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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

FLY: O enigma da voz

Há muito fora do mercado, porque esgotada, a obra Fly, de Joaquim Pessoa, está finalmente reeditada, altura em que se celebram 30 anos da sua publicação. Com a chancela da Edições Esgotadas, a presente edição, de luxo, com capa dura e sobrecapa, contém cinco trabalhos de ilustração de João Concha e Introdução Crítica minha.  É este texto que aqui disponibilizo.


(Fly, 2013, sobre a edição de 1983; seguem-se as três ilustrações do interior e a ilustração da contracapa)


Apresentação do FLY, de Joaquim Pessoa, no Barreiro. Na imagem, da esquerda para a direita, eu, Joaquim Pessoa, a vice-presidente da Câmara do Barreiro, Teresa Adão (directora da Edições Esgotadas) e Carlos Mendes.


O enigma da voz

É esbelta a sombra, belo o abismo:
Tem cuidado, meu filho, com certas asas
 que roçam O teu coração.

Antonio Gamoneda (1)


Há trinta anos, «Rã Evinha vinha de parir» o filho morto, e trazia a sua casa azul que se movia: evidenciava-se que a mãe inspiração dava à luz a memória com que se edifica a casa da poesia. Hoje, futuro daquele passado e presente do futuro, intersectamo-la no seu contínuo movimento para respirarmos e sentirmos com ela a dor de um dos partos mais belos da literatura portuguesa.

«Estranho Fly», «óptima definição metapoética da poesia, como discurso que parece querer dizer algo e afinal não diz mais do que a necessidade imperiosa de dizer», escreveu Roxana Eminescu, em 1986 (2), em recensão crítica. Editado em 1983, e com a 2.ª edição em 1985, pela Litexa Editora, Fly tem, todavia, a nascente do seu inquietante caudal simbólico em O Livro da Noite (Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura), editado pela Moraes Editores, em 1981.

O texto de Fly é percorrido por fios, linhas de água, braços de vento, rastos cósmicos num movimento incessante a dar unidade às suas três partes: o reconhecimento do rumor da voz, o trabalho da inspiração – «fêmea tecedeira, branca» – sobre a memória, e a passagem de testemunho. Fly é uma asa afiada que, como lâmina, corta o ar, submerge, transforma, reformula, muda, recupera o tempo da memória, «poro a poro» num «trabalho forçado do pensamento». Por isto, Fly é um «Lume escuro, corvo a corvo, esse livro terrível», é o lume de uma alegria escura, é um lugar íntimo do barro onde o «Boi-sol», «animal da ansiedade», rompe como uma centopeia e agoniza no «vespeiro de palavras», é a «Luz, luz e lâmina, a crina da névoa desce /aos ossos como o futuro, leitura vagarosa, /embrião de próximas estrelas. /Num cálice de nuvens a tempestade estala e atemoriza o coração. //É o touro, a máscara, a lentidão, o peso», assim referido em O Livro da Noite (3). Na prodigiosa capa de João Concha, autor de todas as ilustrações desta edição, e com as chaves do texto, é possível divisarmos o esplêndido Touro símbolo de Zeus, o ajuntador de nuvens essenciais da criação, ou surpreendermos a imponente constelação de Taurus com as suas híades e plêiades urdidoras das chuvas que tombam de nuvens onde adejam pássaros, e que a policromia do preto e branco nos sugestiona serem azuis.
Enquanto no espaço cósmico, Orion, o ufano caçador, desafia Taurus, no texto, a imaginação luta com a poalha branca da memória, «as palavras inúteis são a caça», e o «fogo» sobe cego para a «cara das estrelas».

