quinta-feira, 13 de maio de 2010

Novo livro do poeta Torquato da Luz

Conhecido pela simplicidade cristalina da escrita e pelo olhar íntimo e limpo com que ilumina o real, o poeta algarvio Torquato da Luz tem novo livro: Espelho Íntimo será lançado já no próximo dia 26 de Maio, na livraria Barata (Avenida de Roma, 11 A, Lisboa) pelas 19 horas. A apresentação é de João Gonçalves, com leitura de poemas de Inês Ramos.
Deixo um poema deste novo compêndio, com agradecimentos ao poeta de Ofício Diário.
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Ilusão
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Apenas é real o que é sonhado.
A nossa imaginação
é que faz o que vemos e tocamos.
Seja qual for o lado
por que se encare a questão,
só existe o que arrancamos
do fundo do coração.
Tudo o mais em que teimamos
não passa de ilusão.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

não se brinca com facas, José António Barreiros

(texto editado no sítio da Orgia Literária a 11.05.2010)


O homem é «um equilíbrio difícil em dois pés precários», escreveu Vergílio Ferreira, ele que soube como ninguém retratar a tensão insuperável do homem consigo mesmo. Neste trilho ôntico, chega-nos o não se brinca com facas, recente título de José António Barreiros, com a palavra a erigir a vida ao abordar a fragilidade da existência, a solidão, a incompreensão e a interrogação da identidade a acordar a consciência do fracasso.

Estreia no género Romance, não se brinca com facas sucede a Contos do Desaforo, editado pela Presença em 2007, e com o qual, por sua vez, o autor se iniciou na escrita de ficção. Se em ambas as obras reconhecemos a problemática das vivências, o olhar hábil sobre o real e a escrita segura do autor, este novo livro segue, todavia, um programa narratológico distinto. Romance intimista e de forte densidade psicológica, não se brinca com facas assenta a sua intriga dentro das personagens, cabendo à escrita desvelar esse centro fechado, estiolado, ulcerado das existências: Júlia «há muito deixara de usar o relógio» e «os pés encaminhavam-na para o vazio»; Mário pensa-se «repetidamente até ao cansaço»: «Mário estás exausto de ti»; Pedro sente-se velho e «um sentimento de exílio acompanhava-o»; o emprego de Manuela «comprara-lhe a despersonalização para bem atender clientes personalizadamente».

A manusear estas quatro personagens de vidas cruzadas, fundadoras da narrativa, está um narrador engenhoso que se confunde com elas, fala com e sobre elas, assume-se como a voz das suas consciências, confunde-se com o autor e fala com o leitor enleando-o na questionação da condição humana, piscando-lhe o olho, ora subtil, ora declaradamente: «há sempre um livro que faz as vezes, há sempre um livro que conta a nossa história».

E se a história que se conta pretende descascar o porquê, «nem tudo o que é interrogativo tem de encontrar resposta, porque há a curiosidade e o mistério», lê-se para se compreender o método escolhido que origina uma narrativa fragmentária a contar uma história a suceder-se, como a vida, com as suas imprevisíveis erupções.

Na linha dos existencialistas, e logo a abrir, a assunção do homem enquanto um ser possível, sempre em construção, um “ainda não”: na manhã do primeiro dia do ano – porque «há sempre um primeiro dia» – Júlia, que «tinha saudades do que fora, agora que não sabia o que era», enceta uma viagem de comboio de Lisboa a Braga, na busca duma «possibilidade de destino». Distante de si, estranhando-se a si mesma, a personagem reúne os fundamentos da demanda existencial, Leitmotiv desta obra: «O que se faz numa terra estranha quando nós próprios nos estranhamos, desencontrados? Era tempo de viagem, de fuga, de recusar o destino, rir da fatalidade». Todavia, porque o ser humano é memória, Júlia carrega, na sua mala alegórica, vozes, desamor, vergonha, pudor, remorsos e um «ligeiro receio antiquíssimo, medo de lhe pesar nos ombros o fardo do seu futuro», «medo de já não mais se iludir». Ao sentido de inevitabilidade do tempo dissoluto, junta-se a noção do homem enquanto ser responsável pelo seu percurso – e de novo ressuma a visão sartriana da existência –, de se criar a si mesmo, elegendo-se e elegendo os seus possíveis: «há muito que o cinismo lhe dissolvera, ácido, a doçura da crença: nesta hora exacta, o momento zero da responsabilidade própria, sabia que não tinha ninguém», e, noutro passo, «o que fizeste de ti que nem o corpo te sobejou.».

