sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Tempo e Memória" de Albano Martins, no Porto


A Exposição Biobliográfica Tempo e Memória, do Poeta Albano Martins, vai estar patente no Porto, de 25 de Maio a 1 de Junho de 2013, no auditório da Fundação Engenheiro António de Almeida, à Rua Tenente Valadim, número 325. A inauguração está marcada para as 16h00 de dia 25, e estará aberta ao público, de segunda a sexta, entre as 14h30 e as 18h30, e sábado, dia 1 de Junho, entre as 14h30 e as 17h30.

Perto de completar 83 anos (em 24 de Julho próximo), o poeta beirão volta a contar com o carinho da cidade que o acolheu há mais de 40 anos, onde mergulhou raízes, criou amizades e a sua poesia medrou, como o próprio refere no texto Sou um homem do sul, escrito em 2007 e publicado no livro A Palavra Perfeita (ver link). É  nestas quatro décadas que Albano Martins atinge o mundo inscrevendo nele o seu nome entre os grandes poetas universais, tendo poemas traduzidos  em espanhol, catalão, francês, italiano inglês, chinês (cantonense) e japonês; é neste espaço de tempo que traz para língua portuguesa poetas clássicos gregos e latinos, Pablo Neruda, entre tantos outros.
«Relógio: a caixa /dourada onde o tempo /vive aprisionado.», lê-se em Estão Agora Floridas As Magnólias, o mais recente livro de Albano Martins; é da mais pura e dourada filigrana a memória que o poeta nos apresenta nestas exposições.


Recordo que a exposição Albano Martins, Tempo e Memória, onde se narra, com documentação vária, a vida de letras e afectos do poeta, esteve patente no Casino Fundanense, Fundão, de 27 de Outubro a 25 de Novembro de 2012, no ensejo do tributo que lhe foi prestado no Paul (na Casa da Cultura José Marmelo e Silva) e no Fundão.


  (Albano Martins, à esquerda, na Casa da Cultura José Marmelo e Silva e, à direita, pormenor da exposição Tempo e Memória, no Fundão - clicar na imagem para aumentar)

Se a exposição da invicta  recupera a exposição do Fundão, surge, todavia, mais alargada, nomeadamente com a inserção de fotografias, desenhos, pinturas e esculturas de e produzidas por amigos de Albano Martins ao longo dos anos,  marcas de diálogo e cumplicidade na jornada da vida.

Ainda, na Homenagem do Fundão foi lançado o Uma Vida Interior Na Escrita Da Paisagem, um pequeno belo livro editado pela Câmara Municipal, que reúne duas abordagens críticas da obra de Albano Martins, testemunhos, dados biográficos, bibliográficos e fotografias, tudo contributos para o conhecimento do poeta comprometido com o humano.

(à esquerda, livro de testemunhos lançado no Fundão; à direita, Fernando Paulouro, Perfecto Quadrado, Albano Martins e Paulo Fernandes, no Casino Fundanense)

Deixo um extracto do texto inédito de Albano Martins, publicado no Uma Vida Interior Na Escrita da Paisagem:

«[...] foi este chão, o chão da Rascoa, que me deu a seiva, me definiu o ser e moldou o carácter. Dele vêm o sol que percorre a minha poesia e o sangue que sustenta as flores que nela medram e vicejam. Depois  do leite materno, foram os frutos da terra e as águas da Meimoa que me alimentaram a infância. Eles e o vento que por ali passava às vezes a galope, levando consigo as folhas das árvores, a espuma das horas e a poeira dos dias.».

Outras imagens da Homenagem no Paul e no Fundão:




Ver textos meus sobre Albano Martins, AQUI

sábado, 30 de março de 2013

Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Nuno Dempster


 Texto editado no sítio da Orgia Literária , a 26.03.2013.
«Entremos pelo mito de Inês dentro». Chame-se o irreal, o que se quer «do exílio da rainha degolada», e desvie-se o poema para a verdade do presente. O poema longo Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, de Nuno Dempster, sabe que as palavras criam realidades e mostra-nos que o que «Interessa é o olhar com que fitamos»: um olhar que liberte a alma de que fala o mito, limpo da ilusão mundana e de denúncia da vida informe dos homens.
 
Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo compreende um conjunto de poemas, na justeza e vivacidade do decassílabo, mosaicos unidos pela memória e pelo olhar, entretecidos por um vaivém incessante, pelo que devem ser lidos como um poema longo. A indústria desta escrita conta com o efeito estético da clareza vocabular, recorrente em Nuno Dempster, que dá ao poema dinamismo, fluidez, estremecimento, desagregação, inquietação; as palavras são depuradas e rigorosas ou, mais exactamente, como é dito pelo autor no poema «Poética», incluído no seu livro Dispersão, Poesia Reunida, de 2008, as palavras são «tão exactas /quanto é possível ser exacto um pássaro /que não é bem pássaro», e «da experiencia íntima se libertam /e iluminam e falam as palavras, /e tão cuidadosamente que esse pássaro /torna a ser, daquela imagem, o pássaro /que voa, verdadeiro, no poema.» (p.235).
 
