domingo, 28 de novembro de 2010

Novo livro de poesia de Ondjaki

Dois livros num só: Acto Sanguíneo e Dentro de mim faz Sul: o iniciático – escritas do fim da adolescência, editado há dez anos – e o mais recente livro de poesia de Ondjaki. É uma «celebração», diz-nos o escritor angolano em nota introdutória, desse «mistério chamado poesia». São pedaços da existência, fragmentos de interioridade desenhados em palavras: o «ritmo do sangue», o afecto do chão, o canto das estrelas da infância, rituais de encantamento, cicios de perdas, saudades, ecos longínquos que a memória foi transfigurando também ao longo de dez anos.

«dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo /assim como sou /não me basta). Pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. Mas depois vi que isso seria uma redundância humana.», diz Ondjaki, no presente livro.
Com várias obras para crianças, contos, romances e um texto dramático, as razões da poesia (recordo que Ondjaki  publicou também há prendisajens com o xão, em  2002, e, no ano passado,  Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristeza – ver texto meu sobre este último título) poderão encontrar-se logo em Acto Sanguíneo : «regresso  porque me dói /a parte escondida da perna  //e peço, com a mão mais direita /para escrever em ti .//regresso  porque /acima de tudo /me quero experimentar.//a mim: sanguíneo. //o actor sanguíneo.» (p.125).

Poemas:
(dentro de mim faz sul)

que língua falam os pássaros

de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
- lento manancial de céus.

os pássaros
São mais sabedores. (p.17)

***
chove.
o mundo húmido, poético
ganha outra densidade
- longe do medo.

gosto de observar a chuva

a paz
nas suas vestes

a chuva é plena de instantes intocáveis

nós somos
simplesmente humanos. (p.49)
***
(acto sanguíneo)

há uma valsa lenta neste
baixinho barulhar.
um vermelho odor, qualquer coisa de baço
no olhar.
seios brancos, um soutien escondido
um par de óculos
uma doce morosidade.

há algo de erótico na casa da idade

um suspiro estalando no ar
ou uma valsa quente
no repouso de um lar. (p.104)


ver AQUI textos meus sobre obras de Ondjaki

domingo, 14 de novembro de 2010

Blade Runner, a obra de Ridley Scott

É uma experiência e peras viver com medo, não é? É o que significa ser escravo. - Blade Runner

Esta semana, no ciclo de Film noir. Como sempre, a ficha elaborada por José Xavier Ezequiel.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A épica de Gonçalo M. Tavares

Está nas livrarias Uma Viagem à India, o novíssimo romance de Gonçalo M. Tavares, com promessa de futuros brados.
É uma edição esmerada, de capa dura, branca, com sobrecapa encarnada destacando-se um símbolo gráfico: uma linha recta, vertical, que parte de um ponto, um centro, ou se dirige para ele, como a linha da vida humana do nascimento para a tomada do mundo ou do nascimento em direcção à morte. No interior, a viagem em 10 cantos, eco de Os Lusíadas, cada canto com pequenos textos numerados e dispostos nas páginas como se fossem estâncias; nas últimas páginas, Melancolia contemporânea (um itinerário) dá-nos, graficamente, caminhos daquela linha recta numa espécie de cartografia da existência. «O dispositivo é o de um poema provocantemente épico e anti-épico», escreve Eduardo Lourenço, no Prefácio.
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Bloom é o herói e anti-herói desta singularidade literária, marca iniludível do autor, e é o espelho onde, como é apanágio da escrita de Gonçalo M. Tavares, inquietantemente nos revemos. A ler, de um fôlego. Transcrevo uns extractos com a formatação que se encontra nas páginas:
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77
.Há uma fenda entre o mais alto
da cabeça do homem e o céu; e nas minas
onde se exploram as riquezas que caíram
é evidente um outro embaraço antigo: a desligação
entre os pés do homem
e o que existe lá em baixo: o centro da terra.
Mesquinha coisa que existe entre o céu e o centro,
eis o homem. (Canto III, p.144)

38
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O mundo é redondo, mas todos os lados são iguais.
Os homens têm fome e adversários,
e outros têm prestígio e amigos e, nesta divisão rude,
encontrarás semelhanças evidentes
com a velha Europa, a Ásia, as Américas,
África, e com todos os continentes onde existem
seres vivos. A vida é invenção de demónios:
deram-ta: deves defender-te, deves atacar
(percebes, Bloom?). Percebo, responde Bloom com a cabeça. (Canto VII, p.304)

