar
o aço dos seus braços.

  São as palavras que se iluminam contra a banalidade, que arrostam o caminho, que procuram  “a migalha/ de podermos /antever/ quão irreais/ os rios/ em busca do mar”, que escutam “o grande rio que habita/ o coração dos animais /perdidos na floresta”, que mergulham “na densidade dos lobos reaprendendo a caminhar” ou dito , ainda, assim:

Caminhamos no coração
das trevas modernas de betão.
O peso da solidão
é tão grande como o arco
planetário de Deus;
a aliança entre os mitos e os rios
bíblicos permanece
na densidade da memória.
A solidão esgueira-se
na silhueta das trovoadas,
cíclicas, da floresta.
A chuva asperge-nos
de frescura, eis o maná
da fertilidade.
  A assunção da escrita como poalha, o carácter efémero da palavra - a “varanda provisória”-,  e o elogio da imperfeição são senhas para a escrita ininterrupta.. A palavra é frágil, é um ser sensível “perdido na floresta”,  é imperfeita, de uma imperfeição absoluta a exigir constantes reparações:

Súbito, um estremecimento
reacende as vozes a galope
do corcel das trevas.
A insónia, essa coisa
brumosa de dormir
acordado, apodera-se
de reflexos, 
denuncia o corpo
entre sono e morte,
vampiriza o vocabulário
torna-o redondo
 e repetitivo.

 Pensar, analisar, reinventar a voz da solidão serão etapas do método do Eu monologante em demanda intelectual, do Eu dialogante com o Tu da poesia e com o Nós de um leitor implicado no peso das fadigas humanas, atento aos movimentos do mundo,  impelido, também ele, para a caminhada de pensar, analisar e reinventar a sua própria solidão.
 “Não fosse tão intenso/ e tão azul/ este voo iniciático / contemplaria os seres/ que pululam/ fora das nossas vidas,/ pulsando, pulsando, pulsando/ como as veias/ nos pulsos dos nossos braços.”, lê-se neste último título da trilogia. Crê-se que o laboratório poético de diálogos interrompidos,  que assume  “amaciar o corpo” da palavra nas noites de chuva, não se ficará por este tomo. Deseje-se, pois, chuva à palavra policromada de Francisco Duarte Azevedo.


Teresa Sá Couto
Lisboa, Novembro de 2018

Notas:
(1). M.S.Lourenço, O Caminho dos Pisões, Assírio & Alvim, Lisboa 2009, p.13
(2). Jorge Luís Borges, Obras Completas 1975-1985, Editorial Teorema, Lisboa, 1998, p.79
(3) Albano Martins, Livro de Viagens, Edições Afrontamento, Porto, Março de 2015, p.47


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo

A História acaba quando a literatura toma o seu lugar, sabemo-lo, e Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo, demonstra-o. O romance vai buscar o título à casa construída em 1934, que foi quartel general da PIDE em Maputo, lugar temeroso onde estiveram presos Malangatana, José Craveirinha, Rui Nogar, entre outros, uma herança do fascismo português que tem instigado um caudal de estórias de que nela vivem os espectros inquietos dos mortos. A objectividade do título e a fotografia do pórtico de entrada da casa, hoje em ruínas, que faz a capa do romance de Francisco Duarte Azevedo, tirada pelo próprio, envolvem uma narrativa que encena o passado consciente de que a História é um jogo.

 No compromisso do autor com a literatura, a narrativa perscruta todas as potencialidades inerentes ao jogo entre passado e presente, reconstrói novo enredo ancorado numa “Peregrinação interior de memórias” de cicatrizes do colonialismo ou, como nos diz o texto, junta “as pedras soltas da memória para recompor o tempo”, desenha personagens, ambientes, atmosferas, sentimentos, enche as páginas de cores, silêncios, brados e ecos, e o texto vai fornecendo e traduzindo dados, não quando o leitor quer, mas quando o narrador decide.

