sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Helder Moura Pereira: o peso das coisas

Desencanto, rebelião, melancolia, ironia são substantivos que nomeiam o Se as coisas não fossem o que são, último livro de Helder Moura Pereira , agora Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011. O livro tem a chancela da Assírio &Alvim, editora que há já vários anos vem a editar o autor.

Voz poderosa da actual poesia portuguesa, Helder Moura Pereira traz-nos um livro de maturidade poética ancorada nas temáticas e nos processos que desde sempre lhe conhecemos: o poema faz eco da fragmentação dos dias e do sujeito poético, das ruínas, da «vida rasgada», descreve a «lareira apagada» (assim referido no A tua cara não me é estranha, livro de 2003), estabelece um diálogo vivo e eufórico com as coisas da vida e com a poesia, que é uma razão da vida. Se a palavra é a «amarga expressão de castigos, perdões, sorrisos» (em Segredos do reino animal, livro de 2007), em Se as coisas não fossem o que são, o sujeito poético assume que chegou «à chamada encruzilhada, /esse ponto em que só há caminhos /que não fazem parte do mapa.». Sábio, o poema mapeia aquela encruzilhada, a palavra remexe na terra molhada da memória - os «cérebros meus» enunciados no Lágrima, livro de 2002 -, perscruta a época em que havia esperança para dar conta do poder corrosivo do tempo sobre os sonhos, os desejos, os alentos, constatando-se, dramaticamente, que o antes passa de melodia a martelo que massacra a «alma estarrecida» do sujeito poético. Concomitantemente, a ironia acentua a decadência do sujeito poético e é um grito de revolta contra «a experiência do peso das coisas» que «rói o nosso último sinal carnal» (em Um Raio de Sol, livro de 2000).

«Vou escrevendo sem saber fazer de mim /um elemento», lê-se neste Se as coisas não fossem o que são, implicando o facto de o poema repetir o dia incerto do sujeito à deriva; será a «dor/ criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível», conforme enunciado em Lágrima; tratar-se-á, ainda, e sobretudo, de «procurar na vida a dignidade do verso», tarefa que Helder Moura Pereira cumpre distintamente.

Dois extractos e um poema integral do Se as coisas não fossem o que são:

[…]
Pode ser tão triste o poeta sorridente.
Quando nos lê pautas de música
que tira dos bolsos. Escreve
pautas de música sem saber música.
E no meio de todo o silêncio
a tua cara afastada. Ainda se fosse
só a cara. Não há meio de me voltares
a dar corda. E eu não consigo revoltar-me
contra o meu coração ditador. Sempre
que me manda sofrer, eu obedeço. (p.p.17, 18)


***
[…]
Pense-se no instinto. Depois é só torcer a lógica
da direcção. É essa a atracção do meu amor.
Nunca perceberia nada. Da tua boca nunca ouvi
nada igual ou parecido. Isto era o que eu diria
ao meu amor se as coisas não fossem o que são.
Não era dia para grandes emoções e todavia o coração
é que sabia para que servia aquele dia. Sabia, logo
me dizia. Só eu o sentia, e tinha medo que alguém
me visse a sentir. Pensava que não era dia
para grandes emoções, mas era, dizia-me o coração.
Como já conheço este coração, sentei-me e fiquei
à espera, passei o dia num banco de jardim. (p.p.19,20)

***
assaltou-me a dúvida. Dei
o que tinha, que remédio, a dúvida
apontava-me uma pistola, que podia
ser de carnaval, mas também
podia não ser. E aí está
como a dúvida me levou
tudo. Socorri-me do amor, pedi
que me defendesse, mas o amor
fez orelhas moucas, o mais
que consegui foi que me deitasse
sortes, sortes que disseram
para eu contrariar a dúvida
com outra dúvida maior.
Doesse a quem doesse,
Furiosamente escrevi resmas
E resmas de papel, baptizei
A minha nova dúvida de verdade
(muito conveniente), e fiz
O pino, trocei de mim, fiz pouco
das outras verdades que fui
encontrando nos livros
à medida que quis conhecer
o conteúdo exacto de todas
as religiões e depois, com seca
frieza e decisão, abracei-me
à dúvida por uma ribanceira. (p.p.85,86)



© Teresa Sá Couto

domingo, 18 de dezembro de 2011

Três novidades da Assírio

Feitos com a sobriedade, a beleza, o esmero e a qualidade que a Assírio&Alvim há muito nos habituou, estão no mercado três novidades imprescindíveis, em poesia de língua portuguesa: Caminharei Pelo Vale Da Sombra, de José Agostinho Baptista, Tentativa e Erro - poemas escolhidos e inéditos, de José Alberto Oliveira e Como Se Desenha Uma Casa, de Manuel António Pina.

