domingo, 13 de setembro de 2009

Jorge de Sena voltou a casa

Cumpriu-se o que tinha de se cumprir: JORGE de SENA voltou a casa. Dia 11 de Setembro, na Basílica da Estrela, fez-se a Homenagem de trasladação dos seus restos mortais. Agora há que recuperar a sua obra literária, pois recuperá-la é recuperarmos parte de nós, portugueses.

Fique a página da Fundação José Saramago para o percurso biográfico e bibliográfico de Jorge de Sena, percurso que se confunde com o da nossa história.


Dois poemas de Jorge de Sena:

Recortes

Os meus recortes fugindo para o Sul!
Velozes, tão velozes!
Ainda ontem desdobrados
e hoje azuis de corpo inteiro!...
e a sombra de olhar circundante,
num passo apressado e decidido,
e a minha forma entregue, aberta,
escancarada,
mas a barreira caída em falhas de sinais.

Eu não soube cortá-los pelo meio,
colá-los
nas páginas onde os sentiria com os meus dedos
- igual aos cegos diante de um livro para cegos,
porém sentindo mais e muito mais
e cego eu fosse aos livros de mim próprio!

Os meus recortes
fugindo para o Sul no carroussel:
amanhã, um dia, tornarão a passar,
tornarão a fugir…

E eu talvez então nem fale
- porque falei hoje.

25/8/1939

Obras de Jorge de Sena, Poesia-I p.p. 47, 48, edições70

Madrugada

Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar connosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lobos sob as águas fundas
hão-de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinados e às montanhas
que a neve cobrirá de álgida ausência.
Levar connosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida.


Madrid, 4/9/1972

Obras de Jorge de Sena, Poesia-III, p.p. 207,208, edições70, 1989

sábado, 12 de setembro de 2009

Gonçalo M. Tavares elogiado em França

Segundo divulgado pela Caminho, O Senhor Calvino e O Senhor Kraus de Gonçalo M. Tavares acabaram de ser publicados em França pela editora Viviane Hamy, e arrancam aplausos da crítica na secção Avant-Portrait da revista francesa Livres Hebdo. Véronique Rossignol, que assina o texto crítico, refere-se a O Bairro como "a sua biblioteca ideal concebida como uma cidade ideal que ele povoa pouco a pouco com senhores, artistas queridos do seu panteão, aos quais consagra pequenos livros impossíveis de catalogar".
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Cita-se Alberto Manguel, que escreveu um texto para servir de posfácio à edição francesa de O Senhor Kraus (o posfácio que acompanha o Sr. Calvino é da autoria de Jacques Roubaud), e no qual o conhecido escritor argentino afirma: "O Kraus que Tavares instala no Bairro é um Kraus paralelo, reinventado para o nosso espaço e o nosso tempo."
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Sobre a obra de Gonçalo M. Tavares, a anteceder duas referências a Jerusalém e Aprender a Rezar na Era da Técnica, afirma-se:

«Enumerar os ilustres autores aos quais é comparado depois de Saramago ter declarado ver nele um futuro prémio Nobel seria esmagador. Traduzido em cerca de trinta línguas, Tavares foi louvado pelos maiores (Lobo Antunes, Vila-Matas ). Se a referência Kafkiana e a herança Mittel Europa são os tópicos que ocorrem com mais frequência para qualificar o seu universo literário, ele surge mais amplamente considerado como a nova encarnação na categoria "grande escritor europeu". ».
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Clicar na imagem para ler o texto da Livres Hebdo.
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Ver na Etiqueta os textos sobre Gonçalo M. Tavares.

Ideias e emoção com o Senhor Calvino

Sexto livro da série criada por Gonçalo M Tavares, «O Senhor Calvino» traz o olhar da procura essencial, e as coisas insignificantes suscitam reflexões singulares. Num dos sonhos, Calvino lança-se em perseguição da sua roupa, que alguém atirou de uma janela do alto de mais de trinta andares. Enquanto desce vai alcançando peça por peça, calça os sapatos, põe e ajeita a gravata, bem a tempo de chegar impecável ao chão.

Acordamos e concordamos: é merecido este desvelo para nos apresentarmos ao chão. Afinal, resta-nos sempre o chão, e podemos sempre contar com ele, porque ele tudo suporta: cansaço, traições, fracassos, fadigas ou como nos lembra o autor, no seu livro "Poesia 1": «aconteça o que acontecer, tens sempre um corpo que pesa; e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece(1).

