sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Ultramar no poema de Nuno Dempster



Quando se assinalam 50 anos do início da guerra do Ultramar, Nuno Dempster lança o poema longo K3, título que é o nome do aquartelamento na Guiné, onde o autor esteve como mobilizado entre 1968 e 1970 (ver na página de Nuno Dempster, AQUI).

Para já, garanto: são 63 páginas com a marca da escrita inconfundível do autor, que se lêem  de um fôlego a pedir a releitura para o prazer demorado no texto. K3 sucede ao também poema longo Londres, editado no ano passado e, novamente, com a chancela das edições &etc. (Ver Aqui texto meu sobre o Londres)



Extracto do K3:

.
.
«[...]
O Sol clareia a falta de sentido
do rumo que levamos,
daí que eu não chegasse a ver no mar
sinal de deuses,
dos deuses que se lê terem andado ali,
.
só peixes-voadores,
alheios ao clamor dos afogados,
.
os deuses, se existissem, lembrariam
não haver quem alcance
quantos náufragos jazem sob as águas,
.
e nós
não queremos contá-los,
medir a maldição em estatísticas
do pensamento.
.
Que não venham à tona,
que se deixem estar no fundo do oceano,
os ossos branqueados pelo sal:
.
os esqueletos tendem
a ser esquecidos,
a ser uma abstracção marítima,
.
a vida bastaria para os ignorar,
se o estrondo, uma nuvem, a vista cega,
trinta serpentes de aço a cuspir veneno
em sucessivas lâminas de fogo
não fossem evidências de naufrágio. [...]  p.p.12,13

"Verso e Prosa", Mário de Sá-Carneiro

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 31.01.2011)

«Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu», escreveu Fernando Pessoa, em 1930, numa carta a Gaspar Simões. Fundador, com Pessoa, do Modernismo português, Mário de Sá-Carneiro escava-se em ânsia em busca do Eu, o Outro, contracena com a própria sombra que o revela, autoflagela-se, autocontempla-se e afunda-se no abismo que perscruta, celebra as vanguardas e respectivos niilismos, cria um edifício de identidade entre a vida e a obra literária ímpar na Literatura Portuguesa.

Mário de Sá-Carneiro - Verso e Prosa chega-nos agora pela mão da Assírio & Alvim. É uma bela edição de capa dura e 669 páginas com «um conjunto coerente de textos que integra o que de mais marcante» o autor escreveu, lê-se na apresentação de Fernando Cabral Martins, responsável pela Edição. Na escolha de textos exclui-se a juvenília poética, as peças de teatro e cartas, cuja importância se integrará noutras ordens de razões, refere-se. Além de «poemas e textos soltos, publicados dispersamente ou enviados em cartas a Fernando Pessoa», em Poesia encontramos os livros Dispersão e Indícios de Oiro, e, em Narrativa, as novelas Princípio, A Confissão de Lúcio e Céu de Fogo.