Se o comboio é a metáfora da viagem humana, as janelas, a transparência que o nada representa, exibem o destino emoldurado, o retrato do percurso feito, a sombra tombada da existência no fulgor do vidro, no brilho da escrita. Nas janelas do comboio em movimento, sucedem-se as memórias, vivificam-se os espectros, procura-se o “eu” que surge em manifestações quotidianas; no reflexo das janelas, sonhos confundem-se com realidades, regista-se a angústia perante o nada a que se chega construindo-se um conceito trágico da condição humana. É a existência a segregar o seu próprio nada, pela acção da consciência – ainda na linha do pensamento de Sartre e de Heidegger –, e tudo desembocará nesse nada. As janelas são o elemento simbólico central no cumprimento desta narrativa existencial de José António Barreiros, estão ao longo de toda a obra a suturar falhas, a estabelecer diálogos entre o interior do ser humano e o infinito onde ele se projecta. Da janela da sua casa, Júlia, «rasgada de solidão», observava «os latões do lixo», os quais tivera como única companhia, eles que, como ela, «albergavam memórias de festas», depósitos do «rejeitado» e do «abandonado»; com um salto de uma janela, um «voo cego carregado de desejo de voar», uma prima de Júlia suicidara-se.

«Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela» (1), escreveu o autor de La Nausée. «E sei que nesta narrativa me esqueci completamente de ti, Manuela, e da tua história, a história da tua revolta e não tens outra» (p.150), escreve José António Barreiros neste não se brinca com facas, narrativa que transporta em si a revolta de personagens sem lugar, que a palavra escrita acoita.


(1) Sartre, A Náusea, Europa América, 1976


José António Barreiros, Não se brinca com facas, Labirinto de letras, 2009

Ver outros textos sobre livros do autor na etiqueta correspondente.

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Chave, novo livro de Rui Herbon

Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009, A Chave é o novíssimo título de Rui Herbon a chegar às livrarias no final deste mês.
O lançamento está agendado para o dia 25 de Maio, às 18:30, na Bulhosa de Entrecampos. Será apresentado por mim.
Como sempre, editarei aqui, posteriormente, o texto que servirá de base à apresentação.

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Deus move o jogador que move a peça
Que deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luis Borges


Extracto:

«O livro tinha por título Doze variações sobre a defesa Alekhine e o seu autor era o próprio Michel. A mulher, alta e esbelta, com longos cabelos negros ondulados e uns grandes olhos que às vezes pareciam cinzentos e outras azuis, disse chamar-se Lucrezia. Michel escreveu com rapidez uma dedicatória na primeira página do volume, mas enquanto o fazia, não pôde evitar perguntar-se como era possível que uma mulher tão bela se sentisse interessada por uma obra tão enfadonha quanto a sua.

– Joga xadrez? – perguntou Michel, enquanto lhe devolvia o livro.

– Sou apenas uma amadora – respondeu ela –, contudo, pode dizer-se que o xadrez é a minha vida. – Um estranho sorriso reverberou nos seus lábios. – Ou talvez seja mais correcto afirmar que o xadrez é a vida, não lhe parece? Dois princípios opostos debatendo-se sobre um tabuleiro cósmico: branco contra preto, Ormuzd contra Ariman, Cristo contra Satanás.».