Este Senhor Calvino é construído com muito do “Senhor Palomar” – personagem do romance Palomar, de Ítalo Calvino. Ambas as personagens são conscientes do carácter inesgotável das coisas e detêm-se na superfície dessa diversidade para lhe apreenderem o sentido. Palomar observa os pássaros e as ondas do mar. Também Calvino tem como exercício fundamental «treinar o olhar sobre as coisas do mundo». O seu dia-a-dia desenrola-se entre a banalidade dos actos diários articulada com a intensidade da procura.

Por exemplo, Calvino, de vez em quando, obriga-se a andar com um balão que guarda uma «pequeníssima parte da totalidade do ar do mundo». Um exercício fundamental para apreender a importância do Nada; « escolher uma cor para o balão era atribuir uma cor ao insignificante». Doutra parte, «a quase insuperável fragilidade do balão obrigava ainda a um conjunto de gestos protectores que lembravam a Calvino a pequena distancia que existe entre a enorme e forte vida que ele agora possuía e a enorme e forte morte que andava sempre, como um insecto desconhecido mas ruidoso, a cada momento a circular em seu redor».

Calvino deambula perscrutadoramente. Passear sem objectivo é permitir-se aprender. «Via-se como um peregrino, mas não tinha meta nem mapa. Queria ir directo, sem desvios, para um sítio onde se sentisse perdido.». Talvez por isso, sentisse comprazimento em não indicar correctamente as direcções aos que entravam no bairro: «fazer com que as pessoas se perdessem no bairro era um acto de generosa simpatia (…) sabia que se as pessoas fossem directamente, sem qualquer desvio, para o seu destino, nunca teriam oportunidade de ver e conhecer cantinhos que só os homens muito perdidos descobrem.».

Metódico na procura, nos sábados de manhã transporta, sem qualquer falha, uma vara metálica paralela ao solo. De regresso traz a mesma vara, mas na diagonal e com postura relaxada. Conclui: «Uma falha mínima podia transformar uma paralela em diagonal» e, «qualquer transportador de paralelas devia ser pago a peso de ouro pois demonstrava que sabia colocar, com exactidão, a mão no centro das coisas». Sempre à procura do centro das coisas, e assim, do seu próprio centro, Calvino «não deixava de aperfeiçoar, todos os sábados de manhã, essa específica habilitação técnica e metafísica.». Ser que por vezes se emocionava com as ideias, «não com o mundo», Calvino achava que «quem não tinha pensamentos próprios não tinha vida própria».

Existir é jogar e para que se jogue o jogo da perpétua descoberta há que subverter as regras criando regras subversivas. Aplicando este método subtil, Calvino e Duchamp jogaram. Como não tinham definido as regras, não sabiam quem tinha ganho. Então, em alternância, começaram a «formular regras para o jogo que já haviam jogado, cada um tentando definir o jogo capaz de o fazer, embora a posteriori, vencedor».


O Senhor Calvino, Gonçalo M. Tavares, ilustrações de Rachel Caiano, Caminho, 2005

(1). Gonçalo M. Tavares, Poesia 1, Relógio D'Água, 2004

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

«100 fábulas De La Fontaine»

Numa jóia editorial com talento português

Volvidos três séculos das primeiras edições das Fábulas de Jean de La Fontaine, milhares de edições para outras tantas ilustrações, atento numa jóia editorial que nos deixa atónitos pela sua magnificência: «100 Fábulas de La Fontaine» envoltas em arte portuguesa, seleccionadas por José Viale Moutinho, traduzidas por portugueses como Bocage e Teófilo Braga, recriadas portentosamente pelas ilustrações de José Emídio; tudo reunido num livro de luxo ou não tivesse a chancela da Campo das Letras, editora que habitou os leitores à qualidade soberana destes objectos que nos tiram o fôlego.

É desacertado julgarem-se as Fábulas de La Fontaine apenas literatura infantil. Elas são para todos e comprova-se na intenção do fabulista francês mais famoso do mundo: «O mundo é velho /(Dizem) e eu creio que inda diverti-lo /Compete, como as crianças se divertem» (O poder das Fábulas, pag 202). Na apresentação, José Viale Moutinho diz como «o Senhor La Fontaine puxa as orelhas à república dos homens pondo a falar o reino dos animais»: «Papagaio real, quem passa? / – É o Senhor de La Fontaine que vai à Praça! / – E o que vai lá fazer? / – Colher os tiques da gente, /…/ Tal senhor escreve fábulas /e nenhuma outra ficção! / – É que os homens e as mulheres / (é bom se o souberes!) / têm tiques e pruridos tais /que é melhor /(Para não os ofenderes!) /pregar-lhes lições tais /que só metam animais!/…/ - E são lições para a humanidade /se comportar a preceito! / É que o tal de La Fontaine /queria ver este mundo /portar-se muito direito».