Influenciado pelas temáticas de Baudelaire, pela investigação psicológica de Edgar Allan Poe, pela embriaguez da palavra nova de Mallarmé e pelo símbolo de Pessanha, entre outros, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) de todos se impregna, molda e lapida com os ismos das vanguardas, como quem busca o diálogo certo e urgente com a sua alma, revelando, outrossim, a inquietação de uma geração perdida no labirinto do tempo vário, acelerado, ruidoso e ruinoso. Debatendo-se na estranheza de um mundo onde sente não pertencer, o sujeito poético de Sá-Carneiro procura-se no seu interior, revolve, minucioso, a alma – esse «tumor triste» e «gato estranho e seráfico», nas assunções de Baudelaire, esse empecilho e fardo «Que não pesa mas que maça: / O zumbido dum moscardo, / Ou comichão que não passa», segundo o próprio Sá-Carneiro –, «brade a espada» e, narcísico, nimba-se de encanto e cria: «O meu destino é outro – é alto e é raro»; «sou luz harmoniosa / E chama genial que tudo ousa».
.
A procura do Outro, o seu duplo, nos subterrâneos da alma fá-lo pressentir «um grande intervalo»: «Eu não sou eu nem sou o outro», diz e lança-se, delirante, num «inter-sonho» onde tacteia e resvala: «Quero reunir-me, e todo me dissipo – / Luto, estrebucho… Em vão! Silvo para além…». Estava encontrada a bússola desta poesia: o desdobramento do sujeito na demanda incessante do sentimento e das sensações. Se para Pessanha a dor, «esta falta d’harmonia», é luz sem a qual «o coração é quase nada», porquanto a ausência da dor é a morte, também Mário de Sá-Carneiro arranca a sua obra à dor num processo de desvendamento interior que lhe desintegra progressivamente a personalidade: «Que droga foi a que me inoculei? / Ópio d’inferno em vez de paraíso?... / Que sortilégio a mim próprio lancei? / Como é que em dor genial eu me eterizo?» (p. 20). Embora não conseguindo atingir a despersonalização de Pessoa – o distanciar-se do Outro –, Sá-Carneiro foi um sensacionista de excelência, essa arte que, pela ampliação, procura buscar no objecto uma «qualquer espécie de além-ele», segundo Pessoa, e a sua visão interseccionista concorreu para a teatralidade que imprimiu nas suas personagens: «Tudo me é conduzido no espaço / Por inúmeras intersecções de planos / Múltiplos, livres, resvalantes. // E lá, no grande Espelho de fantasmas / Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, / Se desmorona o meu presente, / E o meu futuro é já poeira..» (p. 42).

O desdobramento e o desmoronamento do Eu revelam, ainda, a astenia – «falta-me egoísmo para ascender ao céu, / falta-me unção p’ra me afundar no lodo» – que é também a da sua geração, o que o faz metaforizar a vida – «E ei-la, a mona, lá está, / Estendida, a perna traçada» – e a alma – «o raio já bebe vinho, / Coisa que nunca fazia». Sem saber fixar-se, e «castrado d’alma», afunda-se na dor: «Serei um emigrado doutro mundo / Que nem na minha dor posso encontrar-me?...». O templo que criou revelava um deserto, um grito surdo como o pintado por Munch, um sudário espesso do qual não se consegue desprender, tecido com a inconstância da alma e a consciência disso. Atente-se no excerto e nas maiúsculas enfáticas «Arco» – a curva obsessiva – e «Ânsia», motores da tragédia pessoal:

Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular…
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos…
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores…
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo…
Já não é o meu rastro o rastro d’oiro que ainda sigo…
Resvalo pontes de gelatina e bolores…
– Hoje a luz para mim é sempre meia-luz…
….. (Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado…) (pp. 64-65)


Numa atmosfera de ressonância simbolista (o “mistério”, o “sonho”, o “vago”), levada à desmesura, o sujeito poético percorre-se «em salões sem janelas nem portas, / Longas salas de trono a espessas densidades», «grandes escadarias», destroços, corrimãos partidos, lustres de cristal, velas de ouro, cetins rasgados, tectos e frescos enegrecidos, num cenário de degradação sucessiva, amplificado pelos espelhos deformantes em que se vê e desfruta a imagem grotesca e trágica do seu Outro, que ridiculariza com ironia angustiada, como se constata no poema intitulado exactamente «Aquele outro» (p. 121), onde se autocaracteriza como «o dúbio mascarado – o mentiroso», «O sem nervos nem Ânsia – o papa-açorda», «O raimoso, o corrido, o desleal – / O balofo arrotando Império astral: / O mago sem condão – o Esfinge gorda…». A obsessão do sujeito destruir o corpo que lhe polui a alma é recorrente na escrita de Sá-Carneiro; é o poder da «Grande Sombra», o espectro da dor, a loucura e a morte que percorrem toda a obra de Sá-Carneiro, num misto de angústia e curiosidade da morte, numa sondagem que se espraia à recolha que faz de textos de suicidas seus contemporâneos, amigos e conhecidos, como é o caso do texto «A profecia», sobre o suicídio de António Maldonado, poeta do Crepúsculo, com excertos do seu diário que indiciam as razões do suicídio, e onde se lê: «Suicidou-se ontem o meu alfaiate. Esse não teve medo. Ele próprio foi ao seu encontro.» (p. 214). «Não me pude vencer, mas posso-me esmagar», «Ai que saudades da morte…», «Quero dormir… ancorar…», escreve Mário de Sá-Carneiro como quem sente o mal a fitá-lo com o seu olhar de corvo, e que o faz ficcionar epílogos como este:

Do alto da sua torre, do alto da cúpula de aço refulgente, debruçava-se para ver o seu triunfo. E via a Glória. Mas de súbito houvera um bater de asas negras. Ao mesmo tempo, as nuvens áureas, turbilhonando, cegaram-lhe a vista: se olhava para a terra, o solitário do azul não via a terra; se olhava para o céu, não via o céu… Debruçou-se mais. Batiam sempre as grandes asas negras. Louco de pavor, quis fugir… Precipitou-se… foi-se abismando no espaço… Em vez da luz, as trevas impenetráveis; em vez das alturas, a profundidade. Mas a profundidade e as trevas aliviam os corpos fatigados. O artista sublime descansava. (p. 292)

Edgar Allan Poe escreveu, no «Soneto-Silêncio», que o silêncio tem corpo, que «por si só não pode fazer mal», porém se lançado «o Fado inexorável, / De encontro à sua sombra (elfo inefável / Que assola os ermos onde outrem jamais / Pisou)», que Deus guarde «então a alma!»*. Fingindo a dor que deveras sentia, Mário de Sá-Carneiro revelou a sua Clepsidra, o relógio que marcava, a sua proximidade da morte.

«uma poção de estricnina / deu-lhe a moleza e foi dormir // preferiu umas dores no lado esquerdo da alma / uns disparates com as pernas na hora apaziguadora / herói à sua maneira recusou-se / a beber o pátrio mijo / deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto, / desembarcou como tinha embarcado // sem Jeito Para o Negócio», escreveu Mário Cesariny num poema sobre Mário de Sá-Carneiro**.

«A vida é um lugar comum. Eu soube evitar esse lugar comum. Eis tudo», escreve Mário de Sá-Carneiro através de uma personagem de «O Homem dos Sonhos» e nela reconhecemo-lo, «o príncipe sonâmbulo do sul», «o mítico rajá de Índias de tule», o «Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia», a vertigem plasmada em Língua Portuguesa.

Notas:

*
Edgar Allan Poe, Obra Poética Completa, p.143, tradução de Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, 2009
** Cesariny Uma Grande Razão – os poemas maiores, p.34, Assírio & Alvim, 2007
.
© Teresa Sá Couto

domingo, 16 de janeiro de 2011

Um corpo visível


Está nas livrarias a edição fac-similada de Corpo Visível, o primeiro poema de Mário Cesariny, com a chancela da Assírio & Alvim e promoção da Fundação Cupertino Miranda. A publicação surge no ensejo de Mário Cesariny – Encontros IV, evento realizado de 25 a 27 de Novembro de 2010 em Famalicão e promovido por aquela Fundação.

É um belíssimo livro de capa nívea a envolver as 16 páginas que o tempo tornou sépia. Publicado em 1950, nele irrompe a descoberta e a aventura da linguagem que Cesariny manteria em toda a sua obra de metamorfose, transgressão, caracterizada pela felina indisciplina de quem viveu a vida em todos os excessos e nos exortou: Ama como a estrada começa.
Garanto que este Corpo Visível provoca paixão imediata.

Extracto:
[…]
Começa a ouvir-se o canto da cigarra
sinal de que foi pisado o botão entre os limos
estão presentes ao acto todos os seres vivos e entre esses
aqueles que nos foram queridos
na maré límpida que nos impele sabe o polvo dos mares
até onde e se haverá regresso
em qualquer lado a última janela fotográfica
as mãos do faroleiro
como a locomotiva no seu túnel
mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto ainda
e sempre o teu rosto
como é fácil como é belo
A Vida Inteira Meu Amor
SOMOS NÓS
[…] (p.p.9,10)

sábado, 1 de janeiro de 2011

30 anos de Gato Maltês

A soberba colecção Gato Maltês, da Assírio&Alvim, está a fazer 30 anos. Pelo zelo, argúcia e pertinência das escolhas destas três décadas, há que ter as orelhas espevitadas para não se perder nenhum título. Comprove-se com a excelsa "colheita" de 2010: Herberto Helder, Ruy Belo, Fialho de Almeida, Panaït Istrati, Eihei Dogen, Herman Melville e Jean Cocteau.