Com palavra mágica e intimista, como é seu apanágio, José Agostinho Baptista apresenta-nos, neste seu poema longo, mais um «mergulho nessa miragem de abismos» que é a alma humana, com um sujeito poético viajante por brumas, segredos de mar e alarmes de memórias.
Por sua vez, a saudada antologia Tentativa E Erro é um torvelinho poético, de palavra desassombrada, robusta, crua, inquiridora, que reúne poemas de cinco dos seis livros de José Alberto Oliveira, e alguns poemas inéditos.
Por fim, Como se Desenha uma Casa, de Manuel António Pina, é mais um fulgor poético do Prémio Camões 2011, com a palavra em busca de ruínas para, com a luz mais-que-perfeita das recordações, as reerguer.
Deixo três breves textos:


este não é o lugar onde pairam as aves, este lugar
mata.
E tu,
que te deitas junto ao regato onde vêm beber os lobos
que amas,
e entre eles pareces cantar,
humildemente,
tépida como junho numa tarde de asas,
depõe à altura da fronte um círio e uma grinalda,
e murmura:
eu sou aquela que não tem endereço.
Só me há-de encontrar quem eu queira.
Moro no interior de um grito.
O meu quarto é branco.
Lá fora,
os meus passos não se ouvem.
Só eles, os que vagueiam, me conhecem.

José Agostinho Baptista, Caminharei Pelo Vale Da Sombra, Assírio&Alvim, p.106

***
Plágio

Deixa-me descansar
a cabeça
no teu peito
que conforta;
passa a tua mão fria
pela minha cara,
alivia a febre
que foi a minha vida:

que nos teus olhos
reconheça
a amante prometida,
desde o primeiro desgosto.

José Alberto Oliveira, Tentativa e Erro, Assírio&Alvim, p.163

***
Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.

A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de tudo
o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.

Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio&Alvim, p.30

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O amor é para os parvos , de Manuel Jorge Marmelo

Confessar ao amor tudo o que o amor tem direito depois dele ter partido é ter uma experiência pungente. Porém, só quando o amor alui é possível enfrentá-lo, dissecá-lo, estudá-lo, ajustar contas com ele; depois do amor, sabe-se que «O amor é aquilo: caminhar às cegas no arame estendido sobre o precipício».

Estancado o amor, o tempo é de aridez, mas também de conhecimento. Manuel Jorge Marmelo apresenta-nos essa reflexão num livro de coragem e mestria narrativa. Uma ficção que mostra a verdade daquele laço complexo que ata o ser humano à loucura, ao vazio da alma. Um livro com o leitor dentro dele, a reflectir em uníssono com o narrador e a dar aquiescência à conclusão – menos prosaica do que parece –, que lhe cede o título: O Amor é para os parvos. E todos o somos, pois é consequência de vivermos e amarmos.

O Amor é para os parvos foi editado no ano de 2000, pela extinta Campo das Letras, e é agora reeditado pela Quetzal, numa altura em que o autor lança, também, pela mesma editora, o novíssimo e arrebatador Uma Mentira Mil Vezes Repetida.