Viale Moutinho questiona-se sobre o «misterioso desígnio» que faz com que estas fábulas cheguem, vigorosas, aos nossos dias, para concluir que é a sua perenidade enquanto forma literária bem como a actualidade dos «conceitos morais que são o desfecho de todas elas». Justifica que a antologia de 100 fábulas «não é totalmente inocente», pois entende ser este o «núcleo mais duro da obra de La Fontaine, e considera que as fábulas do francês «já não suportam entre nós a edição integral».

As 100 fábulas coligidas têm tradução portuguesa de A. Lopes Cardoso, Abel Botelho, Acácio Antunes, Alfredo Alves, Bocage, Cipriano Jardim, Costa e Silva, Curvo Semedo, E. A. Vidal, Eduardo Garrido, Fernando Leal, Filinto Elísio, Francisco Palha, Gomes Leal, Gonçalves Crespo, Henrique Lopes de Mendonça, José Inácio de Araújo, José de Sousa Monteiro, Luís de Macedo, Miguel do Couto Guerreiro e Teófilo Braga.

As 100 ilustrações de José Emídio

As fábulas de La Fontaine foram ilustradas por grandes artistas ao longo dos séculos, com interpretações pessoais, mas que reiteram o seu carácter intemporal e universal. Destaco os guaches de Chagall, muito aplaudidos pela crítica da época, realizados entre 1926 e 1927 e exibidos em 1930 com pompa e circunstância. Antes da arte chagalliana, refira-se o trabalho de Gustave Doré (1867) sobre madeira, onde aparecem ora figuras humanas, ora animais.

As presentes 100 ilustrações nas páginas ímpares recriam de forma particular as narrativas das páginas pares. As interpretações das fábulas foram, seguramente, um desafio para José Emídio que o cumpre com distinção, criando um parentesco moral e narrativo, subtil e impressionista com as narrativas do francês. José Emídio, que já nos habituou à qualidade do seu trabalho, pinta como ninguém essa “poética comum" e universal, em pinceladas que põem em movimento quadros morais; um movimento pictórico que sai das páginas em direcção ao espectador que assiste com assombro à visão pessoal do artista. Doutra parte, estas ilustrações surgem com força mesmo se retiradas das fábulas. São, por todas as razões, 100 obras de arte imperdíveis.

Os vícios humanos e a fórmula da perenidade

No reinado tirano de Luís XIV (1643), La Fontaine encontrava a matéria para as suas breves narrativas em verso, com as rimas a facilitarem a memorização e a fixarem, de forma lúdica e humorística, os ensinamentos. O mesmo carácter lúdico da moralização dos costumes foi seguido pelo nosso dramaturgo Gil Vicente, que teve na máxima Ridendo castigat mores – a rir corrigem-se os costumes – soberana actuação. Os avisos do fabulista francês constroem-se com recurso a animais antropomorfizados. A reconversão é feita com agilidade e engenho narrativos, amplificação subtil dos vícios sociais e um talentoso carácter interventivo na sociedade e na moralidade. Algumas fábulas são recriações de fábulas do grego Esopo que por sua vez foram aperfeiçoadas pelo latino Fedro. No entanto, este tipo de texto já aparece no século XVIII a.C., na Suméria. É, no entanto, La Fontaine que as populariza em todo o mundo. As Fábulas foram editadas em 12 livros, de 1668 a 1694: I a VI (1668), VII a VIII (1678), IX a XI (1679), e XII em1694. Muito apreciado na sua época, La Fontaine pertenceu ao grupo literário-filosófico francês de Molière, Racine, Nicolas Boileau-Despréaux, entre outros, tendo sido eleito membro da Academia Francesa, em 1683.

Desta forma, chegam com actualidade incólume máximas morais, das quais destaco a da Cigarra preguiçosa e da formiga laboriosa; da raposa matreira como um vigarista; a fábula do corvo e da raposa cuja «lição vale um queijo»; da rã vaidosa que inchou para ser maior que o boi e rebentou; do lobo que come o cordeiro – «Sempre o sagaz prepotente /quer ter por base a razão, /inda que seja aparente» (O lobo e o Cordeiro, p. 30); «Na dor deseja-se a morte; /Mas quando vem faz tremer; /Qu’ é dos viventes o instinto /antes penar que morrer.» (O Lenhador, p. 38); «Assim, nas mútuas desordens /Dos grandes, dos potentados, /Quase sempre os mais pequenos /Vêm a ser os esmagados.» (Os Dois Touros e a Rã, p. 44); «Quase sempre as ímpias tramas /urdem o mal do inventor; /E mil vezes a perfídia /Recai sobre o seu autor.» (O rato e a rã. p. 88); «Confiar na Providência /Para obter o qu’ intentamos /Sem que os meios lhe ponhamos /É demência. /Nada obtém quem não procura; /Que foi sempre a diligência /Mãe da sólida ventura.» (O Carreteiro atolado, p. 156).

