quinta-feira, 26 de maio de 2011

Diálogo Ibérico de José Bento

«É um trabalho de artífice, o meu. Sou tecelão /de sons que elaboro e harmonizo, entalhador /a quem a matéria agride até ser afeiçoada./ Para quem trabalho? Quem me escuta como sorvo /o que me é dado para eu criar e transmitir?», escreve José Bento no seu novo livro Sítios, em versos que ressumam o labor de uma vida no laboratório da poesia.
.
Quase a completar 80 anos, o poeta e tradutor de poetas volta ao destaque nas livrarias com três títulos de uma assentada: além de Sítios, da sua poesia, é o responsável pela selecção, tradução, prólogo crítico e notas das antologias poéticas de Luis de Góngora (1561-1627) e Lope de Vega (1562-1635), todos com a chancela da Assírio&Alvim. Se estes dois poetas do Siglo de Oro já constavam, com alguns poemas, na Antologia da Poesia Espanhola, segundo volume, também com selecção e tradução de José Bento, editada pela Assírio&Alvim, em 1996, as presentes Antologias individuais são as primeiras em Portugal.  

Reconhecido pela exigência, rigor e erudição, José Bento tem dedicado a vida à tradução para língua portuguesa de poetas de língua castelhana (entre outros, Cervantes, Quevedo, García Lorca, Neruda, Unamuno, Juan Ramón Jiménez, Jorge Luís Borges, maria Zambrano, Octávio Paz), contribuindo para o inestimável diálogo entre as literaturas ibéricas, que, assim, sai do reduto da Academia e abre-se ao público.

Entre várias distinções, José Bento recebeu em 2006 o 1º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

Extracto:
[…]

Para ser voz
tinha que assim moldar-se tal silêncio?,
ter o fogo expectante no sílex,
o rigor do metal
que nem perante o sangue se retrai e vacila
até desvendar a última verdade,
a que se toque talvez ao quebrar ou exumar
a constância dos ossos?

Quando me será dado responder?
Distante desse curso obscuro,
mal vislumbro o que para mim foi nele escrito.

Desde então persigo o seu sentido.
Hoje prossigo, eis-me a prosseguir.

Aqui, errante, ­ – escrevo, erro.
Leio a noite: identifico ainda aquela noite.
Adianto uma palavra, mais um passo:
uma sílaba, uma pulsação
queimam ao vibrar e entregar-se.

Procuro a clave da ferida em mim acesa
naquele instante que dividiu meu tempo.
No relâmpago que esse instante é para sempre,
descerrou-se para eu o conhecer
o rosto fascinado
da morte já erguida. (Sítios, p.p. 181,182)

terça-feira, 17 de maio de 2011

«O Trompete de Miles Davis», Francisco Duarte Azevedo

(Texto publicado no sítio da Orgia Literária, dia 16.05.2011)

«O fado também pode ser tocado num saxofone»: esta é a chave de O Trompete de Miles Davis, romance de estreia de Francisco Duarte Azevedo, que desenha o policial, mas é a observação social que o enche gizada num roteiro da emigração portuguesa na América. Dúctil, a escrita mostra que é voo de memórias, voz de sonhos traídos e depoimento do virtuosismo com que se improvisam os dias.

A narrativa é controlada pela voz de um narrador participante, um detective privado em Newark, o «Sherlock do bairro» que «encaixava perfeitinho naquelas rotinas», rotinas que são abaladas pelo desaparecimento do trompete verde de Miles Davis da vitrina da Dana Library, durante uma palestra de um escritor português. A estratégia narrativa da primeira pessoa possibilita exploraram-se eficazmente mundos interiores anquilosados, estabelecer cumplicidade com o leitor devido à característica de depoimento e demonstrar uma consciência actuante, o que dá carácter intervencionista à obra, que pretende problematizar a condição dos emigrantes. Tudo tarefas que o autor cumpre com apuro.

Conta-se a história dum «tipo banal», um emigrante português – e, por ele, do grupo social onde se insere –, que seguiu o sonho de ser actor em Hollywood, mas lavou pratos, foi professor de português num colégio e acabou a sufocar num escritório de vidraças fechadas, com o sonho emparedado no subúrbio que partilha com grupos étnicos, sem conviver, «muros invisíveis» entre raças, culturas e tradições, «movendo-se como as lamas de um vulcão».