Em O amor é para os parvos, Manuel Jorge Marmelo confirmando-nos os seus dotes de ficcionista, e de pintor de almas, com palavras. Depois do amor perdido, em solidão, o narrador enceta uma viagem ao passado através de um longo monólogo ou um falso diálogo (e falso monólogo) dirigido à amada que partiu deixando-lhe uma fotografia desbotada em cima do seu lugar vazio na almofada da cama de ambos. Falso diálogo, porque o Tu, elemento central da acção, dela se encontra ausente; falso monólogo, porque a expressão escrita adquire tom narrativo e descritivo, criando a vivacidade do diálogo, mais propícia à expressão de sentimentos que se pretendem descritos em cima da hora e em presença da amada. Partindo da questão que dá forma a toda a narrativa  - Lembras? -, entrelaçam-se-lhe muitas outras questões num apelo constante à amada e ao entendimento de um amor perdido: Porquê?, Para quê?, Não percebes?, Entendes?, E tu?..., enformando o estilo coloquial que confere vibração à leitura, e para a qual concorrem outras técnicas, como a do narrador recuperar com as palavras os momentos da paixão que as dispensou, por bastar-lhe o «idioma topográfico da epiderme transpirada»:
«Dois corpos. Dois corpos não carecem de mais do que da fugidia linguagem dos sussurros, dos beijos que eriçam a pele, dos arquejos que preparam a doce deflagração de um amplexo», lê-se. Porém,o sujeito só sabe que o preço da entrega foi elevado, quando se despenha. Na solidão fria surgem as perguntas, as dúvidas, as contradições do amor: «mas o amor limita-se à conjugação de dois substantivos?».

A reflexão espraia-se pelas etapas e formas da consciência do amor que parece não se bastar à carne evanescente e, depois de duas bocas «estarem demasiado próximas para que qualquer vocábulo possa ser dito», importará mais: «não era já esse o amor que eu queria para nós. Havia de ser um amor pleno, de corpo presente, e, para tal, era preciso que visses tudo o que era essencial ver, que soubesses realmente quem eu sou e o que fica nos bastidores do meu recolhimento. Mostrei-te, por isso um poema. O poema que não achaste lindo e que te pôs no rosto um par de olhos escancarados.». O poema mostrava pedaços de alma, segredos. Falava, não sobre a ilusão do amor, mas sobre a vida real, sobre a morte: o apaziguamento do Eu que escolheu um local para se um dia se quisesse suicidar, um local bonito, onde a cidade desagua, onde a vida se liberta. Um segredo mal compreendido que lhe terá custado o amor? Também por esta vertente, o autor lança a reflexão que contrapõe o sublime do amor partilhado ao esvaziamento da vida corrente, e de que forma amor e vivência quotidiana podem coexistir.

As razões da memória

O timbre e o ritmo do destino seguem o tombo de todos os laços desfeitos; de trambolhão em trambolhão, vai-se desvelando a vida do narrador. A escrita resgata a memória da meninice, busca a identidade do sujeito  que é «todo coração.». Todavia, a memória da meninice é lisa, branca, um «mundo de leite, mas seco», um «absoluto nada» e reconstrói-se apenas pelo que o Eu ouviu contar. A repetição cadenciada dá o tom lancinante da frustração: «Apagou-se tudo. Tudo. Tenho tentado tanta vez recordar alguma coisa, mas não me lembro de nada. Nada.». A avalancha da memória deixa «sedimentos mais no sangue que na razão» e, às vezes, acorda de noite, «encharcado em suor, com um grito estrangulado na garganta, apavorado por um sonho que não sonhei, sem imagens, sem sons…um sonho vazio de tudo, excepto de pânico».
Filho de Alberto, pai que o abandonou em pequeno e mais tarde se suicidaria, e de Augusta, mulher demente que o tentou matar várias vezes – também ela crescera, como ele, «amputada desse membro invisível que é o amor de mãe» –, o narrador abre as janelas da sua «vida empoeirada», recupera os espectros do passado, e mostra-se à amada, incluindo-a, assim, na sua história de equívocos:
«Dou à memória uma razão para que exerça a sua condição de arquivo de existências, reconstituindo-te, recompondo-nos, voltando a colocar a cabeça em cima do teu corpo nu.».

A técnica de apelo a uma entidade ausente está também na convocação do leitor chamado a testemunhar o processo da escrita: «Está aí alguém? Nenhuma resposta. Silêncio, apenas. Não te vejo e, contudo, pressinto que estás aí….por isso escrevo. Escrevo e apago. Escrevo e apago. Escrevo e apago.». O leitor está presente e, atento, reflecte sobre se «O Amor é Para os Parvos»: basta imitar o narrador e questionar a própria memória: «Lembras?». As recordações virão em estrépito e as respostas serão, quiçá, demolidoras.

O Amor é para os Parvos, Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011


*outros textos meus sobre obras de Manuel Jorge Marmelo AQUI

© Teresa Sá Couto

sábado, 12 de novembro de 2011

Lançamento de O Espião Alemão em Goa

O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, com a chancela da Oficina do Livro, é lançado no próximo dia 21 de Novembro, pelas 18h30, na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11-A), em Lisboa. O General Ramalho Eanes fará a Apresentação.