No «objecto longo da memória», que é Fly, há um homem no umbral lutando com o «vazio atordoado» das mãos, portanto, um homem que transforma as mãos: o umbral a transpor simboliza a saída para a realização poética, para a luz; por sua vez, o vazio é um espaço de liberdade. Estão reunidas, pois, as condições para a fabricação do fogo, da palavra sanguínea «como escuro animal, das últimas sombras de um jardim interior.». Para nascer, o homem tem de romper o invólucro escuro, o «ovo de cansaço» onde se encontra, dobrado sobre si mesmo, ideia plasmada na primeira ilustração do interior, de arte maior. Diz María Zambrano que «nascer, no sentido primário e em todos os outros possíveis sentidos, é constituir-se na autonomia do próprio ser. Portanto, afrontar a luz e o que nela acontece: ver e ser visto para começar. A luz é o lugar da suprema exposição para o homem» (4). Porém, a claridade é uma «flor carnívora», e por isso a verdade virá encoberta por uma névoa espessa que envolve tudo, símbolo da espessura do silêncio poético, que puxa o leitor para o abismo do texto e da sua própria intranquilidade. Desta forma se veicula o enigma da palavra que tem de nascer, porquanto se esconde no mesmo instante que se revela; acresce, como referiu George Bataille, que «não poderíamos imaginar contradição mais obscura, com melhores características para assegurar a desordem dos pensamentos.» (5). A ideia de obscuridade relaciona-se também com a de impossibilidade de realização, e ambas estão patentes no enigma do poço de Bernardo Soares: «Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos – um poço fitando o céu» (6). Contudo, a imaginação é um caminho da água, consequentemente, uma rebeldia, um instinto contra a morte; William Blake escreveu que a Imaginação «é a própria Existência Humana» (7) e, em Fly, o «sangue todo» empenha-se no nascimento da voz, nascimento que exige desnudamento e dor:

Saborear-te os nervos, poço a poço,
ó pedra das moléculas perfeitas; comer
os versos e os ossos, pouco a pouco, Fly, e ler
a carne tenra da flor da amendoeira; in-
comodar-te; e renascer de ti – das
cinzas que deixou a tempestade – , ó luz
que dói de espasmos de ar, por sermos pobres
os dois, ó mãe, ó Fly, e um de nós
ter de parir, nu, no interior da voz.

Sendo a imaginação uma casa – a memória usa a imaginação para lembrar o que não sabe, para despir a dor e o delírio, para recompor o tempo e a distância – há que compreender a casa, os seus corredores fundos, escusos e escuros, há que enfrentar o medo: «para romper a solidão, atrever-se-iam os cardos» em «metros de penetração na morte», «profundidade (da ferida) que nada esclarece mas tudo pressagia», diz-nos texto em busca da fundura insondável, «do fundo ilimitado que antecede a visão e a projecta», segundo Ramos Rosa (8).

Tratando do que se perdeu, a memória intensifica a noção de morte. Daí a centralidade da noite na revelação do ser e das suas impossibilidades: «O calor da noite desenterrava moedas, causava febre, quase fazia espuma na pele martirizada»; a noite desvenda o que a manhã oculta: «a noite moveu raízes de choro que a manhã escondeu» e «uma raiz é também um barco navegando em profundidade até tocar outros dias, outros deuses, outros nadas.»; a noite arrima «a palavra calada de um enforcado até acima, onde o sol não entende»; é na noite que «a água cantara, com voz de mulher» – que podemos ter como a imaginação, a inspiração, a poesia; é na solidão da noite que o vento, esse «aluvião turvo», volta para parir um filho morto. Também a associação «cinza fresca» é um princípio da memória em transformação: «Só o teu corpo me interroga /como cinza fresca». Em Fly diz-se claramente que o que exulta é o que fere, o que desafia, e não o que fascina, o que obedece.

De onde nos vem «este dom de morrer, esta potência /degoladora da dor»?, perguntou Gamoneda (9); «O medo solta /os cavalos do amor e as últimas pombas. /O azul é, decerto, a memória de outro céu profundo // Antes, muito antes do fogo, como arderam as lágrimas?», lê-se em O livro da Noite para em Fly se confirmar a transmutação da dor em prazer estético: «em todos os medos e em todos os tempos, Fly, atingiremos a luz, o orgasmo dos sinos.». Assim, em Fly «o tempo é herói» que enforma o informe acoitando-o no poema, o tempo é «mendigo, pó amarelo, depois chuva ou alecrim, mais tarde um fogo liso como um peixe», e o poema será um «pássaro verde» que poisa na folha branca e assobia «para dentro» ou será «água verde» de um pássaro azul que não sabe fugir do seu voo; uma necessidade também dita assim:

 […] e defendo-me
  da fome que em teu útero me aquece:
a memória dos ossos de onde venho
e que nas feridas do corpo se abastece.