Vila Algarve é o segundo romance de Francisco Duarte Azevedo e, como o anterior, O Trompete de Miles Davis, também editado pela Planeta, comprova um estilo pessoal do autor. O presente romance tem uma estrutura narrativa coerente e bem montada. A acção passa-se em Maputo, neste século XXI, com a chegada de Dória, 40 anos depois de ter partido de Moçambique. Representante de uma geração, Dória regressa ao centro do redemoinho do vento, símbolo de litígio e demanda, com a missão de “fechar a circularidade da memória”. Nesse centro de “vento e de milando”, encontra o amigo, o narrador participante, professor e poeta, mas também encontra a obstinação de Esperança que mantém no seu bar uma fotografia da casa maldita com o dístico Presos na Vila Algarve, a militância de Atanásio que intenta elaborar a lista das vítimas da Vila Algarve, a vigilância do inspector Mavuze. Ainda, o azul intenso e profundo – das águas e do céu –, as árvores ancestrais, o amarelo caril, a turba ruidosa das ruas, o silêncio e a força das mulheres, os miúdos, os moluenes que atravessavam a rua "esmolando", a violência, a morte, conferem à narrativa o grande poder de se aglutinar: todas as personagens, ambientes, lugares, todas as coisas se ligam de uma ou outra forma na absoluta solidão, característica de um texto interessado em contar uma história e tratar uma problemática. O Incipit dá-nos logo conta daquele programa: Dória chega, numa manhã de “vento insistente”, o vento que é, notoriamente aqui, o palco do abismo, “para cumprir um ciclo de memórias que lhe tombavam nas entranhas”. Dória, o errante, um “sonâmbulo”, um “morto-vivo”, carrega na mochila, e no mais esconso de si, uma “tragédia sufocante”: ter perdido a capacidade de esquecer.

 O homem por dentro “é ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos fantasmas, o que construímos não cabe entre as quatro paredes da matéria”, escreveu Raul Brandão; os fantasmas de Dória exigem a expiação; os fantasmas da Vila Algarve gritam contra o esquecimento; os fantasmas são agitação, desespero e impulso das personagens e, por elas, da narrativa. Mavuze foi torturado na Vila Algarve. “Nunca traiu os amigos. Nunca denunciou”. Acreditava que os seus fantasmas o auxiliavam na demanda. Os bons, porque lhe mostravam o caminho, os maus, porque não o deixavam dormir. A vigília do inspector é a vigília humana que é, também, a vigília da escrita, papel que a presente narrativa desempenha com distinção. Relembre-se que já o poeta moçambicano José Craveirinha, que o texto de Francisco Duarte Azevedo não esquece, havia nomeado a casa ardente, no poema titulado, exactamente, Vila Algarve:

Privilégio de alvenaria/adaptado aos menos/loquazes/era ali. //Ou se dizia sim/ou éramos boatados/por uma fuga inexistente//No entanto um típico tremor/quando olho os clássicos azulejos/são os meus joelhos a recordar. //Ainda são vinte e quatro séculos morridos/em duas dezenas de horas de pé:/Graças à tua heroica humildade/não tive de ser boatado/que o Zé Craveirinha/escapuliu.//Devo-te, Maria/no tremor do pânico/manter-me eu mesmo/sem me sentir/um verme.//Só eu/e o portão da nossa vigília/ainda somos relembrados/na memória dos filhos.. (José Craveirinha, in Maria, Caminho, 1998, p..p.159,160)

 Com efeito, o fantasma maior é o que não tem nome, é “pedra e desespero, noite e desespero, que se imobiliza na inutilidade de todos os esforços”, refere o autor de Húmus. Contra a imobilidade, contra o esquecimento, há o esforço das palavras. Por isto, os mortos erguem-se como o vento ergue a poeira, até aos confins da vida. Diz-nos o texto de Francisco Duarte Azevedo:

 - Há gente a viver lá dentro há muitos anos. Não é fácil remover quem lá vive. Não têm para onde ir. [...] Haverá fantasmas. Podes não acreditar, mas eles estão lá: os espíritos das pessoas torturadas que ali morreram. E há quem fale dos corpos que foram enterrados no chão mais profundo da Vila. Vi um tipo dormitando sobre uma laje de cimento encolhida no chão da cave. A mulher disse, é a cova dele. Escuta a voz dos fantasmas que borbulham debaixo da terra. Vi palavras nas paredes e um chão tão belo como um fresco levantino. E a mulher disse, cuidado não passa, pode matar o espírito. E os miúdos assustaram-se. E a mulher disse: não tem medo. (p.p.102, 103)

 Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo, transporta uma utopia: até Dória que carrega a ternura, a dor, a desgraça e o desespero, tem o sonho estreme da liberdade, e a sua liberdade é encontrar-se. É neste sentido que se pode configurar a asserção de Nietzsche em Epígrafe desta obra: “O perigo de todos os perigos: nada mais ter sentido.”.


 © Teresa Sá Couto

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo





Livro de Inverno e Transições é o novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo, que o próprio apresentou, no passado dia 15 de Janeiro, em Viseu. Como no livro anterior, As Habitações Interrompidas, publicado em 2012, o prefácio é meu. É esse texto que aqui deixo. 








A partitura do tempo no silêncio da palavra

 Já sabíamos
 que na poesia cabem
 todas as cores e todos
 os disfarces. Ou não fosse ela
 feminina. Mas lá 
 também cabem, como agora
 sabemos, todos
 os timbres do solfejo. No corpo
 da poesia há sempre 
 uma partitura. […]

 Albano Martins in A Voz do Olhar


Livro de Inverno e Transições é o segundo andamento de uma trilogia poética que Francisco Duarte Azevedo iniciou em As Habitações Interrompidas, este publicado em 2012, também pela Edições Esgotadas. Produzido em 2005 entre Summit, Newark, New York, Lisboa e Springfield, o presente livro transporta um silêncio ramificado por aqueles espaços, outrossim por caminhos interiores do ser humano. Propõe-se uma «sinfonia escrita na partitura do tempo» regida por um sujeito poético que cumpre uma viagem de auto-conhecimento, reconhecimento e de construção da identidade. 

O tema do Inverno emoldura na perfeição o tempo de recolhimento, de intimismo, aquele em que «Os seres hibernam nas profundezas da terra». Em Livro de Inverno e Transições, o vento gélido empurra o barco pelo rio branco da memória, o sujeito poético aconchega-se na brancura da neve, ata-se «à cadência do tempo embranquecido», deixa-se hipnotizar pelos «movimentos simétricos e gelados» dos átomos níveos, leveda-se na «aragem fria e cortante», procura que o céu de bruma lhe devolva a razão de Ser, lança-se numa viagem iniciática ampliada, modificada e resgatada pelo olhar metafórico e sensitivo. Se Francisco Duarte Azevedo já nos atestava, em As Habitações Interrompidas, a sua competência plástica, que erigiu em imagens inundadas de cor e luz, o poeta/pintor junta-lhe, agora, os timbres do solfejo com que se compõe a sinfonia da vida: unidas, paisagem visual e sonora anunciam a liberdade do sujeito na viagem ao conhecimento da própria vida. Assim, enquanto a palavra asperge luz sobre os dias pardos, o corpo do texto deixa-se invadir pela música fazendo nela mais uma sua casa. Instado a participar na recordação de um trajecto, o sujeito poético revive as experiências pela memória, atrai o leitor para a pauta da viagem onde regista o zunido do vento, o chiar dos ramos plátanos ao sacudirem «a neve dos braços», o estalido das farpas do gelo, «vozes», «gargalhadas», aquela «voz/que nos reconhece /como nós a reconhecemos», o pressentimento dos «passos/passos e mais passos/ensimesmados, meio acordados,/o toque-toque dos tacões», «tábuas rangentes», o «silêncio dos mochos», «o assobio/dos mantos leitosos/esvoaçando/como lençóis à luz», «os cânticos /e as cores dos colibris/ desatados num voo desenfreado», «telefones celulares/e aparelhos ultrassónicos» em busca de «diálogos íntimos/convencionais», o tilintar da porta do Barber Shop que se abre «para uma intimidade/soturna e melancólica», e tudo o que possa ser abarcado no jogo do olhar em volta, olhar com que o sujeito poético interpela a natureza e o ritmo dos corpos rumorejantes que com ele se cruzam e passam a ser parte da sua experiência. 