Sobre a obra, que se trata de uma segunda edição, deixo extracto do texto introdutório escrito por José António Barreiros, a quem agradeço a pronta gentileza com que mo  disponibilizou:

«O que sucedeu após a escrita do primitivo manuscrito reforçou, entretanto, o meu lado supersticioso, ou melhor, aquela parte de mim que acredita nos sinais que a vida nos envia e nos símbolos que esses sinais consubstanciam.
Aconteceu que os factos que relato foram presenciados por um jovem indiano, que acabaria por vir estudar Direito para a então Metrópole e abriria escritório de Advogado na Rua Anchieta.
Já homem maduro bater-lhe-ia à porta, para que aceitasse ser o seu patrono, um jovem jurista que gostaria de ter sido juiz mas que a polícia política do anterior regime atirou para os braços da advocacia.
Esse jovem acabaria por passar os cinquenta anos de idade e escreveria este livro. Quando pensou em alguém que lhe desse a honra de apresentar a obra, numa singela cerimónia no Palácio Galveias, recordou-se daquele a quem devia o pedido de estágio como Advogado apenas porque o sabia oriundo da Índia.
Qual não foi a supresa quando, ao falar-lhe, soube por ele que lhe levava agora o relato escrito do que os seus olhos de menino haviam observado sem compreenderem.
Devo, pois, ao Dr. Xencora Babussó Camotim o privilégio desse encontro entre o que eu observei através da História e ele sentiu através da existência. O momento mágico desse cruzar de vivências fez vida naquela tarde soalheira e amigável».



*Ver dois textos meus sobre duas obras de José António Barreiros, AQUI

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Casa da Cultura José Marmelo e Silva

Há já meia dúzia de anos, num artigo sobre José Marmelo e Silva, rejubilava-me com a notícia do projecto de construção da Casa da Cultura José Marmelo e Silva, na freguesia do Paul, local de nascimento do enorme, inquieto, carismático, polémico, fundamental  e saudoso autor. Hoje, o projecto está finalmente concretizado e a inauguração marcada para o próximo dia 22 de Outubro. A nova casa, com mais de 200m2 e dois andares, compreende a biblioteca com zona de acesso à internet, sala de exposições, gabinete de reuniões e um espaço temático que recria o ambiente de trabalho do escritor que foi também professor e jornalista. É tempo de orgulho, de felicidade e de celebração das letras portuguesas.

(clicar na imagem para aumentar)

O evento insere-se nas celebrações do centenário de nascimento de José Marmelo e Silva 1911-1991), que se comemora este ano. No mesmo ensejo, foi publicado recentemente o livro O mágico pressentir do artista – entrevistas com José Marmelo e Silva, uma edição de Ernesto Rodrigues, com a chancela do CEJMS (Centro de Estudos José Marmelo e Silva).

O livro, cujo título resgata palavras do próprio José Marmelo e Silva, colige, em 144 páginas, as 21 entrevistas concedidas pelo autor a jornais e revistas entre 1943 e 1987. Trata-se de uma pequena pérola onde se esculpe a  «palavra do autor», «construtivo e desassombradamente moralista, enleado em aperfeiçoar o pormenor», como refere Ernesto Rodrigues, na Introdução; é, sobretudo, um livro imprescindível para a compreensão do homem  cuja obra se antecipou ao seu tempo, que em 1943, disse:

A Vida apresenta-se-me demasiado preciosa (ou demasiado exigente), para que eu possa consumi-la em proveito de certas camadas que pagam as coisas de Arte a um preço inferior ao das bebidas, e somente para excitarem os seus prazeres ou ostentarem as suas vaidades.  (p.p.15-16);

e que, defensor de uma educação humanista, declarou:

Instruir, formar operários, formar técnicos, não basta. Não basta produzir. Os objectivos da educação serão sempre, e acima de tudo, objectivos humanos em todas as dimensões. (p.59)

*Nota: agradeço o livro, aqui referenciado, à generosidade do poeta José Emílio-Nelson, filho de José Marmelo e Silva e seu incansável divulgador.