Viale Moutinho refere a «Excelente fórmula» encontada por La Fontaine que ditou a intemporalidade das suas histórias morais em verso: «Apurou a palavra e as maneiras de dar recados às gentes e divertiu com isso essas mesmas gentes, que não deram, ou fingiram que não davam (ou que não dão!), pelo espelho diante do rosto, lá isso não é mentira nenhuma. E como ele zurziu as mesmíssimas gentes e como continua a zurzi-las á escala internacional! E toda a gente gosta, às vezes fingindo que é com os outros, isso gosta, gosta muito…».

100 Fábulas de La Fontaine; selecção de José Viale Moutinho; ilustrações de José Emídio; 224 páginas; Editora Campo das Letras, Porto 2005

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Como se produz uma notícia?

As relações entre o jornalista e a fonte

«Que narrativas e histórias interessam aos jornalistas? Como trabalham os jornalistas os seus recursos e que rotinas? Que representação do poder e da sociedade em geral deixam ficar nas notícias? Que fontes de informação falam das notícias? Que fontes de informação são seleccionadas pelos jornalistas?»

Responder a estas e muitas outras questões é o objectivo do livro A Fonte não quis revelar, de Rogério Santos, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e docente de Comunicação na Universidade Católica Portuguesa. Por 242 páginas o leitor é convidado a seguir o percurso da construção da notícia, a apreender as relações entre jornalistas e fontes de informação. Na vertigem das sociedades da comunicação, com a notícia procurada e metamorfoseada a cada instante, o livro vem lançar alguma luz sobre o «jogo informativo» de que todos fazemos parte.

Na introdução, o autor adverte que grande parte da pesquisa compreendida no texto foi base para a sua tese de doutoramento sobre como o HIV-AIDS foi abordado pelos media portugueses. A investigação apoiou-se, ainda na Sociologia do jornalismo, com recurso a vários autores, pelo que no final é apresentada uma extensa lista de Bibliografia consultada.
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A «dança guerreira» no acesso à informação
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Diz-nos o autor que lendo-se conveniente e atentamente uma notícia, ela revela uma «dança de lances de jogo e negociação» entre o jornalista que a produziu e a fonte de informação que a promoveu. Comparando-se a um jogo de xadrez onde existem regras definidoras e regras estratégicas, é-nos explicado que a complexidade aumenta conforme o número de «entrantes» no jogo e há que contar com «fontes políticas, judiciais, científicas e outras, jornalistas, e os vários meios noticiosos em concorrência, e a opinião pública», que o texto explica desta forma:

«A relação entre jornalista e fonte de informação, para além de usar regras definidoras – rigor na informação, rapidez na prestação da informação, enquadramentos adequados dos acontecimentos, colaboração ou desconfiança mútua –, emprega as regras estratégicas do jogo – necessidades concorrentes de publicitar o acontecimento de uma fonte de informação e do jornalista obter uma informação nova ou exclusivo. Mas não existe uma determinação prévia onde está o poder, ou quem controla o conhecimento num dado momento. O jogo é, em simultâneo, desempenhado por vários intervenientes, que escrutinam o poder, as forças e a influencia dos adversários, para fazerem os seus lances.

A disputa de recursos disponíveis implica a luta e negociação sobre os acontecimentos importantes ou relevantes. Assim, a luta ou troca de informação regista-se não entre um jornalista e uma fonte de informação, mas numa multiplicidade de agentes sociais, que incluem jornalistas, meios noticiosos, fontes de informação e a sociedade no seu todo.».

Mais: diz-nos o autor que neste jogo de influência e conflito entre jornalistas e fontes, «cada uma das partes cria uma agenda de temas e tenta influenciá-la». Assim, refere-se, «jornalistas e fontes de informação procuram protagonizar o jogo, mas sabem que são usados pelos outros agentes sociais. Trata-se de uma dança ou simbiose guerreira entre o que se sabe e o que não se sabe, entre o que se disponibiliza e se esconde».