Produto humano, a palavra surge como espelho onde se interroga o mistério de se Ser: «a tua nudez me desabrigou e me fez tiritar diante do meu corpo, como num espelho de água. Ouve-me agora quando ao falar de ti me reconheço». É este «vento de espelhos» que encontramos na segunda ilustração onde pulsa um coração negro e rutilante, embutido numa falésia, com amplas janelas espelhadas, coração que serve de miradouro ao homem.

Se a imaginação é uma casa, a pele da imaginação é o mapa da criação da palavra, um mapa prenhe de caminhos que se percorrem incessantemente, «uma carta na água», um «horóscopo do orvalho», rotas de uma peregrinação e, sobretudo, um mapa com o regresso do outro de nós: «[…] de qualquer modo irei/onde sei que não vou porque estou lá; /cansado de cansar-me ramo a ramo/ (na carne contrafeito, no tempo contradito), /[…] Gostando destes ninhos/onde as palavras pedem alimento».

Atentando no carácter labiríntico e disfuncional do texto, Roxana Eminescu escreveu, na recensão já aqui indicada, que «as palavras parecem soltas, as frases desligadas umas das outras, como um discurso psicopata, um discurso partido por dentro, que parece tornar-se poesia por acaso». Também a euforia e a disforia que presidem ao nascimento da voz dão ao texto o tom de loucura, como se a voz fosse originária de um sujeito demente ou possuído. Será o caso de privilégio divino dos poetas, como o enunciado por Platão: os poetas «não passam de intérpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração», pois o poeta é uma «coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão» (9) ; estar possuído e em delírio, «in louco, embriagado, allegro andante /cheio de sangue e chuva, neste quarto /que me azulou os olhos de castanho», palavras com que o sujeito poético se autocaracteriza.

Fly parte de substantivos genesíacos, como água e luz, adeja em sombra e vento, rodopia num jogo inventivo de contradições formantes do enigma, contradições que reflectem a errância humana e criadora e que consubstanciam a própria poesia. Em Fly, a imaginação tortura a água da memória e é dessa água torturada que nasce o grito silencioso do poema. É este grito essencial que nos é exposto, também, na terceira ilustração. Ainda, na ilustração da contracapa, a escada a ligar águas, as do esquecimento – onde estão as recordações –, e as da memória recuperada, as da morte e as da vida, com os degraus à espera que outros os subam em busca da sua própria interioridade, os degraus erguidos pelo texto: «na interpelação de nós outros saberão recomeçar».


Teresa Sá Couto
Lisboa, Outubro de 2013


Notas:
(1) Antonio Gamoneda, Oração Fria, Assírio&Alvim, p.145
(2) Roxana Eminescu, Colóquio Letras número 91, Maio 1986, p.93
(3) Joaquim Pessoa, O Livro da Noite, Moraes Editores, p.16
(4) María Zambrano, O Sonho Criador, Assírio&Alvim, p.p.110-111
(5) George Bataille, As Lágrimas de Eros, Sistema Solar, p.50
(6) Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, Assírio&Alvim,p.48
(7) William Blake, Milton, Antígona, p.179
(8) António Ramos Rosa, A Impossibilidade da Construção, JL, 7 de Maio de 1991
(9) Antonio Gamoneda, ob.cit., p.31
(10) Platão, Íon, Inquérito, p.51

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lançamento do novo livro de Joaquim Pessoa

Guardar o Fogo é o novo livro do poeta Joaquim Pessoa. Com a chancela da Edições Esgotadas, o livro será lançado dia 8 de Junho, sábado, às 17h00, na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. A Apresentação será feita por Maria da Conceição Andrade e Maria Fernanda Navarro, autoras do texto introdutório.


Como o título indica, Guardar o Fogo reúne poemas sobre a natureza da palavra e o laboratório poético de Joaquim Pessoa, e vem responder a um projecto do autor de concentrar num livro a relação do poeta com o ofício enigmático da palavra, a busca do tutano e da textura, os «ossos de uma paciência que persegue o mundo». Neste sentido, o fogo guardado nas 388 páginas é uma libertação de ar para os leitores e estudiosos da poesia, em geral, e da poesia de Joaquim Pessoa, em particular. 
 
Como poeta é sinónimo de desassossego, o autor junta 104 textos inéditos à Antologia que contempla textos desde O Pássaro no Espelho, editado pela Moraes Editores em 1975 até Ano Comum, editado pela Litexa em 2011. Guardar o Fogo é, afinal, «Um mundo de palavras. Língua/que lambe o universo para espanto/da imobilidade das estrelas.», como se lê no texto inédito da página 73.