*página de José Marmelo e Silva, AQUI.

*textos meus sobre o autor, AQUI.

domingo, 9 de outubro de 2011

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Foi no dia 07 de Outubro, na repleta Biblioteca Municipal do Barreiro, o Colóquio sobre a obra de Joaquim Pessoa e a Apresentação do livro Ano Comum, com a chancela da Litexa. Na mesa, eu, Joaquim Pessoa, José Jorge Letria, Cristina Paixão e Carlos Mendes (na imagem, da esquerda para a direita). A surpresa abriu os trabalhos: na qualidade de Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria entregou uma placa de prata, galardão de homenagem às mais de três décadas de poesia de Joaquim Pessoa.
Ano Comum tem prefácio de Robert Simon e posfácio meu. É o posfácio que aqui edito. Futuramente, se o considerar pertinente, editarei aqui outros textos sobre a obra de Joaquim Pessoa, que têm vindo a ser (e outros ainda serão) pronunciados em diversas ocasiões, e todos eles complementares.

(fotografia de Dina Barco - clicar na imagem para aumentar)

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Perguntaste-me o que é que o crustáceo fia
entre as suas patas de ouro
e eu respondo-vos: O mar é que o sabe.

Pablo Neruda, Canto Geral (1)

Determo-nos em Ano Comum é irmos ao encontro dum projecto de modelação do humano em comprometimento com o mundo, projecto que Joaquim Pessoa urde há quase quarenta anos.
Tendo a escrita como forma de experiência do mundo e atrevimento sobre o mundo, a palavra de Joaquim Pessoa revela a consciência e a necessidade de atentar no real, motivando uma poesia de engendramento antropológico, social e político, num pacto solar e apolíneo com a vida, solidário e fraterno: «convoco a vida para a tua vida. Convoco a tua vida para a minha vida. E convoco as nossas vidas para todas as vidas que soubermos convocar.». É a palavra em busca de uma pátria que contrarie o «quintal cheio de melancolia e solidão» e as ruas da desesperança, sendo o coração a chave – «a grande pátria colectiva» –, pois «só o coração possui uma estratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo».

Marcadamente metapoética, a poesia do autor de O Pássaro no Espelho (livro de 1975) – o pássaro em situação especular, que se observa a si mesmo, a poesia que fala de si mesma e que a imagem invertida no espelho simboliza – acusa ter, em Ano Comum, a técnica e a razão dos pássaros: «o silêncio é para o pássaro como a jangada para o náufrago. Quer dizer sobrevivência. É também por isso que digo ter desenvolvido a técnica dos pássaros.».

No «coração vagabundo do livro» da vida, há que roer um substantivo, mastigá-lo devagar, «como o início de uma estrela» e levá-lo ao encontro do adjectivo para que juntos exprimam as tensões do voo. «Escrevo luz e escrevo limbo e escrevo lâmina», diz o sujeito poético do poema que pode ser «fósforo», «gato», «pedra», «enxame de sílabas», «céu de milénios», «sedução de pétalas», «dor das colinas», «medo do abismo», «faena», «alma do toiro», «sangue», «respiração», «braço», «ombro», «sexo», «dique», «barragem, «igreja», «voo», «instinto», «instante», «tempestade», «flauta», «nave», «cave», «cão, «pão», «chave», «solidão», «liberdade». O poema é, pois, a pulsão que liga o poeta ao mundo.

Também o drama da criação surge prodigamente, como os exemplos da metáfora da lampreia que dá o sangue em sacrifício ou o «osso, essa figura exemplar», assim referido em Peixe Náufrago (livro de 1985); um osso de cuco, fora do cuco, pode «redimensionar o universo», lê-se em Ano Comum; a palavra é o osso que o escritor arranca de si; o cuco marca o tempo; na literatura, essa marca é a memória. Na temporalidade constitutiva que é a memória encastoam-se a nostalgia e o pessimismo originando textos como este:

Havia um sonho. Havia uma
Esperança. Havia. Havia.
Mas o sonho também cansa
E a esperança está vazia.

Havia um sonho e uma esperança.
Pois havia.