A «neve» marca o ritmo e a intenção que tecem este livro. Ela representa o tempo branco da memória e a página branca onde os seres deixam as suas pegadas. Ela é «um manto /habitável e delicado» onde «até Deus cabe». Ela é o frio que emite calor. Ela repercute o silêncio, é a fala essencial, pois tudo vem do silêncio e para ele converge. Ela confere energia musical à paisagem, marca a cadência da repetição do tempo e, nessa cadência, ela representa o movimento libertador da viagem a que se propôs o sujeito poético. A repetição cadenciada das anáforas é, ainda, a responsável pela tonalidade profética do futuro, patenteia eternos recomeços, e é uma interpretação do mundo: «Neve. O silêncio repete-se /Há paisagens eternas /onde o vento se acolhe /num silvo agudo e persistente /e a neve adormece./Neve. Repete-se o voo /das mãos vorazes sedutoras /evoluindo sobre a nudez./Neve. Repete-se /a magia da luz /que um silêncio/antigo não nega./Neve. /Repete-se o mundo.». 

Tratando-se de uma poesia que não posterga as outras artes, mas onde todas as artes interagem, onde tudo o que pode ser matéria humana convive, esta lírica ampara-se na estruturação rítmica para conjugar pulsões contrárias, pelo que encontramos, alternados, tons de resignação crepuscular e energia musical no renascimento da voz, esta inscrita a sangue fumegante no gelo branco: «O fôlego momentâneo/ oriundo da miragem/ de fim de inverno prende-se/ aos tons vermelhos/ das nossas lutas militantes/ e à memória das mãos firmes /empunhando as bandeiras /da liberdade e dos nossos /amores re-inventados.». Estamos perante as consequências do «drama do olhar/ que habita no espelho» de duas faces, a que recebe o olhar com amabilidade, e aqueloutra que lhe devolve a inquietação. Jorge Luís Borges disse que há espelhos hospitaleiros e há o pesadelo do espelho, e que «bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto»; o silêncio deste Livro de Inverno e Transições posiciona-se no infinito que está no centro do labirinto; é desse centro infinito que nos chegam os acordes de um cravo e de um piano antigos de Scarlatti e Pachelbel, e é dele que emergem os violinos de Debussy; é a imagem desse labirinto a querer mostrar o seu infinito no branco das páginas que nos é sugestionado pela belíssima imagem da capa, uma pintura também de Francisco Duarte Azevedo

No centro do labirinto, «a ansiedade saltita /como os esquilos/frenéticos», o texto poético institui-se como participante de revelações e descobertas, marca o compasso da sua condição: «A noite azul /cobalto sobrevém no céu/e anuncia dias doirados./Entre sono e sonho / permanecemos ansiosos.». É no sonho que a ansiedade procura libertar as suas palavras que se amotinam, encostadas umas às outras, carregadas de memória, ousadas e indagadoras: «buscar uma prova,/um indício teu/no centro da floresta onde paira um sentimento, o murmúrio da água/a harmonia surpreendente/e uma nota musical que/as tuas mãos entrelaçam/entre partituras que esvoaçam/ ao acaso, eis o pedido que faço/ às aves que por aqui passam.». A presença do Tu, um sujeito feminino, sedutor e ambíguo, que carrega a ambiguidade inerente à poesia, surge no movimento de união com o Eu, num pacto de duas vozes viajantes e marca da viagem partilhada: «a pele das árvores/ está cheia de nervuras/ e os ramos frondosos/ amareleceram./ O meu corpo prende-se/ ao teu em busca/de um trilho./ Onde vais tu vou eu,/ simples e claro/ como a ondulação do mar.». 