*Ver textos sobre obras de Rui Herbon, bem como uma entrevista, na etiqueta com o seu nome.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Contas à Democracia

Perto de se celebrar mais um 25 de Abril, resgato este texto, elaborado há precisamente dois anos, sobre mais um livro imprescindível de Viriato Teles, para um reflexão necessária.

Contas à Democracia - Viriato Teles na missão de interpelar o tempo

Não é filósofo, nem sociólogo, tampouco analista político. Viriato Teles é apenas um português embrenhado no seu tempo, que vive a vida interpelando-a, com o dom superior de saber ouvir vozes individuais para, registando-as na palavra escrita, as devolver, plenas e inquiridoras, ao colectivo a que pertencem.

Quando passa mais um aniversário da Revolução de Abril, é ele que nos desafia à reflexão sobre os caminhos da nossa jovem Democracia, com Contas à Vida – Histórias do Tempo que passa, editado em 2005. São 20 conversas desatadas por entrevistas a personalidades dos mais diversas áreas da sociedade nacional, que viveram a revolução com frémito e esperança; não lhes é perguntado onde estavam no 25 de Abril, mas onde está e para onde vai o 25 de Abril; são as parcelas da prova dos nove que nos desfralda uma verdade irrefutável: Abril está na prática quotidiana da denúncia da injustiça, no inconformismo e na luta pela felicidade, o combate que legitima o homem, agora e sempre.

Nas 330 páginas deste Contas à Vida, não se dão respostas. Insurrecto, Viriato Teles, consegue muito mais: faz perguntas, às vezes directas, muitas vezes indirectas, sempre nascidas da interacção com os interlocutores que vão deixando escapar nostalgias, desencantos, pessimismo, mas também alguma esperança, quiçá cônscios de que a utopia é necessária para a caminhada; as suas perguntas alcançam-nos, leitores, estimulando-nos à auto – reflexão, num parto de ideias, espécie de maiêutica socrática, mas pelo timoneiro Viriato Teles, também ele enredado no processo que criou. Aliás, esta contaminação entre autor e leitor é uma das marcas inconfundíveis do jornalista, que torna magnética a leitura dos seus textos.
Gozando de liberdade reflexiva – num livro que se propõe fazer um retrato dos caminhos da Liberdade –, surgem as 20 personalidades, dispostas de A a V: Alberto Pimenta, Alice Vieira, António Pinho Vargas, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias, Fernando Relvas, Francisco Louçã, Isabel do Carmo, João Soares, José Mário Branco, José Medeiros, Luís Filipe Costa, Manuel Freire, Maria Teresa Horta, Mário Alberto, Padre Mário de Oliveira, Odete Santos, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves, o qual tem neste «Contas à Vida» a última entrevista dada – o militar de Abril e antigo primeiro-ministro morreu em 2005 – não chegando a ver o livro, disse-nos Viriato Teles.

E depois da Festa…

«A flor não é a certeza do fruto», disse Almada Negreiros. «O dia 25 de Abril de 1974 será esquecido. É inevitável», refere Tiago Rodrigues no Prefácio, aludindo à perda do valor da Festa coroada com cravos rubros. Todavia, sugestiona-nos, é preciso esquecermos Abril para «podermos começar a pensar na próxima festa, o que nos faz lembrar da razão que tinha Natália Correia ao afirmar que «só os medíocres sabem o que fazer com a vitória»; é também neste sentido de eterna construção do sonho que entendemos as palavras de José Mário Branco: «vai ser preciso fazer muitos mais vinte-e-cincos de Abril para recuperar o que se perdeu e se avançar no sentido da felicidade e da justiça da sociedade.». E não é esta energia do sonho um legado da Revolução de 1974?

Trinta e quatro anos depois das conquistas de Abril como vai a nossa Democracia, a nossa capacidade de crítica, e a nossa participação cívica?