Transcrevo, ainda, dois textos inéditos:


Poema quadragésimo terceiro

Falo-te do limite do mundo: para lá
das palavras, para lá da fala. Um oceano vazio
é a nossa boca, território atormentado por
uma água seca antes das cerejas e depois do
parto. Cordão que liga o teu tempo
a um tempo universal: da tua voz,
ao canto tremendo das estrelas, fogo
cantando luz.

Luz, e ouro altíssimo: sangue, ideia, ventre, vida. (p.75)


Poema quinquagésimo primeiro

A escrita
foi a terra prometida 

Por ela
as águas se abriram
para que o poeta guiasse
o seu povo de sílabas. (p.83)


sábado, 3 de março de 2012

Ano Comum, Joaquim Pessoa

(Texto que serviu de base à Apresentação Pública, de 10 de Novembro último, em Lisboa, editado no sítio da Orgia Literária).

Ano Comum, de Joaquim Pessoa, não é um livro de poesia, embora contenha alguns textos em verso, muitos em prosa poética, e seja a poesia a raiz de todos eles; não é um Diário, não obstante a disposição diarística dos textos assumidos por um Eu que, fragmentariamente, se vai construindo num puzzle de interioridade. Como o título denuncia, Ano Comum é um tempo de encontro de um Eu que se confunde com um nós e se dirige a um tu, com palavras carregadas de vozes, sendo as suas 386 páginas brancas o lugar nítido onde a invenção acontece.

A matéria temática, o carácter dialógico, as estratégias da enunciação, a nitidez vocabular, que confere profundidade aos textos, são as chaves de Ano Comum.
«Subscrevo a chuva e as bibliotecas. Adoro o cheiro da terra e dos livros.», lê-se no Dia 333, onde se assume a «relação relação íntima e espiritual» entre «o cheiro da terra molhada» e a palavra, e se evidencia o caminho de quem vê e sente nas mãos a luz do real envolvente; falo da matéria vivencial depurada e transfigurada pela imaginação artística, de quem interpreta a realidade, quer compreender as coisas e, por esse entendimento, encontrar o seu lugar no mundo.

Na construção do caminho de luz, coopera a característica dialogal: a voz é objecto da escrita de um duplo do Eu, a voz do leitor implicado tacitamente no texto por quem segue na vida sentindo e interpretando o átomo que lhe pertence e que é o mesmo que pertence ao outro, desvendando a voz oculta, a lava subterrânea, procurando sempre «várias maneiras de chegar ao mar». Desde sempre, na obra de Joaquim Pessoa, a palavra diz mais do que diz, porque é a palavra de todos.
.
Esta característica dialogal da obra de Joaquim Pessoa entronca, estimulando e recebendo estímulo, noutra grande característica: movimento de procura da unidade, movimento que desagua em Ano Comum com 365 textos, correspondentes ao número de dias de um ano, e o título a declarar a unidade. Este movimento encontra-se na tessitura semântica, para prazer do texto, como queria Roland Barthes, na sintaxe simples e expurgada, onde o sensível se cruza com a fraternidade e onde, conceptualmente, o futuro habita, na variedade formal de textos, nas cadências vibrantes para sedução da leitura.
Sabendo-se que a luz do conhecimento só se alcança com amor, este tema executa-se, então, nesse grande movimento em direcção à unidade: «a casa do amor é uma lavandaria onde tornamos mais claros os olhos», lê-se no Dia 78, dito com toda a plenitude no Dia 51:

Invento hoje para ti este falso poema de amor egípcio: “A tua casa é o meu coração e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites. Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da gazela e a brevidade suicida das flores do hibisco. O meu coração dá abrigo a um grande amor, como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis. Não há armadilhas montadas no percurso que te leva à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia. És em mim. Estás em mim. Há-de o meu coração ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que tem a envergonhada cor da flor do lótus. Há-de o meu coração calar-se, mas esse silêncio não impedirá a promessa de uma eterna noite de amor."