Somos o obscuro, somos feitos da fugacidade da água, como já o disse Heraclito. Cabe ao poeta encontrar a palavras certas, esses «objectos ocultos/que desvendam os segredos,/ os códigos e os medos» da «mutação do tempo»; cabe à poesia imaginar; pela poesia, os poetas aninham-se e afiam «as palavras/na bigorna dos ferreiros./Elas são as espadas/e os cutelos que tecem/no campo de batalha/as cores da liberdade.». «E dá gozo imaginar», lê-se. E fica o leitor a imaginar o trajecto deste arroio que traz no seu caudal o percurso desde a nascente e que, em transições, se precipita para a foz anunciada do último tomo da trilogia. 


 Teresa Sá Couto
 Lisboa, Novembro de 2013

domingo, 2 de dezembro de 2012

Poesia de Francisco Duarte Azevedo

O livro de poesia As Habitações Interrompidas, de Francisco Duarte Azevedo, foi lançado no dia 27 de Novembro de 2012, no belíssimo Museu da Música, no Alto dos Moinhos, em Lisboa. O livro tem Prefácio meu e a Apresentação Pública esteve a meu cargo. É o texto do Prefácio que aqui vos deixo. Divulgarei oportunamente o texto que serviu de base à sessão do lançamento.
 
 
(na imagem, da esquerda para a direita: Francisco Duarte Azevedo, Teresa Adão - escritora e directora da editora  Edições Esgotadas - ,  Emília Noronha - Presidente da Junta de Freguesia do Alto dos Moinhos - e eu. A fotografia é de Paulo José Coelho, da editora Edições Esgotadas.)
 
 

Uma morada de sal e luz

 
é da palavra errante que
devemos falar, da distância
das coisas ou da cor do mar.

                        João Miguel Fernandes Jorge

 
 Diplomata de carreira, com a condição de errante pelo mundo, Francisco Duarte Azevedo busca na palavra literária uma habitação na habitação interrompida. O pequeno livro de poemas Os Ícones, de 1998, uma edição búlgara com o patrocínio e apoio da Associação dos Luso-Falantes na Bulgária, iniciava a catedral dessa demanda; o seu romance de estreia, O Trompete de Miles Davis, de 2011, talhava excertos de prosa poética fulgurante; neste Habitações Interrompidas, Francisco Duarte Azevedo regressa «à intempestiva forma caótica do silêncio», à água, «às linhas que atam / (como a chuva) / o corpo às algas do mar», ancora-se no sal da deriva e encontra refúgio na luz grande do mar.

«O espírito do pintor deve assemelhar-se a um espelho que adopta a cor dos objectos e se enche de quantas imagens tem diante de si», defende Leonardo da Vinci no Tratado de Pintura. Francisco Duarte Azevedo cruza a estética da poesia com a estética da pintura num canto que urde a existência interior do sujeito que «interpreta o mundo» e «luta contra as sombras/dos fantasmas, por uma habitação/não interrompida». A arte poética de Habitações Interrompidas carrega um trabalho apurado sobre a emoção e a memória, acto de buscar e conhecer, recorrendo a uma voz simbólica que interroga interrogando-se, a um olhar dinâmico que, como janela da alma e espelho do mundo, provoca, recolhe e deposita toda a matéria no corpo do poema, para que a memória sobreviva.