Hoje, verifica-se perda de entusiasmo, diz a jornalista e escritora Alice Vieira, e surgem novos tipos de censura, como a «censura económica» que se alimenta da actual crise no trabalho e da fragilidade do trabalhador que necessita do pão na mesa, o que o faz calar-se perante o patrão, pois pode «ir para a rua e estão logo cinquenta» para o seu lugar.
Baptista Bastos aponta responsabilidades especiais aos partidos políticos de esquerda, aos jornais e à actual Literatura pela incapacidade de formação da massa crítica social: «O Guterres, cada vez que via um socialista ficava assustadíssimo!»; «O PCP está completamente esvaziado de conteúdo»; «os jornais não têm debate, não suscitam reflexão. Mas suscitavam no tempo do fascismo…»; «a literatura portuguesa está toda ela uma grande merda. Porque as pessoas estão a contar as suas vidinhas sem terem vidas para contar».
Apesar de nos ter restituído a cidadania, «dá a sensação que estamos cada vez mais longe dos objectivos do 25 de Abril, diz Fausto, para questionar: onde está a justiça social? Onde está garantido o direito à felicidade das pessoas quando estão à mercê de uma sociedade fortemente competitiva e onde milhares de jovens estão condenados ao desemprego, à marginalização, porque são dirigidos para se formarem em cursos completamente desadequados às necessidades do mercado e do país?».

Comentando o actual capitalismo tentacular, que debilita as ideias anticapitalistas e cria fossos sociais, João Soares nega-lhe a «inevitabilidade, porquanto reconhece nas classes mais jovens, que não se identificam com a «lógica de competição desenfreada, despudorada e feroz» do neoliberalismo, «espaço e apetite», e «uma grande vontade de construir alternativas».

«As revoluções não são apenas uma festa, isso sabemos desde o dia em que esta começou» e, por isso, «o 25 de Abril anda por aí», escreve Viriato Teles na Conclusão com que encerra as conversas. Haverá saudades? Certamente. Mas que sejam «saudades saudáveis, não nostálgicas ou melancólicas. Saudades que animam a luta pelo futuro», como as saudades assim descritas por Vasco Gonçalves. A prova desse ânimo está em nós, foi uma conquista de Abril, que este livro, em boa hora, volta a despertar. A prova está na resposta à provocação activa de Viriato Teles: «E se amanhã tivesses que dar a voz a outro 25 de Abril?». O jornalista e realizador Luís Filipe Costa responde, e na sua resposta reconhece-se a do imenso colectivo: «Ia já, a correr! (…) Desta vez não precisava nem de um minuto (…) desta vez, não vamos levar tanto tempo a acordar.».

Contas à Vida – Histórias do tempo que passa, Viriato Teles; Editora SeteCaminhos, Lisboa, Julho 2005

© Teresa Sá Couto
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Ver texto sobre o recente As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso e outros textos sobre livros de Viriato Teles na Etiqueta correspondente.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A (re)Invenção do Dia Claro

Corria o mês de Novembro do ano de 1921 e “Olisipo” editava uma jóia literária do mestre Almada Negreiros: «A Invenção do Dia Claro». Maio de 2005 e “aquele dia” reapareceu tão claro como o original, num fac-símile pela mão da editora Assírio&Alvim. Desde então, o livro mantém-se em destaque nas prateleiras de muitas livrarias.

Nem uma palavra a mais é acrescentada nesta reedição. Nem é preciso. Tudo igual, da capa à contracapa. Até o papel sépia ostenta as manchas amarelecidas, e a imaginação urde o cheiro do tempo ao embrenhar-se no português falado nos anos vinte do século passado, nas palavras intemporalmente rebeldes.