Doutra parte, a interpelação desassossegada do mundo levada a cabo pelo Eu que irmana o leitor no seu olhar e na questionação das derivas que condicionam o homem na sua existência, instiga a escrita humanista e reivindicatória em torno de ideais de liberdade, fraternidade, solidariedade, que desafia à tomada de consciência, semente da actuação – com ressonâncias do poeta chileno de O Canto Geral, Pablo Neruda.

«Tens de levantar a cabeça do microscópio. Já chega de observar uma realidade minúscula que a simples utilização dos olhos não reconhece», lê-se no Dia 86 numa reacção contra os horizontes fechados e o consequente conformismo submisso.
Para que os olhos se impregnem de realidade, solta-se a palavra que denuncia a opressão – e é voz de oprimidos –, que reage contra a miséria, o «triunfo da mediocridade», a injustiça, o oportunismo, a hipocrisia, enformando textos lúcidos, crus, sarcásticos, irónicos, sonoros, como o do Dia 295:

No meu país de pachecos safam-se os parentes, os papalvos, os palermas. Perfilam-se os padres, perde-se o pudor, prefere-se o penacho, pede-se paciência, pinta-se o pior, publica-se o pastel, pertence-se à pandilha, perfila-se o partido, promove-se o pelintra. Perguntas-me: porquê? Porque no meu país de prados, pachecos e outros piolhos públicos, se permite toda a patetice, se promulga toda a pulhice, e se perdoa toda a porcaria. E pronto. Procuram pisar-te. Neste portugal dos pequeninos pagas portagem para tudo. Se pias, proíbem-te. Se não pagas, penhoram-te. Ah, pois!.

É, ainda, e sempre, a palavra de revolta, um canto de propagação da esperança e, neste sentido, um canto de amor: «Enquanto o melro cantar, tu sonharás. Os grandes pensamentos não estão ensopados de sangue nem se acomodam nas pilhas de dinheiro. A primeira palavra da noite é “dia” e a vigília é um preço justo pelo vento. […]», lê-se no Dia 99.
 
No alvoroço criativo do vento, o Eu dialoga com outros autores, que ele nomeia directamente nos textos, incorpora-os no seu mundo, procurando-se a si mesmo e desvelando-se nessa procura: «Como Walt Whitman, acredito que regressarei à Terra dentro de cinco mil anos. Ou talvez menos. Não receio afirmar isto. Ou será que as coisas que dizemos hoje nos podem perseguir amanhã? […] Como Éluard, quero entregar o meu coração ao vazio e o vazio à minha vida. E aprender como se sobe caindo, para morrer cheio de vida e partilhar essa vida com a morte […]» (Dia 54); «Montale diz que se tornou igual a um absorto pescador de enguias da ribeira. Eu sinto-me igual a Montale. Alguns milhares de pessoas sentem-se iguais a mim» (Dia 327); «Também eu amo os ácidos, os gumes e os ângulos agudos. Também eu caminho sangrando, ferido pela minha própria ironia, com a face de Deus perdoando as minhas lágrimas. Leio devagar as tuas palavras sem poder sequer aspirar à solidão.», lê-se no Dia 185, numa clara intimidade com Cesário Verde.
 
Concluindo, com retorno ao título, em Ano Comum, o Tempo é cifra aglutinadora – por isso recusa a «plataforma de um ano bissexto» – de vivências íntimas, desafios, desejos, ganhos, extravios e sonhos, num projecto vocabular comprometido com o futuro ou dito assim, no Dia 291: «Sou o teu coração e por isso te guio nesta floresta de palavras. O que nunca te disse não importa agora, está fora do meu manual de estratégia. Sim, porque só um coração possui uma estratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo. Vamos. O amor é uma grande viagem.» .

© Teresa Sá Couto

Ver o Posfácio a Ano Comum, AQUI

domingo, 9 de outubro de 2011

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Foi no dia 07 de Outubro, na repleta Biblioteca Municipal do Barreiro, o Colóquio sobre a obra de Joaquim Pessoa e a Apresentação do livro Ano Comum, com a chancela da Litexa. Na mesa, eu, Joaquim Pessoa, José Jorge Letria, Cristina Paixão e Carlos Mendes (na imagem, da esquerda para a direita). A surpresa abriu os trabalhos: na qualidade de Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria entregou uma placa de prata, galardão de homenagem às mais de três décadas de poesia de Joaquim Pessoa.
Ano Comum tem prefácio de Robert Simon e posfácio meu. É o posfácio que aqui edito. Futuramente, se o considerar pertinente, editarei aqui outros textos sobre a obra de Joaquim Pessoa, que têm vindo a ser (e outros ainda serão) pronunciados em diversas ocasiões, e todos eles complementares.