Como com a palavra, um quadro é feito de «pequenos nadas», pinta-se «com a argamassa /dos detalhes que preenchem /a vida», um quadro «Intervém», nele está o grito de liberdade dos emparedados, «os muros das habitações/transitórias», «os séculos da memória /e as histórias das aldeias /dizimadas», um quadro «denuncia o tempo /traz a memória nas mãos», «um quadro é ternura /banhada pelas manhãs /de luz», «É espaço rendido à leitura». Sobretudo, e sendo espaço de liberdade e de busca, «Um quadro é espaço vedado à morte» ou, dito ainda assim: «Procuro o meu ninho/ no aconchego/da brancura de uma tela.// […] uma simples cor pousada /como a pegada de ave /no reflexo das águas, /rasgam os sulcos por onde /seguirás na direcção do mar // Eis a claridade /que segue os meus passos /no percurso /entre a vida possível /e a morte provável».
Contra a morte, está este canto lírico de um «Ser feito de mar» que lança ao mar todos os seus textos poéticos, para que o «sal e a luz» temperem as palavras. Também as razões são claras e assim enunciadas: «Nunca possuí um lugar a que chamasse /habitação permanente e onde o mar / me surpreendesse. Porque o mar é o berço /desta habitação, o lugar onde voo/ sem asas e onde escuto a tua voz». E «Tudo voa» nesta poesia que se problematiza a si mesma, cônscia até da fugacidade do traço na página: o «poeta é amador das palavras corroídas pelo tempo», a poesia «é simples passatempo», «Uma voz vazia, a da poesia» ou, ainda: «trago nada nas mãos / a não ser um livro de símbolos, /um manual de preces /e a voz sagrada do tempo /beijando-me as faces». É da voz do silêncio que aqui se fala e da capacidade do sujeito dar-nos a ouvir o que escuta, silêncio que é a casa do ser e do nada, sendo esse nada a plenitude do ser. O vazio é, afinal, o lugar do pleno. É esse silêncio iluminado que encontramos neste livro de poemas «como uma janela/ voltada para o sol» que inunda o mar, donde o sujeito «Invoca a terra, as aves e todos os animais perdidos na floresta», à sua semelhança, «embebe de sonhos a fragilidade dos seres, comete os sentidos/ na espuma do tempo», escuta e dá-nos a escutar a voz vigilante da memória na «zoada dos búzios», nas janelas que «desvelam/ os segredos na água» e o corpo da palavra, janelas que, na ânsia de horizonte, se rasgam em varandas que dão para o mar adejado de gaivotas, varandas a quem o sujeito pede que lhe devolvam «a luz e toda a poalha» do «azul profundo» e infinito.
«Entre um quadro e o infinito» há, pois, a luz que, ávida, traça as rotas de uma viagem vital, espargindo na brancura, da tela ou da página, cores incandescentes com que se pressentem silêncios: «As minhas cores /sobre a tela transpiram /as insónias dos pássaros». Na «senda dos limites», o sujeito detém-se na voz ilimitada de uma poesia habitada de asas: «porque é afinal para ti que corro /no limite da solidão», lê-se, solidão que se vai fundando em metáforas e hipálages. É preciso fixar a luz efémera das manhãs efémeras, a «luz deslumbrante /da claridade do mar», «luz estonteante» onde «aporta /o sussurro do mundo/ e a navegação silente», a luz que «madruga» os lábios, que «amornece» o corpo «absorvido no calor /de um imbondeiro», a luz que testemunha «o abraço à luz do dia /a uma almofada vazia», a luz que esclarece os contornos do corpo da palavra, a luz que consome as trevas e ilumina a ternura. No centro de toda a ternura estão as mãos. Elas retêm a febre e a luz, levedam o silêncio, «A polpa dos dedos /tacteia a pele da poesia», as palmeiras lêem e dedilham com facilidade a líquida e secreta mensagem, num grito de vida: «Sinto as fibras do meu corpo / a latejarem de poesia e /já não posso parar. Deixei /de comandar a minha mão. /Ela move-se por um impulso /azul que escorre, líquido, /nas páginas de um caderno /de notas.». A recolha da luz na página surge magnificentemente nos poemas narrativos dos pescadores na sua faina: «os pescadores lançaram as redes e recolheram / o mar dentro de um círculo amarelo. Nele escutei tua voz /que um pássaro inquieto / me trouxe até ao varandim /onde poisou num breve aceno /de asas e ternura. Entre ele / e o mar ficou apenas /a distância de um sopro.», e, ainda, «Os pescadores regressaram /com os seus círculos amarelos /e cercaram o mar. Depois,/ puxaram as redes e – com / elas – o mar para dentro dos/ seus barcos. E o mar, na sua/ tranquilidade líquida,/ deixou-se levar. As palmeiras /afagaram o suspiro /da ave que se aquietou /no topo de uma habitação./ O mar reconheceu-te /e prometeu enviar-te /a chuva na próxima estação.».
Na solidão desta poesia, reina o tu secreto – cuja ausência configura o vazio do sujeito, dá plasticidade e luminosidade à composição poética – que é voz, confidente, interlocutor, cúmplice e espelho do eu. A construção do tu é o resultado da «obsessão pela luz». Um tu que é sal, azul ou verde rutilante das esmeraldas, «zoada dos búzios», «razão de respirar» do sujeito. Ao tu, o sujeito pergunta «Escutas?», «Sentes?», e roga: «Espera serenamente a mensagem/ do silêncio […]/ deixa que a chuva /se torne a flor de sal /que alimentará a minha voz.»; um tu que ouve as perguntas e, em murmúrio sensual, impulsiona o canto inquieto e fortifica a morada almejada: «Entre um muro /branco rodeando a colina /sobre o mar e o caminho /das palmeiras e baobás /que envolvem as areias / na maresia, estás aí. /E é tudo o que preciso saber.».
Poesia corpórea, táctil, sensorial, com necessidade de ver, cheirar as flores e sentir-lhes a respiração – por isso «as flores pintadas numa tela» deixam de ser flores – , tem de questionar a relação com o divino: chama-se por um Deus «que chora como a humanidade», «hirto e humílimo, /como se fosse homem enjeitado /na sua própria mátria», um Deus cuja mão deveria ser de «humana matéria».
No «exercício implacável» da criação, as mãos desta poesia de experiências acumuladas pintam a paisagem, escrevem a temporalidade com o estilete da memória, preenchem a habitação transitória; «a ausência é contemplar, /à luz das manhãs /os muros brancos rasantes/ao mar onde a voz do Profeta/ se expande dos minaretes», e «o instante de contemplar/ desnuda a poesia». Munido de hipálages – «Neste mar senegalês /revejo a luz do mar /de Lisboa, ancorada /à solidão / no cais das colunas» –, o sujeito navega pelas próprias artérias navegando pelo mar interior da cidade de Lisboa, a «cidade das mil colinas», de «telhados/ pintalgados de gatos e pombos», com «varandins /de manjericos e lençóis /esvoaçando como bandeiras», «avenidas percorridas /à luz mortiça das tardes de chuva», «colinas onde as aves habitam», «perfil das gaivotas atiladas /no cais das colunas», acusa a incapacidade das palavras, dos símbolos não desenharem «o vento e as mãos /tecendo a lua /numa rua de Lisboa», e reage num gesto de evasão para o futuro: «tocaremos a poesia nos /miradouros» ou, ainda, «pela madrugada, voarei /na direcção do mar em busca da solidão.».
«voltarei um dia /para te buscar / entre os búzios», lê-se neste Habitações Interrompidas em versos que atingem o futuro deixando rastos do presente naqueles dias que virão. Resta-me dizer que o leitor da melhor poesia sempre aguarda o regresso da palavra desassossegadamente iluminada, como é esta de Francisco Duarte Azevedo.