Ver mais sobre a colecção, no blogue da editora, Aqui.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novo livro da poeta Ana Paula Tavares


A poeta angolana Ana Paula Tavares tem novo livro: Como veias finas na terra, com a chancela, uma vez mais, da Caminho, colige, em 51 páginas, poemas curtos tecidos com palavras de brilho, sílabas claras, sinais perdidos nas dunas, areias, fontes, manhãs, noites de lua.

Com escrita ritualística, marca da autora, celebram-se vozes antigas da mulher africana no chão que se confunde com o seu próprio corpo, para desse chão atingir a universalidade do ser. «Aqui as pedras já não são pedras. O /sopro de vida que as /habita é um resto da fala antiga /de que são feitos os versos.», «Aqui a música pode ouvir-se na mão /curvada /búzio /sobe /o ouvido», lê-se nesta poesia que assim nomeia as suas próprias características.

São, pois, sons, sabores, texturas, desejos, cicios de perdas, de ganhos, de quimeras, que impulsionam as palavras, veias desta poesia. Para ler e sentir demoradamente. (texto meu sobre a poesia da autora, AQUI)

Poemas:

Quantas coisas do amor
P’ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos

seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.

***
Toda a noite chorei na casa velha
Provei, da terra, as veias finas.
Um nome um nome a causa das coisas
Eu terra eu árvore eu sinto
todas as veias da terra
em mim e
o doce silêncio da noite.

***
Detenho-me no cais
Ainda não é a hora
Eu sei
Há barcos de um lado
E comboios antigos de toda a parte
Ainda não é a hora
Eu sei
Detenho-me no cais
Eu sei não é ainda a hora
As pessoas deslizam
Acertam as suas vidas
Pelos relógios

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Citações e Pensamentos na busca do saber

É fácil encontrarmos nas nossas livrarias livros que coligem citações, aforismos e toda a sorte de textos breves dos mais diversos autores. Na internet, o fenómeno atinge o foro do bizarro, descredibilizando-se, com variantes quase intermináveis dum mesmo texto e muitas vezes atribuídos a autores diferentes. Todavia, e como em todas as coisas, há que distinguir o trigo do joio, o que é feito de forma séria e exigente, do que não o é. Procurando o trigo, encontramos os livros de citações e pensamentos, organizados por Paulo Neves da Silva que é, também, o timoneiro do Citador, lugar da internet que, julgo, dispensa apresentações.
.
Acabado de chegar às livrarias, o Citações e Pensamentos de Padre António Vieira junta-se a outros quatro tomos de trabalho árduo, dedicado e metódico, de anos, cuja edição se iniciou, finalmente, no ano passado, pela Casa das Letras que abraçou o projecto de Paulo Neves da Silva: os Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa, em Abril de 2009, já na 5ª edição, Citações e Pensamentos de Friedrich Nietzsche, Agosto de 2009, Citações e Pensamentos de Agostinho da Silva, Novembro de 2009, e Citações e Pensamentos de Eça de Queirós, Abril de 2010 (capas na imagem; clicar para aumentar).

.Segundo Paulo Neves da Silva, a quem agradeço a disponibilidade para me contar o percurso desta sua missão maior de serviço público - dito assim porquanto é legitimado pela pertinência e qualidade das recolhas -, que começou a dar frutos em 2005 com a publicação, também pela Casa das Letras, de O Livro das Citações, uma compilação de citações por temas - com cada citação acompanhada doutra que a contradiz -, os Sabedoria Irreverente, em 2006, O Livro das Reflexões e Pensamentos, em 2007, duas edições de autor, e o Dicionário de Citações, de 2009, editado pela Âncora.