(fotografia de Dina Barco - clicar na imagem para aumentar)

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Perguntaste-me o que é que o crustáceo fia
entre as suas patas de ouro
e eu respondo-vos: O mar é que o sabe.

Pablo Neruda, Canto Geral (1)

Determo-nos em Ano Comum é irmos ao encontro dum projecto de modelação do humano em comprometimento com o mundo, projecto que Joaquim Pessoa urde há quase quarenta anos.
Tendo a escrita como forma de experiência do mundo e atrevimento sobre o mundo, a palavra de Joaquim Pessoa revela a consciência e a necessidade de atentar no real, motivando uma poesia de engendramento antropológico, social e político, num pacto solar e apolíneo com a vida, solidário e fraterno: «convoco a vida para a tua vida. Convoco a tua vida para a minha vida. E convoco as nossas vidas para todas as vidas que soubermos convocar.». É a palavra em busca de uma pátria que contrarie o «quintal cheio de melancolia e solidão» e as ruas da desesperança, sendo o coração a chave – «a grande pátria colectiva» –, pois «só o coração possui uma estratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo».

Marcadamente metapoética, a poesia do autor de O Pássaro no Espelho (livro de 1975) – o pássaro em situação especular, que se observa a si mesmo, a poesia que fala de si mesma e que a imagem invertida no espelho simboliza – acusa ter, em Ano Comum, a técnica e a razão dos pássaros: «o silêncio é para o pássaro como a jangada para o náufrago. Quer dizer sobrevivência. É também por isso que digo ter desenvolvido a técnica dos pássaros.».

No «coração vagabundo do livro» da vida, há que roer um substantivo, mastigá-lo devagar, «como o início de uma estrela» e levá-lo ao encontro do adjectivo para que juntos exprimam as tensões do voo. «Escrevo luz e escrevo limbo e escrevo lâmina», diz o sujeito poético do poema que pode ser «fósforo», «gato», «pedra», «enxame de sílabas», «céu de milénios», «sedução de pétalas», «dor das colinas», «medo do abismo», «faena», «alma do toiro», «sangue», «respiração», «braço», «ombro», «sexo», «dique», «barragem, «igreja», «voo», «instinto», «instante», «tempestade», «flauta», «nave», «cave», «cão, «pão», «chave», «solidão», «liberdade». O poema é, pois, a pulsão que liga o poeta ao mundo.

Também o drama da criação surge prodigamente, como os exemplos da metáfora da lampreia que dá o sangue em sacrifício ou o «osso, essa figura exemplar», assim referido em Peixe Náufrago (livro de 1985); um osso de cuco, fora do cuco, pode «redimensionar o universo», lê-se em Ano Comum; a palavra é o osso que o escritor arranca de si; o cuco marca o tempo; na literatura, essa marca é a memória. Na temporalidade constitutiva que é a memória encastoam-se a nostalgia e o pessimismo originando textos como este:

Havia um sonho. Havia uma
Esperança. Havia. Havia.
Mas o sonho também cansa
E a esperança está vazia.

Havia um sonho e uma esperança.
Pois havia.

Note-se que o pretérito imperfeito do verbo «Havia», no seu aspecto de duração, constata a desilusão, mas nega o fim da acção de sonhar. São perspicácias de uma poesia que denuncia, mas que se recusa a cantar a desistência humana, uma poesia com a consciência de que a dor mundializa o homem, que sabe que «Todos os invernos são um investimento no futuro», que celebra o contrato com a vida e tem na transformação e na mudança a «pequena glória» do poema: «Revogo o arrependimento e as lágrimas, estabeleço uma labareda no seu lugar».

Na transfiguração da ferida irrompe, muitas vezes, a ironia redentora, característica de sempre da escrita de Joaquim Pessoa: «Procurar uma nova terra no oceano, só mesmo em busca de um resort para descanso dos novos heróis do mar desta nação valente, deste nobre povo.».