Na capa, Almada esclarece ser esta uma Escripta de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, seguida das démarches para a Invenção e acompanhada das confidencias mais intimas e geraes. Claramente um manifesto, como o foi toda a atitude de vida de Almada espraiada numa profusa e eclética intervenção artística. Interpretar o mundo, moldar o tempo e desafiar o futuro foram as grandes marcas do autor, bem patentes no «A Invenção do Dia Claro».
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A abrir, um retrato «do autor por elle-proprio», destacando-se-lhe o olhar visionário. Dedicado ao amigo Fernando Amado, Almada confessa: «Eu queria que os outros dissessem de mim: olha um homem! Como se diz : Olha o cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: UM homem!».

Na primeira parte «Andaimes e Vésperas», entre vários pensamentos curtos e certeiros, na conta certa que alveja o leitor, Almada discorre uma «Conferência Improvisada» acerca do homem e da mulher: «Minhas senhoras e meus senhores: Mulheres e homens são as duas metades da humanidade – a metade masculina e a metade feminina. (…) A linha que passa por entre estas duas metades é parecidíssima com o ar por dentro de uma esponja do mar, seca.».

Três pensamentos depois deste, a sua viagem intelectual fá-lo aportar ao cais das palavras dizendo sobre elas: «O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas. As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um.». As palavras são os barcos que o levam a todos os lugares, porque cada palavra «é um pedaço do universo». Com as palavras todas juntas, Almada destece-se tecendo o seu universo.

Em «Ensaios para a iniciação de portuguezes na revelação da pintura», ensina-nos sobre o desenho de uma flor:

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n´uma direcção, outras n´outras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A creança quis tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lápis já era demais. Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessoas:

Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de
uma flor!

Comtudo, a palavra flor andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas com que se faz uma flor, e a creança pôz no papel algumas d´essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus logares, mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flor.

A par das artes plásticas, as palavras sempre foram um porto seguro donde “partia sempre depois de chegar”, e sempre inteiro. E inteiro é com meiguice e truculência, idealismo e pragmatismo, iluminação e opacidade, sofrimento e gáudio, cólera e humor refinado ou ironia contagiante. Ou, ainda, Almada inigualável.


A Invenção do Dia Claro, José de Almada Negreiros, Assírio &Alvim (edição fac-similada da de 1921); Lisboa, Maio de 2005


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de março de 2010

Contagem Bang!

Eis o regresso da revista de literatura e fantástico, a Bang!  número 7.
Tempo da contagem decrescente para a apresentação.
Imperdíveis, o evento e a revista, podendo esta ser adquirida na página online da Saída de Emergência.


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segunda-feira, 15 de março de 2010

Uma questão de gatos

«Ser ou não Ser um Gato é uma questão» e aqui a questão é artística. Refiro-me ao pequeno livro Só à noite os gatos são pardos que reúne 43 autores à volta da temática destes animais, com textos inéditos de poesia e prosa. A organização cabe a Jorge Velhote e Patrícia Pereira para uma edição Cantinho do Tareco - Associação de Protecção Animal.

As palavras contidas nas 73 mágicas páginas são semafóricas, sorrateiras, matreiras, ronronantes, acudindo à matéria felina que edificam. São retratos humanos dos gatos, entenda-se, sendo este entendimento a consciência do carácter esquivo e insubmisso do gato, ser «livre, invisível e alado, capaz de estar vivo e ainda assim não deixar rasto», como escreve Sara Canelhas no belo Prefácio.

Nos processos de construção da palavra estão a memória, a fantasia, a cumplicidade, o testemunho, e sempre a ideia do animal como um enigma fascinante. Na janela com escritos / o gato espera, escreve António Barbedo no poema minimalista; e sorrimos assentindo, porquanto escrever os gatos será sempre tarefa inacabada.
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As ilustrações de Ricardo Ayres – que podem parecer discretas, todavia são marcantes - intentam fixar momentos expressivos dos gatos, no seu quotidiano; o propositado movimento do traço sugere-nos o desdém dos animais por qualquer tentativa de o agrilhoar numa imagem.