Note-se que o pretérito imperfeito do verbo «Havia», no seu aspecto de duração, constata a desilusão, mas nega o fim da acção de sonhar. São perspicácias de uma poesia que denuncia, mas que se recusa a cantar a desistência humana, uma poesia com a consciência de que a dor mundializa o homem, que sabe que «Todos os invernos são um investimento no futuro», que celebra o contrato com a vida e tem na transformação e na mudança a «pequena glória» do poema: «Revogo o arrependimento e as lágrimas, estabeleço uma labareda no seu lugar».

Na transfiguração da ferida irrompe, muitas vezes, a ironia redentora, característica de sempre da escrita de Joaquim Pessoa: «Procurar uma nova terra no oceano, só mesmo em busca de um resort para descanso dos novos heróis do mar desta nação valente, deste nobre povo.».

Morada e mapa de um sentimento, a palavra encontra na temática do corpo um grito libertário. Diz Novalis que «O nosso corpo é uma parte do Mundo – um membro exprime já a autonomia, a analogia com o Todo – o conceito de microcosmo. Com o corpo modifico para mim o meu Mundo» (2). Em Ano Comum, surge-nos o cotovelo como uma jóia, porquanto é «um pé das ideias»: «nele me apoio para olhar dentro de mim»; os dedos são «cegos que procuram o amor, tacteando. Dez pretextos para procurar o sentido de todos os sentidos, rigorosamente, como a geometria do bailarino»; as mãos confundem-se com as palavras – «dou-te as palavras como dou as mãos» – na operacionalização do amor e da fraternidade, no desempenho do sangue com a objectividade «quase insolente» da sua cor a movimentar-se «para dentro da realidade». Declarando-se pertencer ao «signo do afecto» e «enamorado sempre da realidade», na aproximação ao «estar enlevado é uma forma de realidade», de Paul Eluard (3), o sujeito poético tem na sua cidade de sempre a sua cosmologia: «Em Lisboa estão os teus olhos e as minhas mãos. E abraçam-se»; «Falo desta cidade e uma gaivota abre em mim as suas asas, com vontade de partir e de ficar. É a saudade, dizem.». Será uma saudade em busca de uma cumplicidade logo encontrada em Cesário Verde, o cartógrafo solitário, com quem o sujeito poético partilha o amor pelos «ácidos, os gumes e os ângulos agudos.»; será a fome da vida e a necessidade de mapear essa sua condição.


«Viver é ter fome! A vida é fome: fome de alma e de pão! Fome negra!», escreveu Teixeira de Pascoaes (4). Num gesto de reinvenção desta herança, Joaquim Pessoa escreve, em Ano Comum, que a «fome é doce, límpida, comovida, como a cor da água-marinha». Em Poemas de Perfil (livro de 1975), em versos dedicados à classe operária, lê-se que «A fome é uma arma», sintetizada assim em Ano Comum: «Daremos luta.». Viver é, pois, ter «Fome de tudo», sendo este um tudo secreto, como «É secreta a conversa entre o fogo e a lenha», «a voz dos búzios, a saudade das andorinhas», a beleza, o espírito, o medo, a morte, a loucura, o acto de criar.

                                                     
Em Joaquim Pessoa, «tudo é matéria da poesia», porque as palavras dos poetas juntam-se a outras palavras para procurarem um caminho, e porque «o azul tem sempre a cor que nós quisermos.». Todavia, na obra do autor, há aqueloutro Tudo unificador, onde se reúnem todas as outras coisas: o Amor, «sempre o amor, sempre o soluçante líquido da vida», na formulação de Walt Whitman (5), o amor cujo mel «tem o esforço da abelha», e que, ávido, pede para ser construído todos os dias ou dito assim em Ano Comum: «Tenho sede quando te beijo. Quando não te beijo tenho sede.».

No processo de construção do humano há que contar com incursões biográficas nem sempre fáceis de destrinçar do fingimento poético, que revelam a busca e configuração de uma identidade – busca que acarreta necessariamente uma dimensão temporal que acciona os mecanismos da memória – e conferem pendor auto-reflexivo à poesia de Joaquim Pessoa. Se nos deparamos com a questionação da condição do homem em determinadas circunstâncias de tempo e lugar, é, sobretudo, de biografia interior que se trata, aquela que revela sentimentos de conquista, perda e a teimosia dos sonhos.

«Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher», diz-nos o eu numa sábia relação com o mundo empírico que o suporta para definir o seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que, aludindo à imortalidade dos escritores, se projecta na eternidade: a sua idade «é a mesma do lobo, do alce, da andorinha», que não conhecem o tempo, não conhecem a morte e por isso são imortais: «E não sei que idade tenho. Talvez sessenta anos. Talvez o tempo do amor. Ou o tempo que falta para salvar o amor.».


(1) Pablo Neruda, Canto Geral, tradução de Albano Martins, Porto, Campo das Letras, 1998, p.530
(2) Fragmentos de Novalis, selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes, Lisboa, Assírio&Alvim, 2000, p.67
(3) Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor, tradução de Maria Gabriela Llansol, Lisboa, Relógio D’Água, 2002, p.221
(4) Poesia de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Assírio&Alvim, p.347
(5) Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio&Alvim, Lisboa, 2011, p.119


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de agosto de 2011

Hariemuj


                               
É sempre o fascínio dos livros e da sua edição. Enquanto uns deixam cair as suas editoras, outros enchem-se de coragem e iniciam a teia. Hariemuj é uma pequena e novíssima editora dirigida pela escritora Maria Quintans e pelo advogado Vítor Marques da Cruz. Na direcção de arte, a dupla conta com o paginador, designer e Arte-Finalista João Mota. Ver a página Aqui.

.
O trabalho de equipa em prol da cultura não é novidade para Maria Quintans, que há muito nos habituou ao empenho e mérito dos seus gestos. Recordo que ela dirige, com João Concha e Ana Lacerda, a revista Inútil, projecto  experimental que une literatura, fotografia e ilustração. De periodicidade quadrimestral, e com três números temáticos  publicados até ao momento, a revista é um encontro de gerações de artistas, de estilos e sensibilidades diversas,  e tem dado visibilidade a novos autores, argumentos que lhe conferem um papel importante no débil e desapoiado panorama cultural português.


Em 2008, Maria Quintans publicou, pela Papiro, o pequeno grande livro de poesia Apoplexia da Ideia, que une as talentosas ilustrações de João Concha à sua escrita original, a um mesmo tempo delicada e enérgica, lúcida e encantatória, secreta e reveladora, características que se reconhecem no livro de prosa poética Chama-me Constança, publicado no final de 2010 pela editora Salamandra. Ambos os livros estão disponíveis no mercado.

A editora Hariemuj vai constar, a partir de agora nesta página, na coluna das editoras, à esquerda, onde estão também editoras já desaparecidas e que tiveram grande importância na divulgação do livro em Portugal; afinal, a história do livro faz-se de perdas e alentos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

25 anos sem O'Neill


Alexandre O'Neill foi um dos grandes poetas portugueses. Lê-lo é também entender a falta que ele nos faz.
Em sua homenagem, e em homenagem à poesia portuguesa, que é dizer a mesma coisa, deixo três textos e a referência ao imprescindível Alexandre O'Neill - Poesias Completas, editado pela Assírio&Alvim, em 2000 (as páginas aqui referidas são as da 5.ª edição, de Maio de 2007).


Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa. (p.370)

***

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.

E com os botões.
(p. 368)


***

Bicicleta

O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
(p.417)


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

José Rodrigues, o feitiço da luz (fotografia)


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Fotógrafo amador, que ocupa as horas vagas com a arte do olhar, José Rodrigues surge-nos finalmente em livro e exposição: .a des.crever esta língua que me é mar: , com chancela da Câmara Municipal de Cascais, será apresentado no dia 30 de Agosto, às 18 horas, no Centro de Interpretação Ambiental, situado no majestoso lugar da Ponta do Sal, em São Pedro do Estoril; as 53 fotografias são acompanhadas por textos de Isabel Mendes Ferreira e prefácio de José Pires F.
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No ensejo do lançamento, outro aplauso: é inaugurada a exposição Marés, organizada pela Agência Cascais Atlântico. A exposição ficará patente até ao dia 22 de Setembro, com fotos em loop contínuo, em painéis electrostáticos, e outras reproduzidas em painéis suspensos (conforme maquete da exposição, em baixo, imagem gentilmente cedida por José Rodrigues).
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São deste esmalte /os olhos de Afrodite. É deste /mar e deste céu /a carne palpitante/ da beleza, escreveu o poeta Albano Martins no poema Golfo Sarónico. É a carne palpitante da beleza que José Rodrigues fabrica na sua câmara escura, uma carne poética, depurada, de beleza avassaladora.