Morada e mapa de um sentimento, a palavra encontra na temática do corpo um grito libertário. Diz Novalis que «O nosso corpo é uma parte do Mundo – um membro exprime já a autonomia, a analogia com o Todo – o conceito de microcosmo. Com o corpo modifico para mim o meu Mundo» (2). Em Ano Comum, surge-nos o cotovelo como uma jóia, porquanto é «um pé das ideias»: «nele me apoio para olhar dentro de mim»; os dedos são «cegos que procuram o amor, tacteando. Dez pretextos para procurar o sentido de todos os sentidos, rigorosamente, como a geometria do bailarino»; as mãos confundem-se com as palavras – «dou-te as palavras como dou as mãos» – na operacionalização do amor e da fraternidade, no desempenho do sangue com a objectividade «quase insolente» da sua cor a movimentar-se «para dentro da realidade». Declarando-se pertencer ao «signo do afecto» e «enamorado sempre da realidade», na aproximação ao «estar enlevado é uma forma de realidade», de Paul Eluard (3), o sujeito poético tem na sua cidade de sempre a sua cosmologia: «Em Lisboa estão os teus olhos e as minhas mãos. E abraçam-se»; «Falo desta cidade e uma gaivota abre em mim as suas asas, com vontade de partir e de ficar. É a saudade, dizem.». Será uma saudade em busca de uma cumplicidade logo encontrada em Cesário Verde, o cartógrafo solitário, com quem o sujeito poético partilha o amor pelos «ácidos, os gumes e os ângulos agudos.»; será a fome da vida e a necessidade de mapear essa sua condição.


«Viver é ter fome! A vida é fome: fome de alma e de pão! Fome negra!», escreveu Teixeira de Pascoaes (4). Num gesto de reinvenção desta herança, Joaquim Pessoa escreve, em Ano Comum, que a «fome é doce, límpida, comovida, como a cor da água-marinha». Em Poemas de Perfil (livro de 1975), em versos dedicados à classe operária, lê-se que «A fome é uma arma», sintetizada assim em Ano Comum: «Daremos luta.». Viver é, pois, ter «Fome de tudo», sendo este um tudo secreto, como «É secreta a conversa entre o fogo e a lenha», «a voz dos búzios, a saudade das andorinhas», a beleza, o espírito, o medo, a morte, a loucura, o acto de criar.

                                                     
Em Joaquim Pessoa, «tudo é matéria da poesia», porque as palavras dos poetas juntam-se a outras palavras para procurarem um caminho, e porque «o azul tem sempre a cor que nós quisermos.». Todavia, na obra do autor, há aqueloutro Tudo unificador, onde se reúnem todas as outras coisas: o Amor, «sempre o amor, sempre o soluçante líquido da vida», na formulação de Walt Whitman (5), o amor cujo mel «tem o esforço da abelha», e que, ávido, pede para ser construído todos os dias ou dito assim em Ano Comum: «Tenho sede quando te beijo. Quando não te beijo tenho sede.».

No processo de construção do humano há que contar com incursões biográficas nem sempre fáceis de destrinçar do fingimento poético, que revelam a busca e configuração de uma identidade – busca que acarreta necessariamente uma dimensão temporal que acciona os mecanismos da memória – e conferem pendor auto-reflexivo à poesia de Joaquim Pessoa. Se nos deparamos com a questionação da condição do homem em determinadas circunstâncias de tempo e lugar, é, sobretudo, de biografia interior que se trata, aquela que revela sentimentos de conquista, perda e a teimosia dos sonhos.

«Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher», diz-nos o eu numa sábia relação com o mundo empírico que o suporta para definir o seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que, aludindo à imortalidade dos escritores, se projecta na eternidade: a sua idade «é a mesma do lobo, do alce, da andorinha», que não conhecem o tempo, não conhecem a morte e por isso são imortais: «E não sei que idade tenho. Talvez sessenta anos. Talvez o tempo do amor. Ou o tempo que falta para salvar o amor.».


(1) Pablo Neruda, Canto Geral, tradução de Albano Martins, Porto, Campo das Letras, 1998, p.530
(2) Fragmentos de Novalis, selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes, Lisboa, Assírio&Alvim, 2000, p.67
(3) Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor, tradução de Maria Gabriela Llansol, Lisboa, Relógio D’Água, 2002, p.221
(4) Poesia de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Assírio&Alvim, p.347
(5) Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio&Alvim, Lisboa, 2011, p.119


© Teresa Sá Couto