Assinam os textos: A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

Transcrevo dois poemas, numa escolha difícil:


Os gatos da minha mãe

Os gatos da minha mãe caminham
sobre as margens das coisas simples.
Não vão à praia. Sinalizam
a preguiça invadindo silenciosos
o regaço das visitas. E escutam,
privilegiados, obscuras conversas
sobre desnecessidades ou
invasivas devassas alheias.
Olham soberanos o nosso
olhar onde passam
obrigatórios como sombras
ou luz – e quando regressam
com passinhos de veludo
dos seus desvairados lugares
traduzindo a nossa ignorância
instauram a evidência, o conhecimento
fortuito, os limites imputáveis
à ternura com que, sedosos
e felinos, se deixam afagar.

Apenas não arborescem.

Jorge Velhote, p. 37


O gato que me fugiu

Era um gato fininho
como os gatos egípcios
e tão altivo
que diria ter sangue
de Nefertiti,
e tão dourado
que parecia a imagem de Bastet,
a deusa-gata.
Entrou-me pelo sonho sem ruído
e passeou por mim
sem fazer caso algum
do meu espaço.
Às vezes ronronava,
roçando-se,
e pedia comida e não comia.
Quem sabe fosse
um gato intemporal,
espírito do Delta,
orgulho e porte esquivo
que não se alimentava
senão dos grous em
poemas do Antigo Egipto.
O certo é que deixei de vê-lo
e, quando despertei,
soube que não havia hipótese
de ele voltar
por causa do ladrar dos cães.
E assim este poema
tornou-se em elegia para o gato
que não terei
e a que já tinha posto
até um belo nome. Faraó.

Nuno Dempster, p.p. 50,51


notas:
agradeço ao poeta Jorge Velhote a generosidade pelo envio deste livro.

Na sequência dos muitos pedidos de esclarecimento sobre como se adquirir este livro: pelo endereço cantinhodotareco@gmail.com. O valor unitário é de 7,50 €

quarta-feira, 10 de março de 2010

Livro das Quedas

Dois meses após ter feito o pagamento do Livro das Quedas à Wook, eis que o exemplar me chega a casa. No sítio da Wook, empresa de compras online de livros, propriedade do Grupo Porto Editora, lê-se que «normalmente segue pelo correio em 10 dias», como se constata clicando na ligação.

Nos dois meses de anomalia, fui brindada com comunicações semanais a darem-me conta da dificuldade de obtenção do exemplar e asserções a descartar toda a responsabilidade, remetida, esta, para a editora (a Roma Editora) que tem a chancela do título. Nem tudo está bem quando acaba bem: sumiu-se-me qualquer vontade de voltar à Wook.

Noto que a encomenda deste livro surgiu na altura em que atentei mais apuradamente em várias obras de Casimiro de Brito, para elaborar o meu texto crítico sobre o recente En La Vía del Maestro - Un viaje con Laozi , texto que foi editado no sítio da Orgia Literária em 01 de Fevereiro último.

Do Livro das Quedas, transcrevo dois poemas:


Se não existe o que vejo,
se a música nocturna é uma mentira
composta pela exaltação dos meus sentidos,
bom será
que eu veja de novo,
obsessivamente,
a gota de suor, a mancha no espelho, o sorriso
dos livros fechados
ou deixe de ver, ouvir, amar
de uma vez por todas. Se Deus está cego
e nada sabe da usura
é natural que eu escreva melhor
às escuras. (p.47)

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Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras. (p.146)



terça-feira, 9 de março de 2010

Policial de Fernando Pessoa

Para ir. Impreterivelmente.


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quinta-feira, 4 de março de 2010

Ciclo de Cinema Modernista

Em resposta a inúmeros pedidos, eis a informação sobre o Ciclo de Cinema Modernista incluído no Ciclo de Conferências Modernismos, Futurismos, Sensacionismo & Pós, a decorrer na cidade de Almada.


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