Neste jogo ou dança ou arena de luta, onde coabitam o segredo, a confidência, a censura e a publicidade, o autor adverte para o carácter pernicioso de fontes e jornalistas que põe em relevo uma multiplicidade de interesses: «as fontes de menores recursos apostam na intriga, desvendam as rivalidades de organizações maiores»; «fontes rivais através de fugas de informação ou balões de ensaio, boicotam os projectos das organizações a que pertencem» e, «graças a redes de contactos informais com jornalistas», veiculam os seus interesses que servem também os objectivos dos jornalistas sedentos de novas notícias.

A fonte não quis revelar, Rogério Santos, Editorial Campo das Letras, Porto, Junho de 2006

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Prémio de Literatura Casa da América Latina / Banif para Helder Moura Pereira


Hélder Moura Pereira venceu o Prémio de Literatura Casa da América Latina (CdAL) / Banco Internacional do Funchal (Banif), pela tradução do romance O Inútil da Família, do autor chileno Jorge Edwards. O romance foi editado pela Assírio & Alvim, em 2008.

A edição de 2009 do prémio que visou distinguir a melhor tradução literária de obras latino-americanas, publicadas em Portugal em 2007 e 2008, no valor de 7.500 euros, teve a unanimidade do júri. O Prémio será entregue dia 16 de Setembro, às 18:30, na CdAL.
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É, pois, mais um Prémio para a prestigiada Assírio & Alvim e para Helder Moura Pereira; recorde-se que o autor, enquanto poeta, venceu o Prémio Pen Clube 2008 de Poesia com a obra Segredos do Reino Animal, editada em 2007, também pela Assírio.

António José Telo vence Prémio John dos Passos

O Historiador e professor catedrático António José Telo acaba de vencer o Prémio John dos Passos, no valor de 2500 euros, atribuído pela Câmara Municipal de Ponta do Sol (Madeira), pela obra História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, de dois volumes, editada pela Presença. Quando foi lançado o primeiro volume, em Março de 2007, elaborei um texto que agora aqui recupero.

História dos nossos 30 anos de democracia

Em Portugal, é o poder que cria os partidos e não o contrário, como é normal noutras sociedades, escreve o historiador António José Telo, referindo-se à criação de partidos que representassem a direita portuguesa logo após a Revolução do 25 de Abril. Argumenta que, por cá, fugindo à denominação maldita, os partidos que vingaram legalmente sentiram a «necessidade de colocar o “social” ou o “socialismo” no nome».

A falta de dirigentes conhecidos, a inacessibilidade aos órgãos de informação, a falta de representatividade nos órgãos do povo e a falta de financiamento privado e apoio internacional – «quem tinha dinheiro para investir na política (…) preferia fazê-lo em quem lhe dava alguma garantia de vir a ser poder a curto prazo» – levou a que as organizações assumidas de direita fossem «pulverizadas».

Respondendo à urgência de se coligir o material histórico e a necessidade de o explicar, António José Telo brinda-nos com o História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, o primeiro de dois volumes que interpretam a história recente da nossa vivência em democracia. Neste primeiro tomo explana-se desde a Revolução do 25 de Abril até 1985; o segundo volume cobre o período entre 1986 e a actualidade, contemplando, ainda, a descolonização e a adesão de Portugal à União Europeia.

António José Telo, Professor catedrático de História na Academia Militar e autor de uma vasta obra no campo da História, Defesa e Relações Internacionais, refere no prefácio as dificuldades de escrever a História dum período recente: «Temos acesso à selva da informação tornada pública no dia-a-dia em infindável quantidade, mas muito duvidosa na sua verdade e que tende a asfixiar pela mera quantidade».

Com a «informação sobre a espuma das coisas» interpelada e com recurso a todo o tipo de fontes e testemunhos, desenvolve-se uma «obra que pretende ser uma fonte fidedigna de época». Este primeiro tomo tem 400 páginas para cinco capítulos que organizam criteriosamente a informação. Os títulos e subtítulos conferem-lhe um fácil manuseio e as explicações apresentadas pelo autor possibilitam uma interacção do leitor com a sua História. Ao longo do texto apresentam-se janelas e quadros explicativos com transcrições de documentos, declarações e factos como surgiram a público, composição dos diversos governos constitucionais, resultados de eleições para a Presidência da República; incluem-se ainda gráficos com dados sobre censos, educação e saúde.