Sobre o recentíssimo Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, acrescente-se que compreende 650 citações e 170 textos temáticos, sendo referenciados 147 sermões, resultado da pesquisa por 30 volumes da obra do genial orador seiscentista. De fácil consulta, e com uma piscadela de olho à ludicidade da leitura, os cinco títulos disponíveis são susceptíveis de guiar o leitor menos familiarizado com os autores e incentivá-lo a procurar os textos integrais; um movimento para a procura do saber que se aconselha, ainda, para as estantes das bibliotecas das nossas escolas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Electri-cidade, Vitor Oliveira Jorge

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 29.11.2010)

Procurar «o movimento da curva», posicionar-se no «entre», no «estar imediatamente antes / Do que vem imediatamente depois», deixar o corpo, que está no turbilhão da curva, deflagrar e tecer o próprio sudário: assim nos chega Electri-cidade, o último trabalho poético de Vítor Oliveira Jorge, que reúne, em 260 páginas, textos longos em verso e prosa poética.

Assumidamente metapoética, esta poesia busca a elasticidade do pensamento, a soberania da imagem, sendo a acção mobilizadora enunciada claramente no texto: «Criar uma espécie de tensão; partir de terra em terra; montar a tenda, repetir a cena, variar as luzes», «representar que nem um louco», «com os dentes todos pretos de tinta. Dando mordidelas textuais no ar». O resultado é a «hemorragia de versos, / Como longas escadarias, / Cada degrau pedindo outro, / Cada sala desembocando / Numa próxima, de outra cor. / Cada imagem apresentando outra imagem» (p. 97), em estilo vertiginoso, esfuziante e torrencial, patente também no desenho estrófico, com versos de tamanho muito desigual. «Por que nervo passa este movimento? / Por onde se pode começar a esquadrinhar / Esta geografia?» (p. 162). E começa-se pelo corpo, onde se ancora, fortíssima, esta poesia: o corpo antigo que é noite e quer ser iluminado, a «escaldar / de luzes e reflexos e notas e sons, que gargantas / Espalharam no ar denso ao longo dos séculos», esquadrinhado em círculos e espirais, poema após poema, muitos deles afigurando-se-nos como paráfrases de outros – e estará aqui um aspecto negativo deste compêndio, pela ideia que se nos agarra de poemas que seriam projecto ou estudo doutros, e que uma revisão e selecção cuidadas seguramente eliminariam para conferir homogeneidade à colectânea.

A explosão do corpo espraia-se por «arquitecturas» que o envolvem e que configuram o seu drama: o quarto, a cama, paredes, tectos, praças, «o enxadrezado do chão», recantos das esquinas, drama bem patente neste «A força das horas»:
[…]
as manhãs às vezes começam ao contrário, como se fossem noites atrasadas.
a cama é então um lugar de conforto e de martírio, confundidos no mesmo corpo,
na mesma penumbra.
há um desalinho no passado e no futuro.
e no presente as pernas cruzam-se sem se encontrarem.
os lençóis suam.
um peso cai das roupas estendidas,
dos dias anteriores,
da opacidade das janelas,
onde
não se roçam pombas, Nem se abrem candeeiros.
apenas fragmentos se erguem acima do colchão,
à procura […] (p. 11)
.
Passento, o corpo é enredado no frenesim da criação poética: «odor que excita as narinas», tensão de ossos, músculos, tendões, uma «máquina tremenda, uma vontade / Do corpo vivo, esticado, com luzes / Nas extremidades: / Com luzes nos pés, nas mãos, // Um corpo todo aberto, / Todo erguido no vento» (p. 137), com que se procura, afinal, uma respiração, dito assim em belíssimos versos:
.
O corpo odeia as superfícies, o corpo
Foi feito para voar. Mas o maldito peso
Prendeu-o ao solo, e o maldito tempo
Colou os dias uns aos outros. (p. 77)
.
Do corpo, em cruzamentos, entre «Trapézios», destacam-se as mãos, os pés e o centro. Das mãos saem «estradas», «escadas», «veias», «velas / que os pássaros cruzam / furando os panos», e o texto «acaba sentando-se / no fundo de si mesmo», no chão enigmático que é a folha branca do poema: «passaram-se de facto / aqui / já muitas, talvez demasiadas, coisas! // e um emaranhado de linhas / pousa no chão» (p. 85). Ostentando a sua «nudez total», está a planta do pé, o «pé terrivelmente nu sobre as superfícies». O centro é emanação, cópula, luxúria, «esperma», «vulva», a «intumescência» dos lábios, com a palavra a almejar o poder ilimitado, como uma «cerejeira coberta de frutos brilhantes e carnudos, vermelhos na sua totalidade prestes a rebentar de dentro de si mesma» (p. 133). Também assim se edificam os três elementos – cântico, culto e altar – do Grande Segredo da palavra, da «Flor» que, alucinada, «cresce sobre a coluna» para Dizer, ao mesmo tempo que foge «para dentro / de um cabelo enorme», intacta, «porque todo o seu íntimo / Está na reserva inviolável», numa conclusão a ressumar o esforço de Orfeu na sua descida ao inferno para reunir, no canto, a sua dispersão: «Subimos todos conduzidos / Pelo baixo profundo / Do Segredo»; trata-se do «Grande Desejo» – e «desejos e apetites são asas», na formulação de Novalis – de «estoirar com os balões solitários», todavia com a consciência de que se «caminha para o desconhecido», dito assim, num texto em prosa:

(...) as noites adensam-se para dentro de si mesmas mais que os dias, porque está escrito: não olharás para dentro das janelas. Podes interrogar-te sobre quem estará por detrás, por dentro, de cada janela apagada, ou acesa. Mas jamais saberás quem é. (p. 130)
Finalmente, no corpo, e por via dele, veicula-se a noção da escrita como sacrifício: «sempre com o mesmo fervor do centro» a mesma ânsia de janelas acesas em pleno dia, subir o turbilhão para se ir ter a um lugar que não se conhece, ou encontrar o objecto da demanda «como vestígio, um olhar entre dois pontos de interrogação»; é o corpo entre corpos na pista dos sacrificados; é o desejo de dispersão e aniquilamento do corpo que «assoma às varandas, para se evaporar», se diluir com a atmosfera, se volatilizar: «É o momento das janelas, do trespasse do corpo através dos espelhos. // Por que não tínhamos inventado isto antes, afinal, por que percorre-/ mos tão longo caminho sobre gumes de obsidiana, quando os pés se / podiam desmaterializar!» (p. 256).
São focagens e desfocagens de uma deambulação consciente de ter de arrostar com a solidão, e se apazigua encontrando o «Ouro» na simplicidade do seu lar, a sua toca no fundo duma rua sem saída, lugar de «paz infinita», referido num texto de carácter biográfico titulado, precisamente, «Ouro» (p.169). Na assunção da nudez absoluta, surgem textos como este:
[…]
trago-te o meu coração
Arrancado ao peito, com veemência,
Com violência
E estendo-o à tua surpresa
Como um seixo do rio, macio, suave,
Limpo. Tão limpo, tão nu.
Eis o meu Sagrado Coração
Desprevenido. (p. 70)


«As curvas são feitas para isso / Para nos colar ao momento seguinte / E como gatos espetarmos o focinho / Nessa procura obsessiva», lê-se neste Electri-cidade. «O poder de tornar as obsessões, que são experiências enérgicas do mundo exterior e interior, em formas tendentes a dispor-se numa forma fundamental, isso é o acto por excelência poético», diz Herberto Helder. Vítor Oliveira Jorge procura que a palavra – esse gesto «com que se atam sentimentos» e se desnuda a alma – seja a voz fundamental, e esculpe um canto lírico com lugar próprio na actual poesia portuguesa.


Electri-cidade, Vítor Oliveira Jorge; Edições Colibri, 2009


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de novembro de 2010

Novo livro de poesia de Ondjaki

Dois livros num só: Acto Sanguíneo e Dentro de mim faz Sul: o iniciático – escritas do fim da adolescência, editado há dez anos – e o mais recente livro de poesia de Ondjaki. É uma «celebração», diz-nos o escritor angolano em nota introdutória, desse «mistério chamado poesia». São pedaços da existência, fragmentos de interioridade desenhados em palavras: o «ritmo do sangue», o afecto do chão, o canto das estrelas da infância, rituais de encantamento, cicios de perdas, saudades, ecos longínquos que a memória foi transfigurando também ao longo de dez anos.

«dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo /assim como sou /não me basta). Pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. Mas depois vi que isso seria uma redundância humana.», diz Ondjaki, no presente livro.
Com várias obras para crianças, contos, romances e um texto dramático, as razões da poesia (recordo que Ondjaki  publicou também há prendisajens com o xão, em  2002, e, no ano passado,  Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristezaver texto meu sobre este último título) poderão encontrar-se logo em Acto Sanguíneo : «regresso  porque me dói /a parte escondida da perna  //e peço, com a mão mais direita /para escrever em ti .//regresso  porque /acima de tudo /me quero experimentar.//a mim: sanguíneo. //o actor sanguíneo.» (p.125).

Poemas:
(dentro de mim faz sul)

que língua falam os pássaros

de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
- lento manancial de céus.

os pássaros
São mais sabedores. (p.17)

***
chove.
o mundo húmido, poético
ganha outra densidade
- longe do medo.

gosto de observar a chuva

a paz
nas suas vestes

a chuva é plena de instantes intocáveis

nós somos
simplesmente humanos. (p.49)
***
(acto sanguíneo)

há uma valsa lenta neste
baixinho barulhar.
um vermelho odor, qualquer coisa de baço
no olhar.
seios brancos, um soutien escondido
um par de óculos
uma doce morosidade.

há algo de erótico na casa da idade

um suspiro estalando no ar
ou uma valsa quente
no repouso de um lar. (p.104)


ver AQUI textos meus sobre obras de Ondjaki

domingo, 14 de novembro de 2010

Blade Runner, a obra de Ridley Scott

É uma experiência e peras viver com medo, não é? É o que significa ser escravo. - Blade Runner

Esta semana, no ciclo de Film noir. Como sempre, a ficha elaborada por José Xavier Ezequiel.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A épica de Gonçalo M. Tavares

Está nas livrarias Uma Viagem à India, o novíssimo romance de Gonçalo M. Tavares, com promessa de futuros brados.
É uma edição esmerada, de capa dura, branca, com sobrecapa encarnada destacando-se um símbolo gráfico: uma linha recta, vertical, que parte de um ponto, um centro, ou se dirige para ele, como a linha da vida humana do nascimento para a tomada do mundo ou do nascimento em direcção à morte. No interior, a viagem em 10 cantos, eco de Os Lusíadas, cada canto com pequenos textos numerados e dispostos nas páginas como se fossem estâncias; nas últimas páginas, Melancolia contemporânea (um itinerário) dá-nos, graficamente, caminhos daquela linha recta numa espécie de cartografia da existência. «O dispositivo é o de um poema provocantemente épico e anti-épico», escreve Eduardo Lourenço, no Prefácio.
.
Bloom é o herói e anti-herói desta singularidade literária, marca iniludível do autor, e é o espelho onde, como é apanágio da escrita de Gonçalo M. Tavares, inquietantemente nos revemos. A ler, de um fôlego. Transcrevo uns extractos com a formatação que se encontra nas páginas:
.
77
.Há uma fenda entre o mais alto
da cabeça do homem e o céu; e nas minas
onde se exploram as riquezas que caíram
é evidente um outro embaraço antigo: a desligação
entre os pés do homem
e o que existe lá em baixo: o centro da terra.
Mesquinha coisa que existe entre o céu e o centro,
eis o homem. (Canto III, p.144)

38
.
O mundo é redondo, mas todos os lados são iguais.
Os homens têm fome e adversários,
e outros têm prestígio e amigos e, nesta divisão rude,
encontrarás semelhanças evidentes
com a velha Europa, a Ásia, as Américas,
África, e com todos os continentes onde existem
seres vivos. A vida é invenção de demónios:
deram-ta: deves defender-te, deves atacar
(percebes, Bloom?). Percebo, responde Bloom com a cabeça. (Canto VII, p.304)

41
.
Ninguém se encosta a si próprio tão
intensamente como quando sofre ou como
quando entra num mercado de uma
das nossas grandes cidades. O comércio
é feito de uma linguagem inesgotável:
sobra de um lado, falta de outro. O consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio, vaidade, como queriam outro resultado? (Canto VII, p.305)
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