Teresa Sá Couto
Lisboa, Julho de 2012

terça-feira, 17 de maio de 2011

«O Trompete de Miles Davis», Francisco Duarte Azevedo

(Texto publicado no sítio da Orgia Literária, dia 16.05.2011)

«O fado também pode ser tocado num saxofone»: esta é a chave de O Trompete de Miles Davis, romance de estreia de Francisco Duarte Azevedo, que desenha o policial, mas é a observação social que o enche gizada num roteiro da emigração portuguesa na América. Dúctil, a escrita mostra que é voo de memórias, voz de sonhos traídos e depoimento do virtuosismo com que se improvisam os dias.

A narrativa é controlada pela voz de um narrador participante, um detective privado em Newark, o «Sherlock do bairro» que «encaixava perfeitinho naquelas rotinas», rotinas que são abaladas pelo desaparecimento do trompete verde de Miles Davis da vitrina da Dana Library, durante uma palestra de um escritor português. A estratégia narrativa da primeira pessoa possibilita exploraram-se eficazmente mundos interiores anquilosados, estabelecer cumplicidade com o leitor devido à característica de depoimento e demonstrar uma consciência actuante, o que dá carácter intervencionista à obra, que pretende problematizar a condição dos emigrantes. Tudo tarefas que o autor cumpre com apuro.

Conta-se a história dum «tipo banal», um emigrante português – e, por ele, do grupo social onde se insere –, que seguiu o sonho de ser actor em Hollywood, mas lavou pratos, foi professor de português num colégio e acabou a sufocar num escritório de vidraças fechadas, com o sonho emparedado no subúrbio que partilha com grupos étnicos, sem conviver, «muros invisíveis» entre raças, culturas e tradições, «movendo-se como as lamas de um vulcão».

Delineada a personagem e estabelecida a intenção, a narrativa, inteligente, lança mão à ironia, ao humor e tece uma teia subtil – que, por isto, não se compadece com leituras descuidadas – com elementos narrativos de transgressão a uma vida escandida na luta pela sobrevivência, que configuram o desejo de liberdade ou representam as asas de sonhos sublimados. Assim surgem, ao longo das 301 páginas, referências a pássaros que cruzam os céus, pássaros que se metamorfoseiam «em harmonias e desarmonias de sons de um trompete», numa clara contaminação das técnicas do jazz na narrativa, a metamorfose da improvisação que servia a necessidade humana, básica, de exteriorização de emoções contidas; o detective cria «hologramas de Miles Davis por toda a parte», sons que o fazem recordar a «batida tranquila de vagas na vazante, a maré rodopiando, retrocedendo e voltando a rodopiar» e onde vê uma «imperturbável e explosiva mistura de cores»; o protagonista olha todos os dias para um quadro de Nova Iorque, de um pintor de rua, onde «podia inventar e desejar fosse o que fosse naquela cidade», «compensar a ausência» e a nostalgia que ela lhe «causava ali tão perto»; finalmente, a poltrona do escritório, onde o detective se refugia, desempenha um papel essencial no desenho psicológico do protagonista e na configuração do desejo, secreto, de liberdade: «deixar apenas que a memória aflorasse sem se intrometer demasiado no âmago das coisas. Queria tornar-me leve» (p. 297).

Tudo na escrita é preciso, como a precisão do relógio de pulso – «um velho Baumatic» – que o detective usa, também símbolo da memória, gesto assumido directamente no texto por Francisco Azevedo, diplomata de carreira: «Há sempre uns tipos que teimam em escrever as suas memórias como se o mundo não passasse sem eles: os detectives, os políticos e os diplomatas.» (p. 296)

Teixeira de Pascoaes escreveu que «a saudade retoca certas imagens da memória e acende uma auréola divina em volta delas». Enformando este projecto, a narrativa divaga por espaços feitos itinerários da memória, ilumina-os com sinestesias, descreve-os com perfeição cinematográfica. Assim surgem: o «bate papo adocicado» na claridade e penumbra do Meal’s Place, com as suas janelas de cortinas vermelhas, ruído de talheres e tilintar de copos; um café expresso duplo no Starbucks, «ténue compensação» com saudades do café da Brasileira do Chiado ou do Nicola; a doçaria portuguesa do café La Provence, para onde caminhava nos fins de tarde «com a veneração de um crente», onde se sentia «barco em porto seguro» e «aos sábados fazia o gosto ao dedo com galão escuro e torradas com manteiga desfazendo-se salgadas sobre as papilas da língua», trazendo-lhe «na trinca o aroma de Lisboa»; o percurso entre La Provence e a Penn Station, «esse caminho mágico» que é a Ferry Street ou a Avenida de Portugal», de negócios dos portugueses, onde abundavam «criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de povoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria.» (p.91)

Francisco Azevedo mostra-nos que a escrita é uma casa: «até um pássaro busca o seu ninho», lê-se neste romance que convida o leitor a ser detective nas páginas para prazer da sua leitura. Esperemos que a casa se amplie, pois este foi um início de gigante.

O Trompete de Miles Davis, Francisco Duarte Azevedo; Planeta, 2011

© Teresa Sá Couto