O primeiro capítulo versa «O 25 de Abril e o novo poder», as novas organizações políticas numa conjuntura conturbada, própria do renascimento de um país. No segundo capítulo apresenta-se «A deriva comunista – Outubro de 1974 a Novembro de 1975». O terceiro capítulo é dedicado à «Consolidação na instabilidade», analisando-se «a violência remanescente», as novas estratégias dos Partidos Políticos com poder, o nascimento da AD, os realinhamentos partidários e a adesão à CEE. O quarto capítulo aborda «Uma economia à procura de uma estratégia», explanando-se impasses, crises e modulações várias. No quinto capítulo, apresenta-se o estudo sobre «Sociedade e Mentalidades – 1974-2006», analisando-se explicativamente as mudanças: «de emigrantes a imigrantes?», a nova família e o papel da mulher, o ensino, a saúde, a segurança social, a habitação, a Cultura e o lazer, entre outros assuntos.

Saber a História para interpretar o presente

Numa breve entrevista ao JL (Jornal de Letras), António José Telo referiu que escrever esta História mudou a sua «perspectiva sobre a evolução de fundo no Portugal nos últimos tempos». Comprovando-se que, como referiu, «a História ajuda a ver um pouco mais longe», no terceiro capítulo, ao abordar-se o «o fim de uma fase», com as eleições de Outubro de 1985, depois do Verão Quente, a assinalarem uma nova etapa na democracia portuguesa, lê-se:

«A instabilidade política de 1975/1985 tinha sido em larga medida uma herança do espírito do PREC de 1974/1975. A deriva comunista terminou com o 25 de Novembro, mas os seus efeitos nas mentalidades perduraram. Estava enraizada numa parte substancial da população a ideia consagrada na Constituição de que não se podia abrir mão da “conquistas irreversíveis» e que se caminhava para o socialismo, com tudo o que isso implicava(…)
Quando começaram as políticas de austeridade que obrigavam a apertar o cinto, a reacção geral foi fortemente negativa e contestatária. (…) A mais pequena tentativa de diminuir os poderes do imenso Estado levantava um coro de protestos de várias origens, com o fogo cruzado que partia da oposição, do Presidente da República, do Conselho da Revolução e da Rua.
(…) O Estado não só mantinha a sua esfera de acção consagrada no PREC, como alargava mesmo a outras funções, onde se destacavam o Serviço Nacional de Saúde, o aumento da segurança social e do ensino obrigatório e gratuito (teoricamente). (…)Era relativamente fácil cair no despesismo, que só tinha um travão eficaz quando surgia a crise de pagamentos internacionais e o FMI aparecia para impor a austeridade, sob pena da bancarrota. (...)
Sá Carneiro procurou desatar o nó górdio do problema em 1980, mas o seu desaparecimento prematuro fez tudo regressar ao mesmo, fossem os governos da AD ou do Bloco Central. Só em 1985 se reuniram as condições para acabar com esta fase. Em larga medida isso deveu-se a um factor externo – a adesão à CEE(...)»
(pp.247,248)

Numa altura em que os nossos governantes reconhecem a necessidade de ser ensinada nas escolas portuguesas a História da jovem democracia e que o que vem a ser ministrado está ao sabor das iniciativas de professores que, colmatando o vazio dos programas ditados pelas tutela, fazem questão de levar aos seus alunos a História recente, esta obra é um contributo inestimável; para nos ensinar a nós, tanto mais que «um terço da população portuguesa nasceu depois da Revolução dos Cravos», e para que possamos ensinar os nossos jovens.

História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, volume I, António José Telo; Editorial Presença, Lisboa, Março de 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

À procura d’ Os Degraus do Parnaso

Com a morte do filósofo, ensaísta e poeta M.S. Lourenço, no passado dia 01 de Agosto, aos 73 anos, verificou-se uma “procura acentuada” do seu Os Degraus do Parnaso, edição integral pela Assírio&Alvim em 2002, o que terá levado a que a obra “esgotasse”, segundo dito em algumas livrarias de Lisboa a leitores deste blogue. Ora, esta informação é errada. Confirmado por mim, os livros estão sossegados nas prateleiras da Assírio à espera de leitores que os mereçam.
Excelente notícia é também a que nos dá conta que a Assírio vai editar, ainda este ano, a obra poético-literária reunida de M.S. Lourenço, com o título O Caminho dos Pisões.

M.S. Lourenço estreou-se com poesia em O Desequilibrista (1961, Moraes editores). Também pela Moraes, seguiram-se O Doge (1963) - romance miniatural que conheceu uma 2ªedição revista e aumentada pela Fenda, em 1998 -, Arte Combinatória (1971) e Wytham Abbey (1974). Também em poesia, a Perspectivas e Realidades publicou Pássaro Paradípsico (1979) e a Assírio&Alvim editou Nada Brahma (1991).
No campo da Filosofia, como bem lembrado na caixa de comentários em baixo, M.S. Lourenço é autor de A Espontaneidade da Razão, editado pela INCM e Teoria Clássica da Dedução, pela Assírio&Alvim (como se verifica no link em M.S.Lourenço) além de ter traduzido o Tratado Lógico-Filosófico e as Investigações Filosóficas de Ludwig Wittgenstein, pela Fundação Gulbenkian.