No impulso criador, está a luz. É pela luz que o fotógrafo calcorreia a orla marítima, e é com ela que decanta a realidade. Perseguindo-a, o fotógrafo posiciona-se muitas vezes rente aos elementos procurando-lhes a essência que a luz lhes dá, as formas que ele há-de perscrutar, interpretar e registar com o olho da objectiva prenhe de subjectividade: os labores de água, luz e vento, linhas sinuosas, símbolos quase hieroglíficos, figuras de uma mágica encenação, tudo enigmas escritos a sal no silêncio da areia.

É uma luz transgressora que confere tridimensionalidade à superfície plana dos fotogramas, tira densidade ao real, dissolve-o numa aproximação ao surreal, em aventura pelo domínio do maravilhoso e do sonho. E a dureza da pedra surge-nos com a leveza do ar, a luz abre fendas nas rochas à procura de sentidos, o mar prateado extasia-se na areia ou, exausto, entrega-se-lhe como sangue de sacrifício.

É a luz que esculpe planos gerais e grandes planos ora com dinamismo abrupto e inesperado, ora com placidez e quietude místicas, mas sempre em discursos sobre o efémero e o transitório. É, ainda, o discurso da espera de José Rodrigues na sua paciente missão de topógrafo dos diálogos íntimos e secretos.

Enquanto se espera pelo livro e pela exposição, temos ao nosso dispor as duas páginas de José Rodrigues, onde corre o deslumbramento:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Tagore e Whitman

Poesia, de Rabindranath Tagore e Canto de Mim Mesmo, de Walt Whitman são duas novidades imperdíveis da Assírio&Alvim. Na tradução de ambos os títulos está a mestria do poeta José Agostinho Baptista.

Tagore (1861-1941) desenvolveu uma lírica de contemplação, misticismo e questionamento do Homem. Se é atribuída ao escritor indiano a reformulação da literatura bengali e, através dela, uma ponte entre a cultura oriental e ocidental, o que certamente concorreu para a atribuição do Nobel da Literatura em 1913, Walt Whitman (1819-1892) é tido como o bardo americano; amplo, intenso, eufórico, esperançoso, provocatório e agente de modernidade, o autor de Leaves of Grass foi a senha do heterónimo pessoano Álvaro de Campos, que o reinventou e a quem dedicou a Saudação a Walt Whitman. Canto de mim mesmo é, assim, um texto fundamental para se definir o autor e se entender porque Fernando Pessoa o teve como modelo teórico e crítico, numa época sociopolítica ruidosa e ruinosa.
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Textos:

Convalescença – 14


Todos os dias de manhã cedo este cão fiel
Senta-se silenciosamente ao lado da minha cadeira
Até eu reparar na sua presença
Ao tocá-lo com a minha mão.
No momento em que recebe este pequeno reconhecimento,
Ondas de felicidade percorrem o seu corpo.
No inarticulado mundo animal
Apenas esta criatura
Compreendeu o bem e o mal e viu
O homem completo,
Aquele a quem
Talvez a vida deu alegremente
Esse objecto de um amor livre
Cuja consciência assinala o caminho
Para o coração da consciência infinita.
Quando vejo esse coração emudecido
Que revela a sua própria humildade
Através de uma total auto-rendição,
Sinto-me incapaz de descobrir o valor
Que a sua simples percepção encontrou na natureza do homem.
A profunda ansiedade do seu olhar mudo
Apercebe-se de algo que ele não pode explicar:
Ele remete-me para o verdadeiro significado do homem no universo.

(Rabindranath Tagore, p.124)

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XII

O jovem carniceiro despe as roupas de trabalho, ou afia a faca na banca do mercado,
Demoro-me a desfrutar as suas réplicas, os passos, as pausas.

Com o peito tisnado e peludo os ferreiros rodeiam a bigorna,
Cada um segurando o malho, todos exaustos, o calor é tanto por ali.

Do umbral cheio de cinza sigo os seus movimentos,
A pequena torção das cinturas acompanha os braços musculosos,
Por cima do ombro brandem os martelos, por cima do ombro tão lentos, por cima do ombro tão seguros,
Não têm pressa, golpeiam no seu lugar.


(Walt Whitman, p.33)