 
 Na construção da verdade, imaginar é ver e ver é conhecer: o sujeito poético vê «cenários apagados» de um tempo longínquo, imagina a vida interior da qual a História só «escreve equações», ouve diálogos que não vêm em «nenhuma das crónicas do reino» e recria a «poesia, /que se gera no sentido inverso à vida: /Inês num paraíso que não há, /caminha virtual entre poemas.». Se ver é conhecer, conhecer é agir: o que interessa de Pedro e Inês ao poema é a sua condição de clandestinos, porquanto «tudo nos garante que na vida/ foram somente humanos e, por isso,/ menos sentimentais do que se sonha» (p.32); soltam-se os mecanismos para dar voz ao grito, à «urgência da denúncia» que bate nas «têmporas» do mito e do poema: o intenso presente resgata Pedro e Inês da «meia luz da lenda», «o sol devolve-os ao quotidiano» presente, o poema move-se de um tempo para outro, de um lugar para outro, de um corpo para outro: «Pedro e Inês estão vivos e caminham/ pelas ruas urbanas, são a imagem / que salva da tristeza quem não vive /como eles se entregaram: doidamente.» (p .30).

Heresia há seiscentos anos, o amor louco, trangressor, surge no presente como impossibilidade: «Pedro e Inês são o exemplo de que só /um grande amor exige amor maior, /e assim a perfeição da vida humana, /não o quotidiano que nos rouba /a existência de modo tão anónimo./”Pois”, respondo. “Percorram a cidade / e entrem em um dos prédios suburbanos /à hora do jantar. O cheiro a fritos /é coisa que não liga com amor /de príncipes. Se tanto, Pedro e Inês /são um casal de amantes sem história /que chegou de autocarro e ninguém viu.” (p.31).

Do par dos amantes do mito, é Inês, «ícone do Mito», «razão do Mito», a «nossa Matriz», que detém uma espiritualidade superior, uma verdade oculta que o texto aclara: Inês, a quem deveria passar «pelos olhos uma sombra, /como sucede a todas as mulheres /em dias negativos para o amor», representa «a vida sucessiva das mulheres», é a mãe infeliz que, «ajoelhada, chora pelos filhos/e por ela», numa prece onde «também estão as outras/mulheres que morrem por amar», Inês «é o exemplo da morte delas todas: habitam o poema, reclamando: /”Testemunhem-nos sempre com revolta». (p.49). Se o poema se assume como voz de revolta, também incita o leitor à reflexão de que sem se repensar o amor não haverá espanto: «Senta-te no silêncio das arcadas /místicas da abadia. Frente a Cristo, /vai pensando nos ossos de Pedro e Inês / […] /Medita então na morte dos amantes / […] e pensa o grito /que alguém deixou no livro dos profetas. /Sai então do mosteiro, observa a praça /[…] Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê./ Um a seguir ao outro, a morte teve /a carne luminosa dos seus corpos /e hoje os ossos antigos nada dizem: /o presente é o largo do mosteiro/ e a lojista ao fundo que dispõe /a tralha de recuerdos sempre iguais, /e nada irá surgir ali que espante.» (p.57).

O próprio eu acaba por ser envolvido nas malhas do olhar severo e amargo que resulta do conhecimento da realidade, característica que atravessa toda a poética de Nuno Dempster. «Criei-te de alegrias e tristezas: /de tantas circunstâncias, tantas coisas. /Já não és senão como te sinto.», escreveu Konstandinos Kavafis. Em Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, a memória desenha sombras que já não são as das figuras do mito, mas as de uma interioridade avassalada pelo desencanto, pela descrença, pelo niilismo: «com as palavras nuas deste tempo, /forma-se o desencanto dos poemas/ e vai-se refractando a luz da lenda, /até sobrarem só coisas vulgares», ou, ainda, «As lendas são ingénuas como sóis /em um caleidoscópio adolescente […]/Agora que perdi todo esse encanto /em ondas sucessivas de descrença […] /Pedro não a acompanha, não o vejo,/afastou-se de Inês que vai morrer, /não sabemos ao certo porquê. Usa-se, /na história dos compêndios escolares, /a mesma manha impune das notícias: /esconde-se a verdade em verbos ocos /e mata-se nas frias madrugadas.» (p.46). O futuro é, assim, uma figura de ausência, interrogação e até dissolução, esta presente na diáspora com peso de exílio: «quem sabe um dia emigrem como povo /e fiquem pelos livros sem voltar».

Ainda no contexto dramático da existência, o poema, com olhar largo, nomeia os assassinos do amor: a vida, a guerra, a indiferença, o desprezo, a falta de esperança, a descrença, o desencanto: «[…] já nem se ouve o grito degolado /com que a vida termina de repente. /Há muito se tornaram em costume. /Assim Inês, assim os outros todos /que a História não regista. Todavia, /vivemos sobre mortos que nos gritam /quando acordam. Ines e Lorca gritam /(“se le vio, caminhando entre fuziles”), /grita ainda no Prado o homem de Goya, /longos versos de Sena aos fuzilados. /Revolvo-me ao ouvi-los, Inês bela. /Não conheço justiça que os redima, /e, com eles, os outros mortos todos /que nenhum deus salvou da madrugada.» (p.50). «Seiscentos e cinquenta anos passados,/ tudo pode mudar-se», diz-nos o texto que, estribado na memória, cumpre com mestria a viagem pelo real transportando a consciência de que a literatura pode e deve ser inovação. A partir de agora, qualquer incursão artística ao mito inesiano tem de passar, obrigatoriamente, pelo poema Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, de Nuno Dempster.

Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Nuno Dempster, Edições Sempre-Em-Pé, 2011
Outros textos meus sobre livros de Nuno Dempster, AQUI
 
© Teresa Sá Couto

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Inútil dedicada à Morte

Disponibilizo aqui o meu texto que serviu de base à Apresentação pública da revista  Inútil, número quatro, que aconteceu na fnac do Chiado, em Lisboa, no passado dia 25 de Janeiro de 2013.

(imagem da capa e fotografia do interior, esta a duas páginas, de Rui Aguiar - clicar para aumentar)
 
A Morte

Detendo-nos na capa, divisamos os símbolos próprios de um percurso de iniciação: em fundo branco, uma porta branca, cor da lua (símbolo de morte e regeneração), uma porta fechada, como o luar é a tampa do sepulcro, na formulação de Teixeira de Pascoaes que diz, num poema, medir os anos, a sua idade, por metros de profundidade sepulcral, de lá «ergue-se, como espectro, inclina-se sobre ela para ver-lhe o fundo, sente vertigens e retira os olhos espantados». Este número 4 da revista Inútil propõe-nos um caminho iluminado pelos olhos espantados dos autores que nomeiam a morte, assim esconjurando-a. Espectros, principiemo-lo pelo fim, uma subtileza técnica, e também uma subversão, deste número que pretende escandir a morte escandindo a vida.

Sónia Baptista aponta-nos o chão que nos acolhe, a terra que «Não faz na morte distinção» entre os seres vivos, e fala-nos também da água, símbolo da vida, mas também do abismo: «Peixe vermelho /na água desafogado para cima /tornou-se salva vidas /boiou para baixo /encarnado”.

A nossa vida é uma dança de espelhos, porque eles dão-nos a terrível duplicação visual da realidade, a verdade de que a vida é também morte, e vemo-nos reflectidos nos esqueletos da ilustração da página 7; ouvimos, também, os sinos que, como relógios, marcam-nos as pulsações; ouvimos o ensinamento dos sinos de Edgar Allan Poe, o alarme dos sinos, o seu uivo, “carrilhões afinados” que marcam e regem o tempo com aprumo, interpretando o futuro, os sinos que “plangem aos finados”. Bénédicte Houart fala-nos de «espelhos caseiros», de sinos e do espírito dos mortos que nos habita: os espelhos com o seu hábito antigo de se estilhaçarem, «um ruído familiar» como outros que ouvimos no decorrer dos nossos dias: «O estilhaçamento regular dos espelhos. Compassando o tempo, como os sinos; não as horas ou as meias ou os quartos, mas o tempo que demora para que um rosto se componha e se desfaça, se recomponha e volte a desfazer-se. Isto é a vida. E os espelhos continuam esse trabalho bem depois da morte de quem neles se mirou, e se espantou, talvez, por existir.»; aludindo ao movimento que urde a vida, escreve Ricardo Tiago: «há dias em que morro /e a terra move-se. // nos dias em que há mortos /eu durmo / e a terra move-nos.»; na soberba fotografia de Rui Aguiar, ressoam, como sinos, as palavras de Herberto Helder: «Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta /no interior da terra. Somos / um reflexo dos mortos».
 
Transitoriedade, efemeridade, ilusão da vida estão metaforizadas ao longo de todo o compêndio, como na imagem do cadáver de um pássaro, de João Braz, no rosário de laborioso crochet de Paula Fernandes, na ilustração do quimérico banquete da vida, de Catarina Sobral, nas rendas e véus puídos do tempo desfeito, nas fotografias de Mami Pereira.
 
Afinal, “Tudo é soma na natureza humana.”, escreve Nuno Brito, e Casimiro de Brito invoca o Tudo da soma dos poucos com que se dissipa a vida: o Tudo é o Amor, porque nada mais fica. «Ama agora. Dou tudo, dou-me todo e não recuso nada.», lê-se. O motor que impulsiona o ser para o exterior será o coração , pois ele, na formulação de María Zambrano, “é o símbolo e representação máxima de todas as entranhas da vida”,  portanto uma “interioridade aberta” porque ao oferecer-se não é para sair de si, mas para levar para si tudo o que vagueia fora. As ilustrações de Rui Vitorino Santos evidenciam um corpo aberto pelo coração donde saem árvores; a ilustração de Sofia Morais traz-nos um homem de coração na mão mirando a sua sombra torturada ou, ainda, e finalmente,  o Tudo, o Amor eterno de Pedro e Inês no corpo arborescente de Ana Lacerda, da fotografia de Amir Filho.
 
Com fotografias e textos, André Gago, o convidado central, mostra-nos que a vida é a máscara da morte. Fixando os olhos nos olhos da morte, movido pela curiosidade «de ser até não ser», diz-nos André Gago: «Agarro-me muitas vezes à ilusão de estar vivo, porque as minhas mortes são devaneios. Nesses devaneios da morte, soletro os nomes amados, e acabo por me encontrar a salvo num rochoso pico de audiência íntima, num clímax de enredo que promete a sequela. Adio o desfecho, como quem quer escutar ainda o silêncio que sobrevém à paragem do relógio. Quero espreitar o mecanismo da morte por detrás do pano, porque sei que ela é puro teatro.».
 
«Cara senhora, és criminosa», escreve Maria Quintans à voluptuosa, altiva e inexorável senhora morte da fotografia de Edgar Keats. A reacção ao crime está patente nas ilustrações convulsivas de Bruno Corte, num mapa de tensões a fazer lembrar-nos os registos pulsionais de Henri Michaux, ou nas ilustrações de Joanna Latka, murais com olhos escancarados e bocas negras em corpos moles, bocas negras de silêncio à procura da palavra dura. A palavra suspende o tempo e, assim, preserva-o. É isto que nos diz Maria Quintans: «a palavra é uma folha nova de consciência quente na sofreguidão do desgosto até que caia em imagem.». Palavra confunde-se com “mãe”, a que “nunca se despede”, que nunca diz adeus.
 
Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha fazem da Inútil revista um objecto mágico de palavras e imagens; «mágico, poeta e maluco são palavras sinónimas», disse, e ainda, Teixeira de Pascoaes. Aqui confluem gerações de artistas, de estilos e sensibilidades diversas, e dá-se visibilidade a novos autores, (até se tira do anonimato a «Noite Escura» de um poeta encontrado ao acaso nas veias do Bairro Alto). Aqui gera-se oxigénio imprescindível para animar o asfixiado panorama cultural português.  
 
© Teresa Sá Couto

domingo, 23 de dezembro de 2012

Três momentos da poesia europeia por Albano Martins

Está nas livrarias o belíssimo volume Três momentos da poesia europeia (De Safo e Píndaro a Ungaretti e Salinas), com selecção, tradução e notas de Albano Martins, publicado pelas Edições Afrontamento. Recordo que o poeta português e tradutor de poetas recebeu, no passado dia 12 de Dezembro, o Grande Prémio de Tradução Literária 2011, da Associação Portuguesa de Tradutores /Sociedade Portuguesa de Autores, pela tradução da Antologia da Poesia Grega Clássica, também com a chancela da Afrontamento. Noto, ainda, que a tradução do Canto Geral, de Pablo Neruda, publicado pela extinta Campo das Letras, em 1998, deu a Albano Martins, em 1999, o Grande Prémio de Tradução A.P.T. /Pen Clube Português e, pela tradução de sete obras do poeta chileno, o governo do Chile conferiu-lhe, em 2004, a Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de Grande Oficial.


(na imagem, Albano Martins na sua mesa de trabalho, fotografado por mim em Agosto último)

Na presente antologia, coligem-se dez poetas gregos arcaicos (Arquíloco, Álcman, Mimnermo, Alceu, Safo, Íbico, Anacreonte, Teógnis, Simónides, Píndaro), dez poetas italianos contemporâneos (Umberto Saba, Dino Campana, Vincenzo Cardarelli, Giuseppe Ungaretti, Eugenio Montale, Salvatore Quasimodo, Raffaele Carrieri, Sandro Penna, Cesare Pavese, Antonia Pozzi) e cinco poetas da geração espanhola de 27 (Pedro Salinas, Jorge Guillén, Gerardo Diego, Rafael Alberti, Manuel Altolaguirre). No final do livro, encontramos notas biográficas e bibliográficas de cada um dos poetas.


três poemas:

Não entendo a luta dos ventos. Rola
uma onda daqui, outra dali. E nós,
no meio, somos arrasados
com a escura nau, duramente
sacudidos pelo forte temporal. Já a vasa
cobre o pé do mastro, toda
a vela é rasgada e dela
pendem enormes farrapos. Os cabos
cedem, e o leme...
Firmo os pés nas enxárcias
e apenas isso me mantém são e salvo ...

Alceu, p.17

***
Não sei onde as gaivotas fazem o ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
Como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.

Vincenzo Cardarelli, p.77

***

Enganou-se a pomba.
Enganava-se.


Ia para norte, foi para sul.
Julgou que o trigo era água.
Enganava-se.

Julgou que o mar era o céu;
a noite, a manhã.
Enganava-se.


Que as estrelas eram o orvalho;
o calor, a neve.
Enganava-se.


Que a tua saia era a tua blusa;
o teu coração, a sua casa.
Enganava-se.



(Ela adormeceu na orla;
Tu, no alto de um ramo).

Rafael Alberti, p.159



 Ver AQUI outras rubricas sobre Albano Martins.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Poesia de Francisco Duarte Azevedo

O livro de poesia As Habitações Interrompidas, de Francisco Duarte Azevedo, foi lançado no dia 27 de Novembro de 2012, no belíssimo Museu da Música, no Alto dos Moinhos, em Lisboa. O livro tem Prefácio meu e a Apresentação Pública esteve a meu cargo. É o texto do Prefácio que aqui vos deixo. Divulgarei oportunamente o texto que serviu de base à sessão do lançamento.
 
 
(na imagem, da esquerda para a direita: Francisco Duarte Azevedo, Teresa Adão - escritora e directora da editora  Edições Esgotadas - ,  Emília Noronha - Presidente da Junta de Freguesia do Alto dos Moinhos - e eu. A fotografia é de Paulo José Coelho, da editora Edições Esgotadas.)
 
 

Uma morada de sal e luz

 
é da palavra errante que
devemos falar, da distância
das coisas ou da cor do mar.

                        João Miguel Fernandes Jorge

 
 Diplomata de carreira, com a condição de errante pelo mundo, Francisco Duarte Azevedo busca na palavra literária uma habitação na habitação interrompida. O pequeno livro de poemas Os Ícones, de 1998, uma edição búlgara com o patrocínio e apoio da Associação dos Luso-Falantes na Bulgária, iniciava a catedral dessa demanda; o seu romance de estreia, O Trompete de Miles Davis, de 2011, talhava excertos de prosa poética fulgurante; neste Habitações Interrompidas, Francisco Duarte Azevedo regressa «à intempestiva forma caótica do silêncio», à água, «às linhas que atam / (como a chuva) / o corpo às algas do mar», ancora-se no sal da deriva e encontra refúgio na luz grande do mar.

«O espírito do pintor deve assemelhar-se a um espelho que adopta a cor dos objectos e se enche de quantas imagens tem diante de si», defende Leonardo da Vinci no Tratado de Pintura. Francisco Duarte Azevedo cruza a estética da poesia com a estética da pintura num canto que urde a existência interior do sujeito que «interpreta o mundo» e «luta contra as sombras/dos fantasmas, por uma habitação/não interrompida». A arte poética de Habitações Interrompidas carrega um trabalho apurado sobre a emoção e a memória, acto de buscar e conhecer, recorrendo a uma voz simbólica que interroga interrogando-se, a um olhar dinâmico que, como janela da alma e espelho do mundo, provoca, recolhe e deposita toda a matéria no corpo do poema, para que a memória sobreviva.

Como com a palavra, um quadro é feito de «pequenos nadas», pinta-se «com a argamassa /dos detalhes que preenchem /a vida», um quadro «Intervém», nele está o grito de liberdade dos emparedados, «os muros das habitações/transitórias», «os séculos da memória /e as histórias das aldeias /dizimadas», um quadro «denuncia o tempo /traz a memória nas mãos», «um quadro é ternura /banhada pelas manhãs /de luz», «É espaço rendido à leitura». Sobretudo, e sendo espaço de liberdade e de busca, «Um quadro é espaço vedado à morte» ou, dito ainda assim: «Procuro o meu ninho/ no aconchego/da brancura de uma tela.// […] uma simples cor pousada /como a pegada de ave /no reflexo das águas, /rasgam os sulcos por onde /seguirás na direcção do mar // Eis a claridade /que segue os meus passos /no percurso /entre a vida possível /e a morte provável».
Contra a morte, está este canto lírico de um «Ser feito de mar» que lança ao mar todos os seus textos poéticos, para que o «sal e a luz» temperem as palavras. Também as razões são claras e assim enunciadas: «Nunca possuí um lugar a que chamasse /habitação permanente e onde o mar / me surpreendesse. Porque o mar é o berço /desta habitação, o lugar onde voo/ sem asas e onde escuto a tua voz». E «Tudo voa» nesta poesia que se problematiza a si mesma, cônscia até da fugacidade do traço na página: o «poeta é amador das palavras corroídas pelo tempo», a poesia «é simples passatempo», «Uma voz vazia, a da poesia» ou, ainda: «trago nada nas mãos / a não ser um livro de símbolos, /um manual de preces /e a voz sagrada do tempo /beijando-me as faces». É da voz do silêncio que aqui se fala e da capacidade do sujeito dar-nos a ouvir o que escuta, silêncio que é a casa do ser e do nada, sendo esse nada a plenitude do ser. O vazio é, afinal, o lugar do pleno. É esse silêncio iluminado que encontramos neste livro de poemas «como uma janela/ voltada para o sol» que inunda o mar, donde o sujeito «Invoca a terra, as aves e todos os animais perdidos na floresta», à sua semelhança, «embebe de sonhos a fragilidade dos seres, comete os sentidos/ na espuma do tempo», escuta e dá-nos a escutar a voz vigilante da memória na «zoada dos búzios», nas janelas que «desvelam/ os segredos na água» e o corpo da palavra, janelas que, na ânsia de horizonte, se rasgam em varandas que dão para o mar adejado de gaivotas, varandas a quem o sujeito pede que lhe devolvam «a luz e toda a poalha» do «azul profundo» e infinito.
«Entre um quadro e o infinito» há, pois, a luz que, ávida, traça as rotas de uma viagem vital, espargindo na brancura, da tela ou da página, cores incandescentes com que se pressentem silêncios: «As minhas cores /sobre a tela transpiram /as insónias dos pássaros». Na «senda dos limites», o sujeito detém-se na voz ilimitada de uma poesia habitada de asas: «porque é afinal para ti que corro /no limite da solidão», lê-se, solidão que se vai fundando em metáforas e hipálages. É preciso fixar a luz efémera das manhãs efémeras, a «luz deslumbrante /da claridade do mar», «luz estonteante» onde «aporta /o sussurro do mundo/ e a navegação silente», a luz que «madruga» os lábios, que «amornece» o corpo «absorvido no calor /de um imbondeiro», a luz que testemunha «o abraço à luz do dia /a uma almofada vazia», a luz que esclarece os contornos do corpo da palavra, a luz que consome as trevas e ilumina a ternura. No centro de toda a ternura estão as mãos. Elas retêm a febre e a luz, levedam o silêncio, «A polpa dos dedos /tacteia a pele da poesia», as palmeiras lêem e dedilham com facilidade a líquida e secreta mensagem, num grito de vida: «Sinto as fibras do meu corpo / a latejarem de poesia e /já não posso parar. Deixei /de comandar a minha mão. /Ela move-se por um impulso /azul que escorre, líquido, /nas páginas de um caderno /de notas.». A recolha da luz na página surge magnificentemente nos poemas narrativos dos pescadores na sua faina: «os pescadores lançaram as redes e recolheram / o mar dentro de um círculo amarelo. Nele escutei tua voz /que um pássaro inquieto / me trouxe até ao varandim /onde poisou num breve aceno /de asas e ternura. Entre ele / e o mar ficou apenas /a distância de um sopro.», e, ainda, «Os pescadores regressaram /com os seus círculos amarelos /e cercaram o mar. Depois,/ puxaram as redes e – com / elas – o mar para dentro dos/ seus barcos. E o mar, na sua/ tranquilidade líquida,/ deixou-se levar. As palmeiras /afagaram o suspiro /da ave que se aquietou /no topo de uma habitação./ O mar reconheceu-te /e prometeu enviar-te /a chuva na próxima estação.».
Na solidão desta poesia, reina o tu secreto – cuja ausência configura o vazio do sujeito, dá plasticidade e luminosidade à composição poética – que é voz, confidente, interlocutor, cúmplice e espelho do eu. A construção do tu é o resultado da «obsessão pela luz». Um tu que é sal, azul ou verde rutilante das esmeraldas, «zoada dos búzios», «razão de respirar» do sujeito. Ao tu, o sujeito pergunta «Escutas?», «Sentes?», e roga: «Espera serenamente a mensagem/ do silêncio […]/ deixa que a chuva /se torne a flor de sal /que alimentará a minha voz.»; um tu que ouve as perguntas e, em murmúrio sensual, impulsiona o canto inquieto e fortifica a morada almejada: «Entre um muro /branco rodeando a colina /sobre o mar e o caminho /das palmeiras e baobás /que envolvem as areias / na maresia, estás aí. /E é tudo o que preciso saber.».
Poesia corpórea, táctil, sensorial, com necessidade de ver, cheirar as flores e sentir-lhes a respiração – por isso «as flores pintadas numa tela» deixam de ser flores – , tem de questionar a relação com o divino: chama-se por um Deus «que chora como a humanidade», «hirto e humílimo, /como se fosse homem enjeitado /na sua própria mátria», um Deus cuja mão deveria ser de «humana matéria».
No «exercício implacável» da criação, as mãos desta poesia de experiências acumuladas pintam a paisagem, escrevem a temporalidade com o estilete da memória, preenchem a habitação transitória; «a ausência é contemplar, /à luz das manhãs /os muros brancos rasantes/ao mar onde a voz do Profeta/ se expande dos minaretes», e «o instante de contemplar/ desnuda a poesia». Munido de hipálages – «Neste mar senegalês /revejo a luz do mar /de Lisboa, ancorada /à solidão / no cais das colunas» –, o sujeito navega pelas próprias artérias navegando pelo mar interior da cidade de Lisboa, a «cidade das mil colinas», de «telhados/ pintalgados de gatos e pombos», com «varandins /de manjericos e lençóis /esvoaçando como bandeiras», «avenidas percorridas /à luz mortiça das tardes de chuva», «colinas onde as aves habitam», «perfil das gaivotas atiladas /no cais das colunas», acusa a incapacidade das palavras, dos símbolos não desenharem «o vento e as mãos /tecendo a lua /numa rua de Lisboa», e reage num gesto de evasão para o futuro: «tocaremos a poesia nos /miradouros» ou, ainda, «pela madrugada, voarei /na direcção do mar em busca da solidão.».
«voltarei um dia /para te buscar / entre os búzios», lê-se neste Habitações Interrompidas em versos que atingem o futuro deixando rastos do presente naqueles dias que virão. Resta-me dizer que o leitor da melhor poesia sempre aguarda o regresso da palavra desassossegadamente iluminada, como é esta de Francisco Duarte Azevedo.

Teresa Sá Couto
Lisboa, Julho de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Adeus de um homem livre: Manuel António Pina

Manuel António Pina, Prémio Camões 2011, partiu. Deixo a minha homenagem ao homem das letras e da cidadania.


O Tesouro é um hino à Revolução dos Cravos, um Tesouro duas vezes: por trazer para tão perto um país tão distante; por, com palavras claras e sábias, ensinar às crianças, e relembrar-nos a todos, o valor essencial à vida: a Liberdade – «A liberdade é como o ar que respiramos. Só quando nos falta, e sufocamos cheios de aflição, é que descobrimos que, sem ele, não podemos viver…».
O Tesouro é um
livro com um pássaro azul no seu interior, que se cumpre e se liberta em páginas mágicas, prodigamente ilustradas por Evelina Oliveira; quem detiver este Tesouro garante a imortalidade das asas.


 Contar aos mais novos uma história não inventada, a do seu país, Portugal, que outrora se chamou “País das Pessoas Tristes”, é possibilitar-lhes a inscrição da sua identidade e projectar-lhes a sua missão: «E o tesouro pertence-te a ti, és tu que agora tens que cuidar dele, guardando-o muito bem no fundo do teu coração para que ninguém to roube outra vez.». Para isso, explica-se o medo, a violentação do silêncio que nega o homem na sua existência social e pessoal, e o torna infeliz, solitário e triste: as «Pessoas falavam baixo como se um segredo terrível as amedrontasse.»; tinham até medo que «alguém pudesse ler os seus pensamentos e sair da sombra para os castigar por causa deles.».

São explicados os polícias por toda a parte, «não policias bons, que orientam o trânsito e prendem os ladrões, mas para vigiar as pessoas e impedir que elas falassem entre si; policias nas fronteiras para não as deixar sair; até policias que «abriam as suas cartas e ouviam as suas conversas para descobrir o que diziam e o que pensavam, e que as perseguiam e lhes batiam se elas não dissessem nem pensassem o que eles queriam que dissessem e que pensassem.».

Fala-se do destino minuciosamente traçado por homens poderosos que construíam a sua causa com desprezo pela causa de cada um: os meninos e as meninas só tinham acesso ao que não era proibido, não conviviam, e aprendiam em escolas separadas. Aos meninos esperava-os a guerra, onde eram obrigados a matar sem perceberem porquê.
Apresenta-se a felicidade, o dia em que se reconquistou o tesouro, que a gente de palmo e meio hoje tem, o dia em que se soltou o grito de "Viva a Liberdade", pois os «soldados arrancaram o tesouro das mãos dos ladrões».

As ilustrações compõem os tons do estertor psicológico, num jogo pictórico que desafia sensações; a coloração forte de um país luminoso contrasta com o negrume da fisionomia das almas e o interior sombrio, “sustido e clandestino”, das habitações. A cor retoma a pujança da alegria no final da história, com a ansiada Primavera, com a reconciliação do povo com as cores da pátria, com o júbilo da Liberdade resgatada. São páginas para as crianças desatarem os seus "porquês?" e para nós as ajudarmos a construir as suas respostas.

Este O Tesouro, de Manuel António Pina, teve a 1.ª edição em 1994, pela Associação 25 de Abril e pela APRIL, com o alto patrocínio do Presidente da República, o Dr. Mário Soares.
Em 1999, assinalando os 25 anos do 25 de Abril, O Tesouro deu origem ao filme Se a memória existe, de João Botelho, (selecção oficial da secção New Territories do Festival de Cinema de Veneza de 1999).



© Teresa Sá Couto

domingo, 30 de setembro de 2012

Revista Duas Margens

Está disponível on line o número 2 da imprescindível revista Duas Margens. Editada por Vítor Quelhas, José Guardado Moreira e Carlos Pessoa, a revista erige uma ponte que une o leitor à literatura. Conferir no endereço Duas Margens:

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Meditações Sobre o Fim

Este texto serviu de base à minha Apresentação Pública e foi editado no sítio da Orgia Literária.


Últimos poemas  

 
E se os poetas fossem chamados a cinzelar os últimos três poemas antes de morrerem? Ao desafio da nova editora hariemuj responderam 38 vozes que redigem, preto no branco, a sua conjura contra a morte. Juntando-se à plêiade dos conjurados, João Mota, que assina o grafismo de Meditações sobre o fim, esparge níveos lírios sobre a noite escura. O resultado é uma obra caudalosa, de águas profundas pejadas de ecos, a evidenciar que a palavra, no seu movimento perpétuo, é uma forma de enganar a morte pela sua emenda, a desafiar-nos para os versos de Herberto Hélder: «Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar // - a morte é passar, como rompendo uma palavra, /através da porta, /para uma nova palavra.».



(imagem da sessão da apresentação: da esquerda para a direita, João Mota, eu, Maria Quintans e André Gago)
 
A Antologia aloja desde autores nunca antes editados a autores com vasta obra publicada, vários níveis de qualidade literária, diferentes sentidos estéticos, diversidade que confere unidade à obra; é, aliás, em busca dessa unidade que segue este meu texto.
 
Talvez por observar a conspiração de vozes, a editora e poeta Maria Quintans refere, na abertura, que os poetas «fazem passeios pelo futuro». Com efeito, em Meditações sobre o fim versa-se o futuro, casa que a palavra quer habitar. Certamente por isto, e porque «as ideias do futuro estimulam-nos a vivificação, por isso todo o pressentimento é alegre», na formulação de Novalis, é raro encontrarmos o pungente e são banidos o macabro e o mórbido. Corre amor e morte na «tinta violeta» dos poemas de João Barrento, onde o eu poético, preparando-se para partir, se assume «sem nome /nem origem /no branco de lírio /da orgia /da despedida»; Casimiro de Brito menciona «a bagagem delicada que já se prepara /para outro salto - // a morte não existe.»; Pablo Xavier Pérez Lopes dá-nos um «Epitáfio Provisório», um epitáfio que é uma epígrafe, inscrição altaneira, estimulante e rebelde: «Aqui jaz um poeta esquecido/ escrevia como quem ama a morte»; Ricardo Tiago nomeia a morte como invenção: «quando me cruzar com a morte /vou saber inventar-lhe um poema /…/ e dizer todos os começos /que não soube explicar»; por sua vez, Joaquim Cardoso Dias acende a luz no «Quarto escuro»: «Tento acender outras imagens devoradas pelo tempo /E sei que é por tua causa /que esta noite existe e se repete /a vida inteira»; também sabendo que a missão do poeta é encontrar o que está escondido, iluminar os esconsos da alma, surgem, inundadas de ecos, as mãos azuis do poema de Bruno Béu: «a mão manifesta: /quando manifesta, esconde./…/ vinha pelo vitral , /o azul nas mãos /…/ e lá atrás /do som, do êxtase, vitral, da simetria /escondido, só um mesmo movimento /de um homem pequeno no fole.».
 
Na peugada da luz, surgem meditações sobre a efemeridade dos seres e das coisas, e nomeiam-se símbolos da corrosão: João Camilo especula sobre a passagem do tempo, «O carro funerário do tempo», o «comboio que pára em estações da memória», grita que «Não renunciamos à lucidez» e pergunta: «Quem, se pudesse, teria /preferido não viver? Quem, se pudesse?»; Duarte Braga aborda «os selos» do corpo rápido: a velhice, a doença, a morte; João Bosco da Silva ateia, à maneira de Pessoa, um “ensaio sobre o cansaço e a asfixia”, enquanto que Leila Andrade refere que «o grifo do tempo é inevitável». 
 
A luz capaz de mover consciências e as fazer actuar em cidadania é que o pede a inscrição de Nicolau Santos: a luz de uma grande razão para um país que se afunda na treva, que morra a morte actual, para que haja vida: «Falta-nos por aqui uma grande razão / como diria o Cesariny /…/ um motivo, um anseio /um desejo fortíssimo /um desígnio, uma visão /falta-nos um punhal brilhantíssimo /para liquidar esta vida de conformismo /de rotina sem ambição».
 
Ainda que noutra vertente, Joana Serrado também refere a morte necessária para que a vida aconteça: «as árvores que são abatidas para que o meu livro nasça».
A mostrar que somos água e que a lágrima humaniza-nos, Ana Hatheely apresenta três breves belíssimos poemas, numa corrente de três gerações:
 
I
A mãe que eu mal conheci
Não sei se era feia ou bela
Não me lembro dela.
Por isso quando morreu
Não tive de chorar por ela.
 
II
Quando a minha filha morreu
Chorei.
Chorei muito por ela.
 
Inutilmente.
Chorando não conseguia revivê-la.
 
III
Chora
Peço-te:
Chora por mim agora
Se eu morrer
Não sei quem por mim chora!
 
Com a história do corpo desagregado, experiências e estremecimentos, Benécdicte Houart refere que o poema é a verdade a permanecer e que há-de ser reclamada, o que se entronca no escrito por Jorge de Sena, no poema Cessação, onde se fala «no fim que não acaba», pois o poeta e a sua cantiga sonharão na treva, ideia construída com a imagem de um fósforo em que «faúlhas correm/ serenamente, até que um fumo sobe /e vago vai subindo e já não está /aonde o fogo foi e não existe».
 
Maria Sousa, com os versos «quando as palavras te morrem nos lábios /fica um hálito frio de poemas a ruir /na distância de um percurso traçado a pó», assume o carácter polinizador das palavras, e evidencia a transmigração, próximo do «voo, o meu pó será o que sou», de Jorge Luís Borges. É ainda neste sentido que encontro os versos de Inês Fonseca Santos: «cultivar sobre o asfalto uma palavra. /Deixá-la florir…». Finalmente, Filipa Leal detém-se na «suspensão do adeus», já que a palavra não diz adeus porque nela fica o coração, pois, e na expressão de Novalis, «O coração é a chave do mundo e da vida».
 
A editora hariemuj – palavra árabe, invertida, que significa alegria – traz-nos em meditações sobre a morte o júbilo da palavra, o primeiro grande argumento para lhe desejarmos uma longa vida.
 
 
Lista de autores presentes na antologia, AQUI.



© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Novo livro de Nuno Dempster

Já o disse e repito-o: não se pode falar de poesia portuguesa actual sem se nomear Nuno Dempster. Depois do imprescindível Pedro e Inês – Dolce Stil Nuovo, o poeta lança o Elegias de Cronos, dia 22 de Junho, pelas 21h30, na Soc. Instr. Guilherme Cosoul (Av. D. Carlos I, 61 - 1.º - Lisboa). A Apresentação é de António Carlos Cortez e o actor Miguel Santos dirá poemas do livro.



Deixo um dos 61 poemas do novo livro, com agradecimento ao autor:


Sem Fórmula

Passa do meio-dia e nada fiz.

Devia trabalhar no Excel

e cuidar de algarismos como ovelhas,

ser um pastor de números. Disse-te

somos inteligentes cegos,

cegos a vida toda,

a dar o nosso excesso sempre.

Era evidente que isso iria ter

um resultado triste.

Bem o sinto na urgência

de as palavras dizerem tudo.

Catarse vã: na folha de Excel,

os números reclamam-te

e não conheço fórmula que traga

pelo menos algum sossego,

pelo menos um anúncio funerário

na vitrina do meu barbeiro

a dizer que morremos ambos.


Elegias de Cronos / Leituras  Finais






*ver AQUI textos meus sobre obras de Nuno Dempster

magnólias de Albano Martins

A um mês de completar 82 anos, o poeta Albano Martins lança o «Estão agora floridas as magnólias».
Em breve, apresentar-vos-ei este livro, como sempre tenho feito com a obra de Albano.