O aclamado Os Degraus do Parnaso, Prémio D. Diniz da Fundação da Casa de Mateus, colige ensaios literários que M.S. Lourenço editou no jornal O Independente. Teve a 1ªedição pelas Edições O Independente, em 1991, para ressurgir na edição imperdível que aqui se referencia.
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Extracto do texto Genius Loci:
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«[…]Em contraste com Fernando Pessoa, a minha pátria não é a língua portuguesa mas antes o Latim de são Jerónimo, conhecido por Vulgata, o nome com que se designa a sua tradução da Bíblia. Mas de todas as línguas românicas a portuguesa é a que mais se assemelha ao Latim de São Jerónimo. O leitor da sua tradução do Novo Testamento não cessa nunca de se admirar perante a miraculosa congruência entre ritmo, o vocabulário e a sintaxe da frase da Vulgata, em formulações como
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Maria conservábat ómnia verba haec,
Cónferens in corde suo

E a correspondente frase portuguesa
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Maria conservava todas estas palavras,
Conferindo-as no seu coração.
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Ambas as línguas conseguem exprimir a mesma interioridade meditativa mas lúcida do acto de conservar palavras para depois as conferir.

Assim é-se forçado a concluir que a atitude tomada pelos portugueses perante o seu património é de tipo ingénuo ou naïf, não estando assim em condições de opor à incultura da civilização pós-industrial os frutos da sua história linguística e cultural, não se distinguindo assim dos chamados povos primitivos, já referidos acima, estudados pela etnomusicologia.
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Os factores que determinaram uma sociedade, com quase novecentos anos, a possuir um tipo de consciência an-histórica são essencialmente dois. O primeiro é, ao longo de toda a história nacional, a inexistência, do ponto de vista da cultura, de uma classe social que a represente. A incultura em Portugal nunca esteve nem está associada a uma única classe social. A incultura é uma característica comum que une todas as classes sociais portuguesas, quer estas sejam definidas a partir do privilégio do nascimento quer a partir do privilégio do poder económico. Enquanto que no resto da Europa a cultura foi inicialmente um predicado da Coroa e depois, mais tarde, dos empresários, em Portugal a nobreza primeiro e os empresários depois nunca tiveram, nem têm ainda hoje, necessidades de cultura. É por isso que os portugueses, ricos e pobres, nobres, burgueses ou proletários não tiveram nunca, e assim não têm hoje, a paisagem, a arquitectura, os museus, as bibliotecas, e as orquestras que têm as outras nações europeias com a mesma longa história.
O segundo factor diz respeito à apropriação do poder económico e cultural pelos empresários, após o triunfo da primeira revolução industrial. Como disse atrás só nesta altura foi proposto o conceito de Estado de Cultura, com o fim de prover à realização de uma política de cultura nacional, a qual incluía a definição, o tratamento e a conservação de todo o elenco do património cultural. Em Portugal a inexistência da nobreza como classe de cultura e o aparecimento tardio de uma classe empresarial, mas de origem proletária, tornaram impossível a realização de uma tal política.
Assim, Portugal está na situação da princesa da ópera Ariana em Naxos: a nós também só nos resta esperar pelo dia em que Bachus desça e anule o desfavorável oráculo que paira sobre a nossa cultura.». p.p.141, 142, 143.

domingo, 30 de agosto de 2009

Escritos de Kleist

Atenção a este título: Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos de Heinrich von Kleist é uma jóia editorial que queremos ter bem ao pé da mão e ir saboreando devagar. Editado recentemente pela Antígona, o volume de 158 páginas reúne 16 textos curtos (entre os quais o que dá título ao tomo) escritos entre 1799 e 1811, de temática filosófica onde é claro o comprometimento do autor com a sua época, denunciando com ironia o Teatro de Marionetas - ou o palco da existência onde todos somos mais ou menos títeres – onde desfilam «fraquezas, imperfeições, falsidades e hipocrisias» que geram o «sentimento de miséria».

Escritor incontornável do romantismo alemão, a par de Goethe, Schiller e Novalis, ainda que injustamente menos falado, Heinrich von Kleist (1777-1811) foi nome de topo da dramaturgia alemã, sendo considerado o precursor do teatro moderno.

A presente obra é, por todas as razões, motivo de júbilo, acrescido pela superior tradução, e estudo inicial, de José Miranda Justo. Mais um livro com que a Antígona celebra o seu 30º aniversário, e registe-se que a Antígona sabe celebrar-se em cada livro que edita.