41
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Ninguém se encosta a si próprio tão
intensamente como quando sofre ou como
quando entra num mercado de uma
das nossas grandes cidades. O comércio
é feito de uma linguagem inesgotável:
sobra de um lado, falta de outro. O consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio, vaidade, como queriam outro resultado? (Canto VII, p.305)
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Ver AQUI textos meus sobre obras do autor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

relâmpago dedicado a Cesariny

Já está disponível o número 26 da revista de poesia relâmpago, que é, nesta edição, dedicado a Mário Cesariny. O número chega no mês em que passam quatro anos da morte de Cesariny - a 26 de Novembro, com 83 anos. «Se se pudesse falar, nem que apenas simbolicamente, de revolução em poesia, Mário Cesariny seria, sem dúvida, um desses símbolos maiores de mudança, à semelhança de Cesário e de Pessoa, dois poetas aos quais, não sem motivo, a sua obra está ligada», escreve Gastão Cruz na nota editorial.

A belíssima edição contém fotografias a preto e branco e a cores de Cesariny, de trabalhos seus e de trabalhos inspirados na sua obra, em imagens que documentam uma época tingida pelo carisma do homem irreverente e polémico, fundador do surrealismo português, poeta considerado e pintor elogiado. «Para mim tudo é pintura», e é a pintura que melhor faz a «denúncia do desespero», disse o poeta-pintor sobre a sua forma de estar no mundo, forma essa que a relâmpago agora recupera e analisa com ensaios realizados por António Carlos Cortez, Fernando Azevedo, Fernando J. B. Martinho e Fernando Cabral Martins. Como Cesariny é, ainda e sempre, surpresa, a relâmpago dá-nos, em imagens, o original Pastor - Evangelho em 1 Prólogo e 3 Quadros.
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Cesariny tem a sua obra editada pela Assírio&Alvim, e dos inúmeros títulos destaco Uma Grande Razão - os poemas maiores, com 56 poemas, um artigo de José Manuel dos Santos, publicado no jornal O Público, aquando da morte do poeta, e uma entrevista de Maria Bochicchio a Cesariny, publicada no jornal Expresso. É deste livro que transcrevo o poema uma certa quantidade:

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
.
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
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Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
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E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
.
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro (p.p. 64,65)




domingo, 31 de outubro de 2010

"O Acossado", de Jean-Luc Godard

À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, abre o mês de Novembro no Film Noir. Eis a ficha do filme elaborada por José Xavier Ezequiel. E let´s look at the film!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Albano Martins: a cartografia da luz

(texto publicado no livro 80 Anos – Albano Martins e disponibilizado no sítio da Orgia Literária em 18 de Outubro de 2010)
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.Não, ninguém se conhece, até que o toca
a luz de uma alma irmã
                                            Miguel de Unamuno

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Falar de Albano Martins é nomear a luz. Uma luz verde, «casualmente azul», «às vezes amarela», «sobretudo vermelha», líquida, com «a cor dos miosótis e do sangue», a bordar um «coração de bússola» e a mapear a doação. Uma luz rutilante, exacta e concisa, irmanada com o nosso destino desde há 60 anos, nutrida de palavras, «Sentinelas de sal e de silêncio» a cantarem «A vida / – essa invenção magnífica / da morte».

«Meus versos / são encontros da sombra com a luz», escrevia o poeta no iniciático Secura Verde, os primeiros acordes de quem se propunha cumprir o «destino como qualquer fonte», com passos que fossem «os de qualquer bicho». Assim, «o verbo se fez cor, aurora, / boreal, multímodo / girassol», e o poeta fazia do seu nome uma canção, manifesto da transumância onde o sujeito lírico e o homem se aclaravam com «o mesmo nome», e o mesmo que nos chega até hoje, sabe-o quem conhece Albano Martins.
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«Eu fujo de novo como faz o cuco», escreveu Anacreonte. Longe da Estrela e da Gardunha, radicado à beira do Douro com vista para a invicta brumosa, Albano convoca a luz, enceta a «viagem das flores sem moldura», dá cor ao tempo branco, «o tempo das cerejas e das malvas», torna audível um melro que «canta a flor das giestas / e da cerejeira», esculpe os «dias enxutos», os «Anos plácidos, / fulvos (alourados, amarelo torrado)», cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos doridas e requiem aos «gestos perdidos / no espaço da memória»; é o apelo da «Rosa-dos-ventos» da infância, onde cabem todos os lugares e todas as direcções da palavra que solta o mel das «Lendárias e luminosas abelhas», desata a «Magnólia dos símbolos», a florida e «incandescente metáfora». Edifício vivo, o ontem é eternizado na «luminosa fábula» construída com fios secretos a ligar os tempos Passado, Presente e Futuro e a desnudar o centro, o «Centro do próprio centro», a «água compulsiva». E nesse centro está o amor, leitmotiv da poesia albaniana, como na formulação de Paul Éluard: «Por amar, criei tudo o que é: real e imaginário. / Dei razão de ser, dei forma, dei calor / Dei imortal função àquela que me é lâmpada e luz».

A criação exige trabalho árduo, e Albano mostra-nos que, para abranger, a palavra – que busca «a flor do cálcio / na / luz da madrepérola» – tem de sofrer, sendo a presença da sombra uma prova incomensurável da força vital desta poesia:

Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.

Em permanente busca interior, o amor Escrito a Vermelho tem, na obra albaniana, o «compromisso» largo e fulgente do destino humano, estabelecendo diálogo íntimo, directo e cristalino com o Homem:

Pertence-te
ser homem, afirmar
todos os dias que tens
um compromisso: ser claro
e brando como a luz
e, como ela,
necessário. E não deixar
crescer à tua porta
ervas daninhas.

É a bússola humanista de Albano Martins que brilha, total, em Rodomel Rododendro:

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

Sobre o lugar do poeta na humanidade e o mistério da escrita, responde-nos Albano, num comentário ao poema «Santo e Senha», de Miguel Torga, com outro mistério: o «lugar onde do poeta» é na terra de todos, mas na área da sombra onde tem «a solidão por habitáculo». O poeta não mata a sede, engana-a, diz-nos, porque «a sua sede é de infinito, de absoluto, e a esta não há fontes que a saciem, mesmo as do Sonho, por mais refrescantes que sejam».

Interrogar, desvelar o real e soltar a imaginação são a «senha» e o «Lugar» de inscrição de Albano Martins, forma de vida plena na palavra plena a dar-nos lições de coerência e de autenticidade que partilha connosco, seus leitores e cúmplices de jornada.

O lugar da palavra de Albano, sabe-o o poeta, é aquele em que a pele das palavras, das que ele libertou, encontra outra pele que passa a ser a sua casa: a pele do leitor: «Como a palavra, Só o dardo /conhece o alvo. Só o dardo / sabe o nome / da ferida. / O seu lugar».

Escreveu José Régio: «Eis como tudo se reduz a pouco: literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço». Assim vejo a poesia de Albano Martins: um hausto íntimo que atinge a universalidade e intemporalidade humanas; uma orquestração de palavras que depois de nos deixarem «todos os jardins da terra e do mar» nos incitam e ensinam a plantar «uma flor no vazio».

«Ao amigo e ao companheiro fiel nunca traí, / nem há na minha alma nada de servil», escreveu Teógnis, traduziu-o Albano Martins, lemo-lo como efígie deste homem poeta, tradutor de poetas, farol que nos guia na nossa inevitável condição crepuscular e dote nosso de língua lusa.


Nota: este texto foi editado no livro 80 Anos – Albano Martins, pp. 315 a 319, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2010, no ensejo das celebrações do aniversário do poeta (a 24 de Julho) e 60 anos de vida literária em 6 de Agosto de 2010.


*ler outros textos meus sobre Albano Martins na etiqueta correspondente.

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Juan Rulfo ou o assombro literário

Dois nomes de culto: Juan Rulfo e Pedro Páramo, o mágico e a «carpintaria secreta» reveladora de «insólita sabedoria», o escritor e a novela que o imortalizou. Gabriel García Márquez considerou a escrita do escritor mexicano sua matriz literária. Leitores dos quatro cantos do mundo consideram Pedro Páramo uma das maiores obras de sempre da literatura universal; também eu me inscrevo nessa multidão.
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Publicada em 1955, Pedro Páramo daria a Juan Rulfo (1918-1986) o Prémio Príncipe das Astúrias, de Espanha, quatro anos antes do seu falecimento. Muito se escreveu sobre esta novela, e muito, creio, ainda se escreverá, porquanto ela nunca se acaba. É pejada de vozes, vozes fundas da terra difundidas pelas personagens, que as fazem suas, e que através delas se buscam.
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Juan Rulfo escreveu pouco mais que essa novela e essa lhe bastaria para o nosso redondo assombro. É esse pouco que é tanto que nos acaba de chegar no tomo de 366 páginas: Juan Rulfo, Obra Reunida, pela Cavalo de Ferro, com o prefácio Breves nostalgias sobre Ruan Rulfo, por Gabriel García Márquez, tradução de Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. Junto com Pedro Páramo, estão o llano em chamas e o galo de ouro; assim, três portentos literários, três viagens ao inefável, e ao indizível depois de Juan Rulfo.

Extractos:
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«Dormi entre interrupções.
Numa dessas interrupções, ouvi o grito. Era um grito arrastado como o alarido de um bêbado: "Ai vida, não me mereces!"
Pus-me de pé rapidamente porque quase o ouvi aos meus ouvidos; podia ter sido na rua; mas eu ouvi-o aqui, colado às paredes do meu quarto. Ao acordar, tudo estava em silêncio; apenas o cair do pó e o rumor do silêncio.
Não, não era possível calcular a profundidade do silêncio que aquele grito produziu. Como se a Terra se tivesse esvaziado de todo o ar. Nenhum som; nem o da respiração, nem o do bater do coração; como se o próprio ruído da consciência se tivesse interrompido. E quando a interrupção terminou e voltei a acalmar-me, o grito regressou e continuou a ouvir-se durante um longo momento: "Deixem-me ainda que seja apenas o direito de empurrar a cadeira do enforcado!"».
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Pedro Páramo, p.48
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***
«Cai uma gota de água, grande, gorda, fazendo um buraco na terra e deixando um empate como de uma cuspidela. Cai sozinha. Nós esperamos que continuem a cair mais. Não chove. Agora, se olharmos para o céu, vê-se a nuvem aguaceira correndo para bem longe, cheia de pressa. O vento que vem da aldeia arrima-se-lhe empurrando-a contra as sombras azuis cerros. E a gota caída por engano é comida pela terra, que a faz desaparecer na sua sede.
Quem diabo terá feito esta planície tão grande? Para que é que serve, hã?
Voltámos a caminhar. Tínhamos parado para ver chover. Não choveu. Agora voltamos a caminhar. E a mim vem-me à cabeça que já caminhámos mais do que aquilo que andámos.»
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O Llano em Chamas, p.146
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***
«Passaram os dias. Dionisio Pinzón vivia unicamente preocupado com o seu galo, que enchia de cuidados. Levava-lhe água e comida. Metia-lhe migalhas de tortilha e folhas de alfafa dentro do bico, esforçando-se por fazê-lo comer. Mas o animal não tinha fome nem sede, parecia ter apenas vontade de morrer; embora ele ali estivesse para o impedir, vigiando-o constantemente, sem descolar os seus olhos dos olhos semi-adormecidos do galo enterrado.
Contudo, uma manhã, deparou-se com a novidade de que o galo já não abria os olhos e tinha o pescoço torcido, caído sob o seu próprio peso. Colocou rapidamente um caixote sobre a cova e pôs-se a bater-lhe com uma pedra durante horas e horas.
Quando, por fim, tirou o caixote, o galo olhava-o aturdido e pelo bico entreaberto entrava e saía o ar da ressurreição. Aproximou dele a tigela da água e o galo bebeu; deu-lhe de comer massa de milho e este engoliu-a, em seguida.
Poucas horas depois, pastoreava o seu galo pelo terreiro do curral. Aquele galo dourado ainda cinzento de terra que, apesar de se alquebrar a cada instante por lhe faltar o apoio da sua asa partida, dava mostras da sua fina condição, erguendo-se cheio de coragem perante a vida.».
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.O Galo de Ouro, p.p.310,311

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domingo, 17 de outubro de 2010

Luís Norberto Lourenço na tertúlia da História

O historiador e professor albicastrense Luís Norberto Lourenço acaba de lançar o livro Auto de arrolamento dos bens existentes na egreja matriz da freguesia de Penamacor, concelho do mesmo, distrito de Castello Branco, realisado no dia 6 de Julho de 1911 (Ver aqui). Segundo informações do próprio autor, a quem agradeço, o título terá distribuição gratuita: serão entregues 11 exemplares à Biblioteca Nacional (BN), um à Torre do Tombo, um a cada Arquivo Distrital, distribuídos pelas bibliotecas , por alguns arquivos municipais e em várias apresentações públicas pelo país.
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Para muitos, Luís Norberto Lourenço dispensa apresentações, pois tem vindo, há cerca de uma década, a aplicar o conceito de terlúlia com envolvência cultural ímpar, e com o nome exacto de Casa Comum Das Tertúlias; o segredo estará na dedicação e tenacidade que corporizam um trabalho sólido estendido por apresentação de livros, declamação de poesia,  organização de tertúlias, organização de exposições (cerâmica, desenho, escultura, fotografia, pintura), concertos, visitas culturais, feiras do livro, revistas e fanzines e versátil actividade editorial.
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Entre iniciativas de sucesso, a casa tertuliana de Castelo Branco ganhou asas e fôlego, pelo que o seu roteiro contempla já Cidade Rodrigo, Mangualde, Marvão, Nisa, Penamacor, Portalegre, Porto, Proença-a-Nova, Sátão, Vila Nova de Paiva, Vila Velha de Ródão, Salamanca, Seia, Setúbal. Ver aqui o resumo das actividades da Casa Comum das Tertúlias, e facilmente se conclui ser este um local que é obrigatório acompanhar.

sábado, 11 de setembro de 2010

Os «102 Minutos» do centro do Horror

Nove anos depois do terrível 11 de Setembro, recupero um texto que produzi em 2005 sobre um livro que reconstrói, minuto a minuto, o ataque às Torres Gémeas do World Trade Center – desde o embate do primeiro avião contra a primeira torre, às 8h46, até à queda da segunda torre, às 10h28.

Mostrar o interior, do exterior que todos presenciámos na televisão, é a grande novidade do 102 minutos; os autores, dois repórteres do jornal New York Times, Jim Dwyer e Kevin Flynn, colheram testemunhos de sobreviventes da catástrofe, pesquisaram centenas de entrevistas e transcrições de comunicações via rádio e telefone para que fosse recriado, o mais fidedignamente possível, o ambiente vivido no interior dos dois edifícios.
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Este 102 Minutos, com o subtítulo A história desconhecida da luta pela sobrevivência no interior das Torres Gémeas, contém, logo a abrir, uma lista de «352 pessoas no World Trade Center» – funcionários, visitantes, elementos da Administração Portuária, bombeiros, polícias, entre outros, envolvidos na catástrofe; segue-se uma «Nota dos Autores» datada de Setembro de 2004; um Prólogo – a abrir com a primeira pessoa a chegar ao escritório no 89º andar, na Torre Norte, às 8h30, uma mulher sobrevivente e que foi entrevistada pelos autores no ano de 2003; o corpus da narrativa da tragédia em 14 capítulos, com o 1º capítulo a iniciar-se às 8h46, na Torre Norte, e o 14º a finalizar ao 102º minutos; um Epílogo – o Nível Zero às 11h00; uma Lista de 126 pessoas que, de entre os 2.749 mortos, estão mencionadas no livro; Notas e Agradecimentos.
No decurso da exposição são apresentadas diversas gravuras representando o espaço exterior das torres, e estrutura interior, além de esquemas dos embates dos aviões, todos documentos explicativos que foram editados no New York Times.
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É também feita a história desde a concepção e construção das torres, as polémicas e os riscos anteriores ao fatídico 11 de Setembro. As consequências de um choque de um avião contra uma das torres tinham sido encaradas pelos que se opunham à sua construção de tal forma que esses opositores publicaram um anúncio no New York Times com a visão sinistra de um avião a embater na fachada norte da torre norte. A Administração Portuária, proprietária dos edifícios, respondeu que «os cálculos dos seus engenheiros e as simulações em computador demonstravam que o embate de um avião provocaria estragos em sete andares, mas o edifício permaneceria de pé.». No dia 7 de Novembro de 1982 as entidades oficiais “provocaram um desastre” numa das torres, a que responderam os Corpos de Policia e Bombeiros, bem como de Serviços de Emergência Médica e Administração Portuária. Tudo isto suscitado pela eminência de um acidente ocorrido no ano anterior: «um avião de carreira argentino, por problemas de comunicação com os controladores de tráfego estivera a noventa segundos de chocar com a torre norte, sem envolvimento de terroristas». Fala-se no atentado de 1993 e no alerta de Guy Tozzoli, Director reformado do World Trade Center, feito numa audiência com a assembleia legislativa, «que a cidade deveria preparar-se para uma catástrofe do género. Porém, ninguém lhe deu ouvidos» e, mesmo com a nova administração Giuliani, não foram feitos exercícios que envolvessem entidades conjuntas no edifício. As lutas intestinas, de ordem financeira, entre a Câmara e a Administração Portuária inviabilizavam acções concertadas.
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A falta de comunicação entre entidades atingiu o ponto bizarro no 11 de Setembro: «Pelas 9h15, cerca de meia hora depois do embate do primeiro avião» perguntava-se ao chefe de bombeiros, sobre o plano de execução dos helicópteros; porém, «embora o município tivesse adquirido rádios para possibilitar a comunicação entre bombeiros e policias, os responsáveis dos dois organismos não conseguiram pôr-se de acordo quanto à escolha da frequência. Portanto nunca puseram os rádios em uso».
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Enquanto isso, cerca de mil pessoas que sobreviveram ao embate do Voo 11, esperam no cimo da torre norte, por não terem encontrado uma saída desobstruída. «O destino daquela gente fora traçado quatro décadas antes, quando as escadas foram agrupadas no centro do edifício», e eliminadas as de serviço por terem sido consideradas um desperdício. Noutro lado a entrega à morte parece surgir como libertação : Kely viu as chamas avançar pelo poço do elevador. «Pensou inalar profundamente o fumo, matar-se antes das chamas o alcançarem»; «a necessidade de respirar era tão premente que as pessoas empilhavam-se às janelas», outras mergulhavam no vazio para fugirem «de um inferno de combustível a arder (…) não tinham de abrir caminho por entre as chamas».
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102 Minutos, Jim Dwyer e Kevin Flynn; tradução de Saul Barata; Editorial Presença, Lisboa, Setembro de 2005
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© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O desejo das palavras de Leonard Cohen

Confessional, intimista, espiritual, lúcido, irónico, Leonard Cohen apresenta-se-nos em Livro do Desejo - Book of Longing, no original - com letras arrebatadoras, reconstrói memórias, detém-se em sonhos e perdas, observa a passagem do tempo no corpo e na alma, interpreta o mundo, dialoga com a vida. São poemas e textos em prosa, ilustrados com desenhos do próprio Cohen, feitos durante os vinte anos que esteve sem publicar, um «Atraso» dito assim: «Consigo aguentar bastante; não falo /enquanto as águas não transbordarem das margens /e rebentarem a represa. //Daí ter sido capaz de atrasar este livro bem para lá/do final do século XX.».
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(clicar na imagem para aumentar)
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Publicado entre nós em 2008, com justas honras mediáticas, o Livro do Desejo é uma edição bilingue, tem a chancela das extintas edições Quasi e tradução de Vasco Gato. A obra foi base do espectáculo A Song Cycle Based on the Poetry and Images of Leonard Cohen, de Philip Glass, e alguns dos poemas foram adaptados a canções. Agora, no seu regresso a Lisboa (a 10 de Setembro), este título recorda-nos que o canadiano nascido em 1934 antes de ser cantor foi poeta - com o primeiro livro de poemas, Let Us Compara Mythologies, em 1956, a que se seguiram doze livros, entre os quais dois romances - e é, indubitavelmente, essa corrente primeira a geratriz da magia que recebemos ao ouvir as canções de Leonard Cohen.
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quatro poemas:
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Corpo de Solidão
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Ela entrou no meu pé com o pé dela
e entrou na minha cintura com a neve dela.
Entrou no meu coração a dizer,
"Sim, é isso mesmo."
E foi assim que o Corpo de Solidão
se viu coberto por fora,
e por dentro se viu
o Corpo de Solidão abraçado.
Agora sempre que tento inspirar
ela segreda à minha falta de ar,
"Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo." (p.40)
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***
Gravidade

Nunca tentei ver o teu rosto,
Nem sequer quis conhecer
Os pormenores de um lugar inferior
Para onde teria de ir.
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Porém o amor é forte como a gravidade,
E toda a gente tem de cair.
Ao início é da macieira,
E depois do muro ocidental.
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Ao início é da macieira,
E depois do muro ocidental.
E depois de ti e depois de mim
E depois de um e de todos. (p.212)
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***
Metade do Mundo

Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade. (p. 226)
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***
A inundação
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A inundação está a acumular-se
Em breve mover-se-á
Sobre todos os vales
Contra todos os telhados
O corpo afogar-se-á
E a alma libertar-se-á
Anoto tudo isto
Mas não tenho prova alguma  (p.229)