Delineada a personagem e estabelecida a intenção, a narrativa, inteligente, lança mão à ironia, ao humor e tece uma teia subtil – que, por isto, não se compadece com leituras descuidadas – com elementos narrativos de transgressão a uma vida escandida na luta pela sobrevivência, que configuram o desejo de liberdade ou representam as asas de sonhos sublimados. Assim surgem, ao longo das 301 páginas, referências a pássaros que cruzam os céus, pássaros que se metamorfoseiam «em harmonias e desarmonias de sons de um trompete», numa clara contaminação das técnicas do jazz na narrativa, a metamorfose da improvisação que servia a necessidade humana, básica, de exteriorização de emoções contidas; o detective cria «hologramas de Miles Davis por toda a parte», sons que o fazem recordar a «batida tranquila de vagas na vazante, a maré rodopiando, retrocedendo e voltando a rodopiar» e onde vê uma «imperturbável e explosiva mistura de cores»; o protagonista olha todos os dias para um quadro de Nova Iorque, de um pintor de rua, onde «podia inventar e desejar fosse o que fosse naquela cidade», «compensar a ausência» e a nostalgia que ela lhe «causava ali tão perto»; finalmente, a poltrona do escritório, onde o detective se refugia, desempenha um papel essencial no desenho psicológico do protagonista e na configuração do desejo, secreto, de liberdade: «deixar apenas que a memória aflorasse sem se intrometer demasiado no âmago das coisas. Queria tornar-me leve» (p. 297).

Tudo na escrita é preciso, como a precisão do relógio de pulso – «um velho Baumatic» – que o detective usa, também símbolo da memória, gesto assumido directamente no texto por Francisco Azevedo, diplomata de carreira: «Há sempre uns tipos que teimam em escrever as suas memórias como se o mundo não passasse sem eles: os detectives, os políticos e os diplomatas.» (p. 296)

Teixeira de Pascoaes escreveu que «a saudade retoca certas imagens da memória e acende uma auréola divina em volta delas». Enformando este projecto, a narrativa divaga por espaços feitos itinerários da memória, ilumina-os com sinestesias, descreve-os com perfeição cinematográfica. Assim surgem: o «bate papo adocicado» na claridade e penumbra do Meal’s Place, com as suas janelas de cortinas vermelhas, ruído de talheres e tilintar de copos; um café expresso duplo no Starbucks, «ténue compensação» com saudades do café da Brasileira do Chiado ou do Nicola; a doçaria portuguesa do café La Provence, para onde caminhava nos fins de tarde «com a veneração de um crente», onde se sentia «barco em porto seguro» e «aos sábados fazia o gosto ao dedo com galão escuro e torradas com manteiga desfazendo-se salgadas sobre as papilas da língua», trazendo-lhe «na trinca o aroma de Lisboa»; o percurso entre La Provence e a Penn Station, «esse caminho mágico» que é a Ferry Street ou a Avenida de Portugal», de negócios dos portugueses, onde abundavam «criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de povoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria.» (p.91)

Francisco Azevedo mostra-nos que a escrita é uma casa: «até um pássaro busca o seu ninho», lê-se neste romance que convida o leitor a ser detective nas páginas para prazer da sua leitura. Esperemos que a casa se amplie, pois este foi um início de gigante.

O Trompete de Miles Davis, Francisco Duarte Azevedo; Planeta, 2011

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manuel António Pina

Manuel António Pina é o Prémio Camões 2011, e eis uma alegria que nos espevita em tempos de cansaço e abulia.
«Um escritor altamente qualificado nos diversos campos em que actua, em especial em suas poesias, para adultos e crianças, que possuem alto grau de inventividade e originalidade», justificou o Júri do Prémio, o que há muito sabemos.

Estão de parabéns, o autor, a Assírio&Alvim,a Literatura Portuguesa e, por isso, nós todos. Mas há mais: a editora anunciou que vai lançar na Feira do Livro do Porto a antologia poética POESIA, SAUDADE DA PROSA - UMA ANTOLOGIA PESSOAL (imagem à esquerda), com selecção de poemas feita pelo próprio autor, e, daqui a alguns meses, um novo livro de poesia, o primeiro nos últimos oito anos, refere a editora. E nós esperamos.






Um poema:

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
Poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Poesia Reunida, p.38, Assírio&Alvim, 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"K3", Nuno Dempster

(Texto editado no sítio da Orgia Literária, hoje, 25.04.2011)


A escrita sutura feridas, e K3, de Nuno Dempster, comprova-o. Nome do temível aquartelamento na Guiné, K3 reergue-se, mais de quarenta anos depois, num objecto artístico admirável: um poema longo que solta o grito amordaçado e denuncia a solidão larga, ultrapassando a memória do seu autor ao plasmar a nossa memória colectiva, silenciada, inquietante e incómoda da Guerra Colonial.

O poema desenvolve-se em torno de dois centros de interioridade tão fundos quanto os subterrâneos do aquartelamento homónimo: o passado, que contém o futuro do presente, e o presente, «a altura do exorcismo». Se o nervo central se constrói cronologicamente – desde a partida do Cais de Alcântara do «alto navio negro e a sua carga» de força juvenil amansada pelos «velhos facínoras», até ao regresso –, a memória, assente nos anos que Nuno Dempster esteve como mobilizado no K3, esculpe as linhas da névoa, desnuda a ideia, «pensa o sentimento, sente o pensamento», como o enunciado no poema «Credo Poético» de Unamuno.

«As recordações serão coágulos de sombra / calcados quais velhas brasas / na chaminé. A recordação será a chama / que ainda ontem picava nos olhos apagados», escreveu Pavese em versos talvez lidos no K3 por Nuno Dempster que refere no poema ter levado consigo livros do poeta italiano. Consciente de que trazer o passado para o presente é enfrentar o tecido esburacado da memória, Nuno Dempster surpreende-nos quer pelas relações estabelecidas, quer pela argumentação aduzida para as sustentar, compondo a teia temporal com fios que se ligam às naus da glória da Expansão, para mostrar como se pagaram as «dívidas antigas do passado», para cantar, agora, a «gesta lusitana, / escrita desta vez / ao contrário, mesquinha e pobre / por sob os decassílabos heróicos, / em um coral de vozes atonais.». As vozes que se ouvem são de anti-heróis encharcados do «napalm» lançado dos T-6, atravessados pelas rajadas das brownings e pelo «assobio das granadas / que rebentam depois no cérebro, / no coração, nos ossos trémulos», e que, sem terem entendido a guerra, avançam «de bruços no poema» que os agasalha, num notável processo artístico de reconfiguração do velho no novo, muitas vezes ao ponto de duvidarmos qual é qual, com o autor a levar-nos, inclusive, ao laboratório do poema:

«Por vezes regresso a este tempo verbal, / nada disto morreu. // A lancha tinha parado na memória, / e foi necessário um tempo novo / para ela prosseguir Cacheu acima, / connosco e com os mesmos fuzileiros, / todos já com cabelos brancos, // pois vi Gilmour cantar Comfortably Numb / do topo dos seus sessenta anos / […] / E eu, que não fui ungido / por nenhum deus, / tenho todos os tempos / na sua divisão inevitável, / até o futuro, / que era então esta estrofe, / escrita lentamente sobre / o desembarque em terra alheia» (p. 27).

Rastreados ao longo das 63 páginas, o desamparo de uma geração de jovens e o sentido de orfandade encontram na escrita processos cénicos de grande força dramática, formas de se interrogar a estranheza do sujeito perante a representação de um papel que não é o seu ou perante uma realidade que o envolve e esmaga: a despedida no cais de Alcântara, onde o sujeito lírico assiste à sua própria passagem como se se visse num filme, orientado por vozes de «altifalantes anacrónicos», enquanto, confuso, «sentia o sangue de a vida não ter prazo / e, em queda, a eternidade de ser jovem / com a morte adiante, / que um grito colectivo rasurara»; «eu a ver-me num barco»; «E eis-me a representar com estes negros / o papel dos antigos marinheiros»; a analogia do palco da guerra com jogos de vídeo de «assassinos digitais que matam por matar».

Contra a rasura, o poema ergue-se com os «Mais de três mil homens / metidos / em camuflados, / alguns choram e tentam esconder-se», pouco lhes valendo o ópio das quimeras das raparigas que «nuas esvoaçam / de sonho em sonho», quimeras que perderiam na escuridão inextinguível do mato, porquanto lhes ficaria gravada no ADN com promessa de «nova solidão» para o resto das suas vidas; ergue os que regressariam em «caixões selados, secretos», porque «“os filhos mortos deitam um cheiro insuportável”, / diziam os paisanos», os mortos pela pátria que voltariam a morrer nela em «funerais anónimos»; ergue-se contra o mesmo esquecimento votado ao paquete que os levou e que se finaria «de ferrugem e artrite» no Mar da Palha.

Neste projecto de escrita em que o pensado é o sentido, o poema de Nuno Dempster activa, também, um sentimento de pertença aos lugares da memória de África, num pacto secreto e veemente com o passado: «as minhas botas eram / surdina em movimento, / seguiam outras botas / por trilhos proibidos, / no odor enjoativo das acácias, // não mais o consegui tirar da pele, / senão esta manhã, / em que pensei deixá-lo no poema, // até ao ponto / de a sua evocação me recordar / a saudade imprecisa de África» (p. 28); «eu era aqueles putos negros / de olhar astuto / no k3 e agora em Colibuia.» (p. 48); «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje, / um crime por julgar / que eu deveria ter testemunhado / num tribunal que sei não existir / para pobreza tão funda. // Oh, terreiro nu de Colibuia, // onde nem flor se vê, / nem erva cresce, / as cabanas em volta, / pó não sei de que vidas miseráveis, / levantado por botas militares // e pés negros que nunca vi dançar, / batendo de alegria, ritmados.» (p. 49).

K3 sucede ao poema Londres, ambos títulos incontornáveis que fazem de Nuno Dempster um dos mais notáveis escultores da memória da actual poesia portuguesa. «É da torre mais alta do meu pranto / que eu canto este meu sangue este meu povo», escreveu o poeta José Carlos Ary dos Santos; em K3, Nuno Dempster diz-nos de forma clara, inviabilizando toda a ambiguidade, qual a missão do seu poema que é, afinal, a missão da sua escrita: «não sei de ninguém / que cale esta viagem / nas cabeças dementes e na minha, / e possa devolver os pássaros / aos choupos; / e o vagaroso ritmo, às colheitas; / e a inteireza do lódão, / aos homens, // de modo a que o navio não navegue / no fluxo da memória / e as palavras não contem, / quietas sob os mortos, / no seu inviolável cofre de silêncio.» (p. 15).


K3, Nuno Dempster; &etc, 2011


* ler aqui texto sobre Londres, de Nuno Dempster


© Teresa Sá Couto

Página de Amadeu Baptista

O poeta Amadeu Baptista, uma das vozes incontornáveis da Literatura Portuguesa, já tem página na rede. Finalmente. Aqui: Amadeu Baptista. O seu lugar passa a estar também neste espaço, com link na coluna à esquerda, em Lugares de Autores.
Com vasta obra publicada, Amadeu Baptista acaba de editar Estrela de Bizâncio, edição Livro do dia, Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2005. Na imagem, o autor com o seu novo livro e outros dois títulos: Antecedentes Criminais - Antologia Pessoal 1982-2007, de 2007, editado pelas extintas Edições Quasi; O Ano da Morte de José Saramago, &etc, 2010.

(clicar na imagem para aumentar)

Extracto de Estrela de Bizâncio:

«Que escrevo eu? A respiração do feno, os lancinantes pedidos de socorro? Escrevo o que passa, a pressa, o adiamento? o que é precário?

Um lugar é mais lugar quando dele se quer partir, o pão frutifica, o espírito cresce, salvos pela música talvez tenhamos paz.

Acredito no lugar transitório, junto ao lago, de onde possa ver as aves em trânsito quando se erguem os mortos, e meu pai. O seu compasso aberto mede, milímetro a milímetro, o diâmetro do desfiladeiro e quantifica o número dos vivos no presente. O passado não é certo quando tomado pelo futuro. Os homens viajam, apenas, com uma cobra no coração, mais ou menos profetas, mais ou menos poetas, com um corpo excelso e angular. Pela palavra fixam a pulsação, o silêncio, rebentam a pedra, procuram a origem do lençol freático onde possa ser possível unir a cepa: encharca-se a terra e aguarda-se, procura-se um lugar enxuto, todas as coisas invisíveis ficam no olhar e podem explicar-se, a carpa e o salmão são o peixe esperado, deitam-se as redes, aguarda-se de novo e fala-se, diz-se o que se tem a dizer, sem tempo, sem âncora.».  (p.32)

sábado, 9 de abril de 2011

"Rosa do Mundo"

Faz 10 anos neste mês de Abril, e é obrigatório mencioná-lo sempre que se fala de poesia: Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro, com a chancela da Assírio&Alvim, foi um projecto ambicioso da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, e hoje é-nos indispensável.

Reúne poesia de todo o mundo, desde o ano 1000 até ao século XX, com apenas um poema por autor, textos facilmente localizáveis devido aos cinco úteis índices: de Autores; Culturas/Países/Povos; Traduções/Versões; Recolhas/Selecções e Índice Geral. 

O grandioso empreendimento resulta de um trabalho colectivo dos organizadores, tradutores, especialistas dos locais donde provêem os poemas, coroado com o esmero de quem gosta de fazer livros. O resultado é um objecto vivo onde se ouvem as vozes das civilizações, que desperta paixão, belo, de capa dura forrada a tafetá azul-escuro, protegida com sobrecapa, resguardos das 1919 páginas de conteúdo sagrado impresso em folhas de papel fino, como o das edições da Bíblia.


Cinco textos:

Nessa noite, uma casa, de repente, ergueu-se do chão e partiu flutuando.
Estava escuro e diz-se que um sibilo violento se ouviu, enquanto voava.
A casa ainda não chegara ao destino, quando as pessoas que nela moravam
lhe pediram que parasse. A casa parou.
Não havia óleo de baleia, quando pararam. Então, apanharam neve fresca,
acabada de cair e puseram-na nas lâmpadas e ela ardeu.
Tinham chegado a uma aldeia. Um homem veio até à casa e disse:
Vejam, estão a queimar neve nas lâmpadas. A neve pode arder.
Mas logo que pronunciou estas palavras, as lâmpadas apagaram-se.

Árctico, Esquimós, trad. José Alberto Oliveira, p.p. 147, 148

***
Na gota de orvalho o sol brilha:
a gota de orvalho seca.
Nos teus olhos, o teu brilho:
e eu tão vivo.

América, Aztecas; versão de Herberto Helder p.159

***
Eu não sei se estiveste ausente.
Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Nos meus sonhos tu estás junto a mim.
Se estremecem os brincos das minhas orelhas
eu sei que és tu que te moves no meu coração.

México, Nahuas, trad. José Agostinho Baptista, p.210

***
Nigrim escreveu um livro que não tem qualquer jeito;
Comprei, mesmo sabendo que a obra era mazinha.
Nigrin, desta maneira, tirou duplo proveito:
Da parvoíce dele, e bem assim da minha!

Roménia, Cincinat Pavelescu (1872-1934), trad. Doina Zugravescu, p.1183

***
Tudo o que vês chega de longe: apenas um contorno
ou uma sombra que se desloca devagar. Há gestos
semelhantes a folhas que não caem. Principia agora
a luz a espalhar-se à nossa volta e a verdade torna-se
mais simples. É como um rosto que reconhece a sua idade.

Portugal, Fernando Guimarães, p.1675

quinta-feira, 31 de março de 2011

Celulose, poesia premiada de Paulo Assim

Celulose, primeiro livro de poesia de Paulo Assim, e Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres 2010, reúne 53 poemas curtos de respiração ampla, batidos por ventos vários e inconstantes, tecidos de vozes e ecos, a mostrarem que, pela mão hábil da metamorfose, o alfabeto do barro é inexaurível.

Paulo Assim, pseudónimo de Paulo Carreira, nasceu em 1965. Em poesia, além deste Celulose, tem participações nas I, II e III Antologia de Poetas Lusófonos, das Edições Folheto, de Leiria; em prosa, tem publicado o romance A Quinta-feira dos Pássaros, prémios Paul Harris 2005 e Gaspar Fructuoso 2009.

«Busco a flor das palavras raras, a medicina do seu silêncio. /Busco a flor das palavras simples, o silêncio da sua pureza. /Busco as palavras que não te consigo dizer em voz alta», lê-se em «Este poema é uma montanha», poema que nomeia características da poesia de Paulo Assim e indicia o método do fazer poético. Feita de palavras claras, puras e imagens universais, esta poesia é, todavia, de uma simplicidade ilusória, porquanto a combinação das palavras, a sua urdidura, obscurece-lhe o sentido, tornando-a secreta. Na mesa do poema, a palavra, essa «centopeia» de corpo interminável, é metamorfoseada em frutos que esperam pela faca para serem cortados ao meio, e assim se perpetuarem, uma dissecação secreta, silenciosa e voluptuosa que anima todos os poemas. Ainda, e porque as palavras são sangue e «o sangue é a roupa que nos veste», há que colocá-las no «Estendal», porquanto estas querem-se «ao sol. /A poesia quer-se ao vento». Se a limpidez vocabular possibilita imediata adesão do leitor, o carácter secreto lança o diálogo. É neste dialogismo talentoso e iluminado que surgem poemas como este:


Dizias que eras capaz de imitar uma árvore de fruto.
E como eu não acreditava, um dia fizeste isso: nua,
fincaste-te ao chão e criaste uma cabeleira de raízes, depois
ergueste os braços, abriste os dedos em forma de ramos
e deixaste que as folhas te pintassem de verde.
Absorveste todo o sol no ventre, floriste.
Por fim frutificaste o corpo:
agora és um voluptuoso dióspiro
no frio de Janeiro. (p.18)

No seu exercício de liberdade, a poesia agarra-se com força ao instante, apanha frases no ar que o poeta modela como o oleiro faz à argila vermelha, com todos os dedos «até a lama escorrer como sangue».

Mas «de quantas mãos se faz um pão de argila?», escreveu o poeta Ruy Duarte de Carvalho; Paulo Assim mostra-nos que o alfabeto do barro se faz de ecos e bramidos, e procura desvendar as suas anatomias, dito assim: «Há vozes que se desdobram em línguas de fogo e queimam a garganta /quando se soltam entre quatro paredes: e morrem de claustrofobia/ […] ouvimos sons subterrâneos que vagueiam pelas brechas da pedra/ […] Somos ocos por dentro, somos feitos de ecos, ecos, ecos…». É esta condição de eco que enforma o Eu polifónico, no qual a maioria dos poemas se centra; um Eu que ouve a «música submersa» que embala as «águas dos rios sem pontes» e «as faz enovelar os corpos frementes», os ecos das crianças na aldeia da infância, as vozes dos mortos que lhe falam pelo «murmúrio do vento», as vozes dos antepassados que o «ensinaram a caminhar» em trilhos que vêm dar ao poema: a Avó, «velha andorinha»; a Mãe, com a sabedoria das esperas; o Pai, «árvore e pássaro» e o legado do «relógio de silêncio».

Dissecando os ecos para os alojar na palavra certa, o poema vai-se construindo «mais a sul», onde a memória escava até se reinventar nos cinco sentidos:

Tiveste o canto das cotovias na mão
e os cachos de uvas maduras de fim do Verão,
ceifaste os campos de espigas promissoras
e ouviste o êxtase das velas dos antigos moinhos.
Sabes que o silêncio das vinhas é feito de sol
e sabes que as mãos que colhem os cachos
têm na pele os estigmas de Agosto. Sabes ainda
que os pés que andam e dançam no largo do coreto, os pés
que pisam o barro, o chão, são a primeira língua dos homens:
degustam o vinho antes de o ser […] (p.44)

Se o poema germina do barro e fermenta nas mãos, a noite surge a encaminhar os olhos do poeta que furta o azul nocturno, «cor efémera com o preço dos diamantes /incrustados na cauda rebelde dos cometas /e à qual só os vagabundos dão valor. / (E os poetas)», e acentua o drama da criação manifesto na mão que tacteia a luz arisca das palavras, no som do “poema arrancado a ferros” e no espelho que, ímpio, testemunha tudo: «Olho o espelho e não me vejo. /Vejo a mão vazia avançando pela noite dentro.».

Rica nos processos com que se problematiza, a poesia de Paulo Assim é também habilíssima em enredar o leitor na construção do objecto artístico – «me disfarço de oleiro para me libertar, ou antes /para libertar as peças de cerâmica que se materializam na argila que somos. /Quero pensar que te libertas quando te disfarças perante mim; /por isso disseste: o disfarce é… e partiste como uma bela ave /deixando-me só – à luta com o barro, com a frase» – ao mesmo tempo que lhe mostra o desassossego fecundo do poema ter «vista para um castelo de areia», o que nos remete para estes versos de Manoel de Barros: «Todos os caminhos - nenhum caminho /Muitos caminhos - nenhum caminho /Nenhum caminho - a maldição dos poetas.».

«A força mais guardada que há na luz /só se consente em superfícies raras», escreveu, ainda, Ruy Duarte de Carvalho. As 63 páginas deste Celulose têm o apanágio daquelas superfícies raras, locais dos encontros inefáveis: da palavra com a poesia e do leitor com o poema.


Paulo Assim, Celulose; Lugar da Palavra,  2010
 
© Teresa Sá Couto

domingo, 27 de março de 2011

Resumo da poesia de 2010

No ensejo do dia Mundial da Poesia, chegou ao mercado o Resumo – a poesia em 2010, uma edição da Assírio&Alvim e Fnac, ao preço de 4€ que revertem na totalidade para a AMI. À semelhança do livro editado no ano passado, este Resumo pretende coligir os «melhores poemas publicados» durante o ano que findou; a escolha dos poemas é de José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas.

Entre os 44 nomes de poetas, encontramos Adília Lopes, António Barahona, José António Almeida, Renata Correia Botelho, Vitor Nogueira (que já estavam no compêndio de 2009), Armando da Silva Carvalho, Gastão Cruz, Helder Moura Pereira, Margarida Vale de Gato, Pedro Tamen e Teresa Jardim. Não estão contemplados os poetas Nuno Dempster (que publicou Londres) nem Amadeu Baptista (que publicou O Ano da Morte de José Saramago), o que só se pode aceitar por serem ambos títulos de poema longo.

Em Nota Editorial, assinada pelos quatro autores que seleccionaram os textos, apresentam-se razões para esta «colheita do ano» bem como o desejo da continuidade deste trabalho de divulgação nos próximos anos. Uma ideia, convenhamos, muito interessante, pelo gesto de solidariedade, pelo conteúdo poético, pela beleza do livro e pelo preço que possibilita o acesso à poesia mais representativa que actualmente se produz.

Dois textos:

Enquanto ponto a ponto coso
uma coisa a outra coisa
tornando um o que era dois ou mais
morreram tantas tantas pessoas

e eu também morri
deixando as minhas mãos
e as partes que cosi.
.
Pedro Tamen, p.140

**
O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa Jardim, p.156

domingo, 13 de março de 2011

literaturas ibéricas na Suroeste

A dualidade Portugal e Espanha é afinal o segredo da vitalidade da península ibérica e da sua civilização.
Portugal e Espanha são dois opostos e não dois rivais. Os opostos são complementos iguais de um todo. Este todo está representado geograficamente pela península ibérica e em espírito pela civilização ibérica. Estas são palavras de Almada Negreiros, e é com elas, impressas na contracapa, que nos surge a Suroeste, revista de literaturas ibéricas.
.
Feita em Mérida, e distribuída entre  nós  pela Assírio & Alvim, a revista, dirigida por Antonio Sáez Delgado, é uma edição notável, pelo grafismo, materiais utilizados, textos, fotografias, ilustrações.

Em poesia encontramos textos de Antonio Gamoneda, Fernando Pinto do Amaral, César Antonio Molina, Xosé María Álvarez Cáccamo, Antón Castro, Francisco Ferrer Lerín, Francisco Javier Irazoki, Manuela Parreira da Silva, Jaume Subirana, Ruy Ventura, Juan Antonio González Iglesias e Almada Negreiros com o poema Litoral acompanhado de pintura de Luís Manuel Gaspar.
Em narrativa surgem textos de Mário de Carvalho, Fernando Aramburu, Xuan Bello, Teolinda Gersão, Gonçalo M. Tavares, Possidónio Cachapa, Rita Taborda Duarte, João de Melo e Félix Romero.
Há ainda uma secção de Ensayo – onde, além do texto “Ojeadas al porno”, de Javier Codesal, se abordam Miguel de Unamuno e Antero de Quental, por Steffen Dix, Fernando Pessoa e Iván de Nogales, por Pablo López, David Mourão-Ferreira, por Joana Varela – e um escaparate de libros com críticas a alguns títulos editados cá e lá, durante 2010.

A Suroeste nº1 encontra-se nas melhores livrarias e custa 12 €.
Na fotografia, imagem da capa, contracapa e interior.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

"Nome de Guerra", uma ração de combate

Sempre no destaque dos dias está Nome de Guerra de mestre Almada Negreiros. Mais uma prova da sua natureza inesgotável está o gesto da Fundação José Saramago que tem a decorrer o Prémio de Fotografia “Retratar um Livro” (ver no link), uma iniciativa apoiada pela Assírio&Alvim, editora deste e doutros títulos de Almada.

Nas suas páginas encontramos uma ração de combate ao marasmo, à vida insonsa à apatia que nos engole. O seu estandarte é a rebeldia, a arma é a acutilância vocabular, a originalidade e um humor delicioso compõem a estratégia. Haja um Nome assim que nos coaja a gritar «Basta, pum basta!».

A efervescência narrativa expande-se por sessenta e quadro capítulos curtos, que variam entre meia e quatro páginas, num total de 156 páginas. Nome de Guerra foi escrito em 1925, e os seus capítulos foram editados separadamente em várias publicações. Em 1938 é feita a primeira edição do romance, na Colecção de Autores Modernos Portugueses, pelas Edições Europa. João Gaspar Simões, que organizou e dirigiu a edição, escrevia no prefácio que o livro mantinha a actualidade do tempo em que foi escrito. Dizemos o mesmo, hoje. Em 1956, a Ática lança a 2ª edição com o subtítulo Judite.

O campo onde se trava este combate é a vida, ou o seu jogo de verdade e mentira, realidade e ilusão. Antunes é o protagonista «com um desequilíbrio entre a imaginação e a realidade», que «tentava agarrar a vida com as mãos, mas ou não tinha mãos para isso ou havia outras mãos metidas no assunto». Por ele somos levados para o palco da existência individual e comunicação com os outros: «a comunicação entre os humanos faz-se pela admiração(…) não há melhor compensação para a nossa vida do que a admiração dos outros(…) mas também não há pior momento humano do que aquele em que nos admiram sem acertar no nosso exacto valor(…); a pessoa verdadeira prefere inimigos autênticos a admiradores sem pontaria».

A Antunes aparece «uma Judite que não se chama assim» com um passado de equívocos e um presente sombrio. Ela desafia-nos à reflexão sobre «ser anónimo e proceder como anónimo» e se «há necessidade da mentira para defender a verdade». Judite e Antunes entram na intimidade um do outro «como ladrões que não sabem exactamente o que vão roubar», e as «suas intimidades são devassadas um pelo outro». Vão-se movendo no jogo inusitado e perverso da vida, de encontros e separações, pois «É sempre assim, temos sempre de perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós.». Vale que «Os olhos da nossa memória vêem melhor que os nossos» e os defeitos da Judite começam a ser notados por Antunes que assim constata estar a "paixão" «a passar-lhe ou então era ele que estava já a ajudar-se para lhe passar a Judite».

A coloquialidade da escrita é tal, que as palavras tornam-se-nos audíveis, com as inflexões da ironia, do burlesco, da consideração obviamente óbvia. E não é raro respondermos a esta conversa bem montada, e rirmo-nos com ela. As questões levantadas, directa ou indirectamente, pelos títulos dos capítulos, e a cada passo da leitura, são um desafio sobremaneira apelativo:

«Cada um vai atrás da sua ideia, ou é a ideia que vai atrás de cada um?»; «Os lugares fazem mudar as pessoas ou o ar é o mesmo por toda a parte?»; «Quanto mais se sabe mais vai ficando por saber»; «quando se passa de um lugar para outro, levamos em geral o primeiro lugar connosco»; «os palermas que não percebem nada da vida são piores que os malandros»…

O pensamento humano quer exemplos pessoais de pensamento, «o trampolim do salto mortal» pois só ele tem o «poder de restituir a alma aos apavorados». Este livro, como um solavanco, acorda-nos para verdades que somos. São páginas adestradas contra a pequenez do quotidiano, contra a cobardia de não nos vermos, que terminam com uma moralidade: «Não te metas na vida alheia se não queres ficar lá». Indispensável ler ou reler.

José de Almada Negreiros, Nome De Guerra, Assirio & Alvim, 2001

© Teresa Sá Couto