Deixo uns extractos desta minha actual leitura:

Sobre a gradual elaboração dos pensamentos no discurso

«Quando queres saber certa coisa e não encontras resposta por via da meditação, aconselho-te, meu querido e arguto amigo, que fales sobre o assunto com o primeiro conhecido que encontres. Não precisa de ser propriamente um espírito perspicaz, aliás o que digo também não significa que hajas de o interrogar para obteres a resposta: não! Pelo contrário, antes de mais deverás contar-lhe o que te preocupa. Vejo-te já a abrires muito os olhos e a responderes-me que em anos mais recuados te deram o conselho de não falares senão sobre coisas que entendesses. Nesse tempo, porém, falavas provavelmente com o intuito de ensinar coisas aos outros, enquanto aquilo que pretendo é que fales com a sensata intenção de te instruíres a ti mesmo; sendo assim, tratando diferentemente o que é diferente, talvez as duas regras de bom senso possam coexistir sem embaraço. Os Franceses dizem: l’ appétit vient em mangeant; este princípio derivado da experiencia permanece verdadeiro se o parafrasearmos dizendo: l’ idée vient en parlant. (…)» p.p.71, 72


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A Fábula sem moral

«Pudesse eu ter-te, dizia o homem a um cavalo que estava á sua frente devidamente selado e arreado, mas que não queria deixar-se montar; pudesse eu ter-te tal como em tempos saíste das florestas, em bruto, simples filho da natureza! Conduzir-te-ia, ligeiro como uma ave, por montes e vales, como me aprouvesse; bem nos sentiríamos, tu e eu. Mas ensinaram-te artifícios dos quais eu, desprovido como estou perante ti, nada sei; e ser-me-ia preciso entrar contigo no picadeiro (livre-me Deus de tal coisa) se quiséssemos entender-nos.» p.86

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Um princípio da crítica superior

«É preciso mais génio para apreciar uma obra de arte mediana do que para apreciar uma que seja excelente. A beleza e a verdade evidenciam-se à natureza humana em primeiríssima instância; e tal como os princípios mais sublimes são os mais fáceis de entender (só a minúcia é difícil de captar), também o belo agrada com facilidade; só o que é deficiente e afectado precisa de esforço para ser saboreado. (…)» p.151

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Poesia Cubana Contemporânea

(Texto editado hoje no site Orgia Literária)

Dois poetas laboram sobre outros dez, num encontro apadrinhado por uma editora que há muito nos mostra a dedicação que põe nos livros que faz. Refiro-me à Antologia bilingue Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas com a chancela da Antígona. Pedro Marqués de Armas selecciona, apresenta e critica as vozes, faz o extraordinário Prefácio e as Notas do documento. Jorge Milícias assina a exímia tradução.

Em 237 páginas compendiam-se desenraizamento, dor, desdém, denúncia e raiva de dez ânsias de liberdade: José Kozer (1940), Reinaldo Arenas (1943- 1990), Reina Maria Rodríguez (1952), Ángel Escobar Varela (1957-1997), Rolando Sánchez Mejías (1959), Ismael González Castañer (1961), António José Ponte (1964), Omar Pérez (1964), Damaris Calderón (1966) e Alessandra Molina (1968).

No prefácio, Pedro Marqués de Armas dá-nos, de forma precisa e sintética, a contextualização histórica da produção literária cubana, define-lhe as características desde o início – por volta de 1825, tendo em José Martí, o poeta soldado, «ao mesmo tempo o último romântico e o primeiro modernista da América Latina» –, para desembocar nos anos 80, com recolha de textos de autores que começam a escrever nesta altura ou nela se consolidam, época a partir da qual, defende Armas, a poesia começa a libertar-se do «lastro da ideologia».

A selecção dos textos da mostra poética entronca no percurso de uma poesia em constante tensão com a História, refere Armas, com esta a ter de ser redimida pela primeira: a identidade, a insularidade, a procura de vanguardas, a institucionalização da literatura devido à «imposição do realismo socialista como único modelo estético» que servia a Revolução castrista, a fragmentação, os exílios constituem uma herança fortíssima que os poetas cubanos da geração de 80 carregam e transpõem para a palavra com grito subversivo. Com esta necessária Antologia, ficamos a perceber «em que travessias, em que estranhas / paragens / em que trocas», palavras de Omar Pérez, as letras cubanas contraíram o engenho, e como essas travessias se encontram e se enredam no século XX com a nova palavra.

Continuar a ler no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto