domingo, 28 de junho de 2009

Cumplicidades em «Percursos de Vida»

José António Salcedo abre-nos a sua casa e mostra-nos «Percursos de Vida». Percursos dele, mas também percursos nossos. A dádiva está num álbum surpreendente com fotografias e textos do autor numa relação de cumplicidade que atinge em torrente o receptor-leitor. Se uma imagem tem sempre um espelho e um mapa, a estas juntam-se-lhes os textos e, assim, cumpre-se o círculo do enleio.

Conivências, ensinamentos, incentivos do autor que diz: «libertar a alma é sempre um pouco penoso. Vou ter de enfrentar alguns medos e realidades. Vou ter de enfrentar a forma como cresci ou não. Vou ter de perceber se consigo mesmo voar e se ainda sei dançar.».

Impulsionados pelo «pajaro Dunes», que dança no daguerreótipo, partimos no adejar de sensações. Assim se faz a arte: ela absorve a alma de cada um para lha devolver, iluminada, extasiada e purificada. Assim se faz magia.

Com equipamento de produção fotográfica Nikon e um computador portátil Macintosh, José António Salcedo apresenta o seu olhar da realidade e realiza o paradoxo: sendo a fotografia a forma objectiva de representar o real – daí o nome das lentes objectivas –, e de a estatizar, aprisionando-a num momento, nestas fotografias sobressai o movimento. Para isso contribui o forte poder evocativo e a polissemia das imagens que suscitam movimentos cognitivos de reconhecimento e recriação. Outrossim, a escolha maioritária do preto e branco ou a dita «cascata de cinzentos» contribui para a vertigem de sentidos – o preto e branco instiga mais cores que a cor, porquanto permite ao observador imaginá-las segundo o seu mundo interior. Pretendem-se percursos de intimismo e tudo conflui, coerentemente, nesse sentido.

Na Introdução, à laia de prefácio, o autor explica a união da fotografia e da escrita: «através da fotografia vou observando e sentido a vida, através da escrita vou compreendendo a vida e, através dela, as pessoas», «tocando as pessoas e deixando-me tocar», acrescenta-se. A organização temática em três grandes partes – «Vida em redor», «Vida para dentro» e «Vida para a frente» – consolida o objectivo. Assim, em «Vida em redor» pretende compreender-se um sentir que se preenche com visões de um homem que «adora fotografia porque adora a vida, mas uma criança que utiliza a fotografia para chegar às almas.».

O contexto esotérico da luz captado pela objectiva é uma das linhas de força de todo o trabalho e o grande motor da reflexão. Em «A vida é como esta imagem» regista-se o momento fugaz em que o sol desenha percursos de luz e sombra, «portas abertas, portas fechadas, portas na luz, portas na sombra…a velha na luz, a criança a entrar na luz…».

Paul Almasy (19o6-2003) disse que Quando se analisa uma imagem e se começa a pensar nela, esta torna-se problemática e portanto interessante... . A partir de algumas fotografias que captam “a vida da madeira”, o autor incrementa a meditação: «As pessoas e as relações são feitas de tábuas de madeira»; «podem ter nós ou concavidades, farpas ou não, periodicidades ou lisuras, grão fino ou grosso, ser construídas em apenas um ou em mais lanços (…) As relações entre as pessoas empenam, se estiverem expostas ao frio ou ao calor». Conclui-se que, como a madeira que se quer que resista ao tempo, as relações entre as pessoas para se manterem exigem cuidados regulares: «as relações entre as pessoas alteram-se com o tempo. Umas vezes vão-se desfazendo, outras vezes ficam mais rígidas. E estragam-se se não forem tratadas periodicamente».

Também a metáfora dos graffiti surge associada às relações entre as pessoas: A vida também é graffiti e «os gatafunhos que desenhamos e trocamos uns com os outros» às vezes até ficam quadros bonitos.

Em «Vida para dentro» incita-se a mudar de perspectiva: «o fácil é olhar, o difícil é ver. E a melhor forma de ver não é pelos olhos, mas sim pelo sentir. O consciente é um instrumento de sobrevivência, rudimentar; o inconsciente somos nós, inteiros.». O objectivo é sempre fotografar almas, «como as ervas que captam água e a dirigem para o seu centro». Surgem fotografias do autor no centro onde renasce, no reencontro com as sequóias e zonas ardidas da floresta junto ao Pacífico, incentivando-nos a procurar esse nosso centro de vida: «também a floresta recicla os seus recursos, de forma controlada. (…) Foi este modelo de crescer que as sequóias me ensinaram: sempre pronto a dar nova vida, mesmo a partir de um pedaço de casca».

Há que ir com a «Vida para a frente», «Sometimes and then sometimes», com momentos ora de felicidade, ora de tristeza. O segredo é estar atento à Luz que surge através de aberturas. Mesmo que o céu oprima no seu cinza-chumbo, surgirão surpreendentes «frestas de luz que vêm dançar num sorriso». A fotografia atesta o milagre, o texto tenta dar-lhe sentido.

Na explanação das aprendizagens da luz, o nevoeiro surge como superfície de revelação. A fotografia da Ponte da Arrábida assim o demonstra: «muitas vezes o nevoeiro permite-nos esquecer detalhes sem importância e concentrar na essência das coisas.»;«Esquecer é mais difícil do que aprender…e o nevoeiro ajuda a esquecer.».

A mensagem de optimismo reitera-se de forma clara: a fotografia de uma janela gradeada na rua da Alfandega mostra que «Muitas grades são inúteis, mas nada como olhar de frente para elas para nos apercebermos até que ponto o são».

O álbum é uma apologia dos irreverentes que querem ser felizes. Um brilho para os olhos quentes e, através deles, para a alma: «por que será que todos os sonhos são tão cheios de calor?». No Epílogo, lança-se outra questão: «E agora como vai ser o futuro?». Com partilhas destas, certamente o futuro jamais será uma casa de solidão.

Percursos de Vida, José António Salcedo, Álbum de fotografias, Campo das Letras

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 25 de junho de 2009

«Mulher e arma com Guitarra Espanhola»


Texto pronunciado na sessão do lançamento, a 18 de Junho de 2009, na livraria da Assírio & Alvim  da Passos Manuel.


Dez mil dólares. É esta a munição e o disparo de Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola, o último livro da trilogia Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, escrita entre 1967 e 1968, agora reeditada pela Assírio & Alvim. À maneira do humor “machadino”, são dez mil dólares para o fim de uma saga escrita num ano por vinte contos de réis.

E se o leitor, que leu os anteriores Mão Direita do Diabo e Requiem para Dom Quixote, se prepara para mais um tomo irrepetível, não divisa, todavia, a surpresa da nova leitura, nem que acatará com um sorriso a sentença maynardiana: «o homem que se surpreende não é adulto». Tanto mais que o espanto terá novo episódio no perturbador Blackpot, um inédito a editar no fim do ano.

Por causa de dez mil dólares, o escrupuloso assassino profissional Peter Maynard embaraça-se numa organização nazi americana; para os descobrir, recebe o Contrato; devido a eles, desenvolve novas estratégias de sobrevivência; na peugada deles, confronta-se com a sua consciência; motivada por eles, a palavra detém-se na realidade, num engajamento social, filosófico, político e até lírico: «as palavras servem para muita coisa. Com elas, podem encher-se sacos de silêncio.».
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Tudo isto é muito estranho para um policial? É. Mas é precisamente devido a esta genial estranheza que estes livros de bolso, a disfarçar a fina literatura, não envelhecem.
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Dinis Machado apostou transformar o policial negro e «a transformação operou-se», como o próprio escrevia na Nota do Editor: «o género policial, que se bastava com uma só face da realidade, quantas vezes apenas aparente, tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem».

Se toda a realidade está na mente do observador, em Peter Maynard, o intelecto é a vigília. De forma assombrosamente natural, surge uma estética literária a evidenciar a autonomia de Dinis Machado face às regras dos policiais que, aliada à autenticidade – na sua visão da natureza humana e das mutações do mundo – legitimam o valor artístico da obra e conferem-lhe o carácter vanguardista, que se mantém, quarenta anos depois.

Como o título deixa lobrigar, neste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola impera o feminino: Peter Maynard, o «mão direita do diabo» que usa pistola e silenciador, que tem um negócio privado e a vaidade de escolher os contratos que faz, recebe o contrato «Nora», mulher de um malandro, «homem de uma baixeza quase integral» e um fatalismo “dostoiewskeano”, que contrata um assassino profissional para a eliminar, o qual desaparece com o adiantamento de dez mil dólares sem executar o trabalho.

Um «problema de alcova», marca pusilânime do homem, o que agasta Maynard, que defende que «Para andar direito na vida, qualquer homem precisa da sua costela espartana»; feminina é, também, a arma espanhola que o ataca, uma navalha de ponta e mola com uma longa tradição em questões passionais e vinganças; a comandar as operações está, desta vez, uma mulher, e até Sinatra no gira-discos é destronado pelas guitarras de Segóvia e de Yepes. E, claro, há sempre a presença de Olga, a única mulher do mundo com a qual Peter Maynard tem «questões de pele eternamente por resolver», nos braços da qual se sente mar. Indubitavelmente, Maynard encerra uma tese, agora engenhosamente robustecida, sobre o feminino, nos seus múltiplos e insondáveis enigmas: mulher, o céu e o inferno, o alento e a debilidade, o afago e a traição, Penélope e Circe.
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O conflito de uma consciência

Paradoxais e inéditos são, ainda, os monólogos maynardianos, desta vez difundidos por sonhos. Maynard, «um assassino profissional específico. Um assassino profissional com consciência. Um conflito vivo» que, por isso, tem uma úlcera que «vai e vem. Como os barcos», é levado «pela outra úlcera, a que não pára e vive nos miolos. Uma merda chamada cosa mentale pelos intelectuais sofisticados.».

O drama interior da consciência em monólogo consigo irrompe em fragmentos dispersos e desfigurados do real, ordenados caoticamente, prenhes de sentidos “sem-sentido”, à maneira de Kafka. E porque a consciência de Maynard tem um compromisso activo com o mundo, os monólogos fluem no questionamento da existência humana, dão eco à consciência funda de alienação e angústia, juntam, no teatro do absurdo, pantomina em palco, as nostalgias, a futilidade, o erotismo, o irracional, a dor, o riso, o grotesco e tudo o que em nós acorda o número do palhaço.

Em jogos cénicos, onde convivem o drama humano e o humor irónico e satírico, surge-nos Maynard, no bar vermelho de bebidas vermelhas chamado «As vinhas da Ira», onde os convivas têm nomes de escritores como Zola, Baudelaire, Marx, Neruda, onde até Aristóteles é amigo de Picasso, onde Maynard escolhe ser Confúcio ou Branca de Neve, revê a infância, a morte do pai, e confronta-se com os seus fantasmas; ou Maynard no fundo do poço, no eterno combate contra a parede que o quer esmagar, que é, afinal, o combate contra a escuridão da existência, como o é, ainda, o veiculado por esta literatura iluminada.


* Nota: Disponível há cerca de dois meses, este Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola é o ensejo para um conjunto de actividades de homenagem a Dinis Machado, falecido em Outubro último: o livro foi oficialmente apresentado dia 18 de Junho, na livraria da Assírio & Alvim e, no final do mês, as honras mudam-se para o Bairro de Dinis Machado, com tertúlia na Fnac do Chiado. O texto que aqui se edita foi o pronunciado na sessão do lançamento.

Nota: Este texto está editado, desde dia 22 de Junho no renovadíssimo site Orgia Literária.
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© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 22 de junho de 2009

«Palinódias, Palimpsestos» de Albano Martins

São infinitos os caminhos da palavra, mas também são inextinguíveis o poder criativo e depuração de Albano Martins. Palinódias, Palimpsestos comprova-nos que é precisamente o carácter inesgotável da palavra que nos permite agasalho e apaziguamento, porque quando tudo nos falta e nos sentimos murados, resta-nos ainda a palavra com a sua garupa.

«Não ponhas o dedo /na ferida. Deixa /a dor respirar /em segredo», diz-nos o poeta, num poema minimalista, de quem aprendeu com o silêncio a faísca certeira da luz. E é por essa torrente luminosa de paz interior que nos atinge, que Albano Martins é um dos maiores poetas vivos de Língua Portuguesa.

Como o título indica, o livro propõe a reflexão sobre a poesia enquanto arte que labora com o material mais esquivo, mas por isso mesmo desejável: a palavra que abre caminhos que se desmultiplicam (palinódias), sempre inquieta, ora escondendo-se, ora deixando-se transparecer, em proximidade com Palimpsestos: Nem sempre as palavras /dizem o que diz /o seu sentido. São /às vezes máscaras /perfeitas, outras /como sudários, rostos /esculpidos no mármore /das lágrimas. São /umas vezes /parábolas; outras, /palinódias, /Palimpsestos.

Num exercício íntimo, intenso, os poemas procuram lugares onde o poeta e a palavra se interceptem, se reconheçam e se fundam: vim /para saber /se eras tu /a quem dei /o meu nome. São caminhos de identidade que Albano percorre há mais de meio século dando-nos dele regularmente notícias e, agora, neste seu “relatório”, mais depurado do que nunca.
Com jovialidade e energia raras, enfrenta-se a rasura, para que a escrita se perpetue e com ela os ecos do silêncio, tessitura da palavra, mistério e razão da criação:

Que não. Que não sabes,
dizes. Também
a água não sabe, e nunca
diz não, e nunca
se desdiz.

Rigoroso, no conteúdo e na forma, o poeta revela o trabalho árduo que o relacionamento com a criação exige. A disposição dos versos nos poemas obedece a uma perfeição geométrica, contribuindo para o desafio da multiplicidade de leituras. E assim se atesta que o amor, todo o amor, tem de ser vivido de olhos bem abertos:

Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Cumprir-se a missão para se cumprir o ser, sempre com persistência, apesar dos escolhos, é uma das grandes lições que o poeta nos dá e com ela robustece-nos a existência:

Lembra-te: ainda há pouco
havia à beira
do caminho
algumas pétalas. Agora
há lama e nela
afundas os sapatos. E outro
caminho não conheces. E outro
também não há.

Poro a poro, a pele das palavras

Maestro das sensações, Albano acompanha o ardil da palavra, corteja-a para lhe saber o sentido, o seu próprio sentido, o seu /sentido próprio, conhece-lhe os movimentos, os segredos, despe-a, ama-a e, cúmplices, poeta e palavra, que dizer uma é dizer outra, constroem a história da paixão:

Se a mão
desliza
sobre o papel,
se a pele
reconhece
a pele, o dedo
encontrou
o seu anel.

Na urdidura da conquista, cabe ao poeta o papel de encontrar sempre uma forma para jogar o jogo da sedução com o Tu, a palavra. Mas a sedução de Albano, com ímpar sentido de partilha, atinge, também, outro Tu: o leitor que, enredado na dádiva, passa a deter o poema moldando-o ao seu "tu" interior".

«Como a palavra, Só o dardo /conhece o alvo. Só o dardo /sabe o nome /da ferida. /O seu lugar». E o lugar das palavras de Albano, sabe-o o poeta, é aquele em que a pele das palavras, das que ele libertou, encontra outra pele que passa a ser a sua casa. Deixem-se outros poemas:

À maçã
não lhe perguntes
quem é.
Outra forma
não há
de lhe reconhecer
o sabor
***
Arrefece,
dizias. É o frio,
disse eu,
que te acaricia
a pele. Que nela se aquece. Que nela
se esquece.

***
Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio

***
Não digas
beijo, diz a boca. Não
digas rio, diz a fonte. Diz
apenas.


Palinódias e Palimpsestos, Albano Martins; Editorial Campo das Letras, Porto 2006


© Teresa Sá Couto

(to Artur)

«A Palavra Perfeita» de Albano Martins

A Palavra Perfeita é o título no novíssimo livro de homenagem ao poeta que há mais de cinquenta anos homenageia as palavras: Albano Martins. Com a chancela da Quasi, o pequeno, simples e branco livro colige as comunicações do ciclo de conferências sobre a obra de Albano Martins, promovido pelo Clube Literário do Porto, em 14 de Abril de 2007.

São seis comunicações de admiração e afecto, como só podem ser as palavras de todos os que se encontram com as palavras do poeta, mas também com a generosidade e rectidão deste homem beirão que, na linguagem do silêncio, se descreve assim: «Pertenço a esta/ geografia, ao lume branco /da resina, ao gume /do arado…».

Ao poeta e amigo Albano Martins, deixo o meu agradecimento por este livro que me chegou com uma dedicatória assinada exactamente no dia dos meus anos; tocaram as saudades e com elas o alerta das minhas promessas sempre adiadas de uma ida ao Porto. Do sul, em resposta às saudades, reedito neste meu espaço o meu texto sobre o seu último livro de poesia, o superior e imperdível Palinódias, Palimpsestos.


Maria Helena Padrão, Bernardette Capelo-Pereira, Fernando J. B. Martinho, Manuel Ferreira Patrício, Maria do Carmo Castelo Branco e Maria Lúcia Lepecki assinam os magníficos textos de homenagem. No final, o agradecimento do poeta, que espelha a amizade incondicional que ele sabe ter dos amigos. Um homem do sul, que se radicou em 1969 na cidade de Raul Brandão, «ancorada entre névoas e fráguas», mas também vaidosa do colorido do seu casario em tramas de poesia, que ele aprendeu a amar e que mostra, orgulhoso, da janela da sua casa, «do outro lado do rio».

Sobre si, diz-nos Albano Martins, em palavras que todos sabemos serem as palavras perfeitas que o definem:

Sou um homem do sul, da claridade sem mácula, dos horizontes largos, lavados, varridos pelos ventos da Estrela e da Gardunha. A minha infância é uma écloga de pastores, boieiros e ganhões. Cresci entre fetos, fenos, juncos; entre o coaxar das rãs, o trilho dos pardais, a cegarrega das cigarras, o grasnar dos corvos, o canto dos ralos, das rolas e dos grilos, o arrulho dos pombos nos beirais dos telhados. Andei aos ninhos, como todos os rapazes da minha idade. Percorri, em sobressalto, as veredas e atalhos dos campos, os labirintos dos bosques, os meandros das sarças; persegui perdizes no recolhimento estival das searas e armei ciladas aos tordos nos terrenos lavrados, sob as árvores; colhi amoras nas sebes perfiladas à beira dos caminhos e sorvi o pólen açucarado da flor das acácias. Tive uma infância feliz. Perfumada. Em redor da casa cresciam eucaliptos e castanheiros e, lá ao fundo, depois das hortas e dos lameiros, a ribeira desdobrava o seu perfil de enguia líquida, em cujas águas se dessedentavam salgueiros, choupos e amieiros. Quem conhece a minha poesia sabe que esta é uma reserva que trago escondida no bornal e me serve de sustento na “lôbrega jornada”, como dizia Antero.


© Teresa Sá Couto

domingo, 21 de junho de 2009

Prémio e eleitos

O escritor Rui Herbon acabou de me atribuir o Prémio Lemniscata no seu a escada de Penrose.


Alguns dados sobre o Prémio

O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)

De acordo com as regras, aqui vão os meus eleitos galhardos:
À Cláudia Sousa Dias e ao seu há sempre um Livro
À Isabel Mendes Ferreira e ao seu Piano
À Cristina Nobre Soares e ao seu Deserto do Mundo
Ao José Alexandre Ramos e ao seu que farei quando tudo arde
Ao Jorge e à sua Babel
Ao Bruno e ao seu Contracultura

Novidades Editoriais

História, literatura e actualidade: são estes os campos dos novíssimos lançamentos da Campo das Letras. Deixo, para já, estas breves notas.
Assinado pelo historiador António do Carmo Reis, chega-nos a «Nova História Universal». Trata-se de um compêndio de Nova História, porquanto é a «leitura do nosso tempo» sobre toda a História, sobre a «Vida da Humanidade no tempo e no espaço», desde 9000 – começo do Neolítico – até ao séc. XXI, ano de 2007. «A História é a escola do cidadão», disse Georges Duby; segundo o historiador, na introdução, este novíssimo título procura «o fio condutor da História – de toda a História que, sendo a de todas as Civilizações (cada qual com seu andamento e sua trajectória), é o drama de uma só Humanidade. Nesse esforço de síntese, procuramos saber quem somos – para assumir a nossa Cultura de cidadãos do Mundo».

Na capa de Margarida Baldaia, a ilustração «A primeira Viagem» de Cristóvão Colombo aludindo ao início da globalização, marca indelével da nossa Idade Contemporânea e reconhecimento de que a «História Continua». Para já, este documento de síntese da História, com escrita rigorosa, lesta e depurada, afigura-se imprescindível em qualquer lar e em qualquer escola.


No campo da literatura, contamos com «O Personagem na obra de José Marmelo e Silva». Um título saudado pelo seu carácter imprescindível, já que José Marmelo e Silva (1911-1991), incompreendido no seu tempo que, consequentemente, lhe ostracizou as letras, foi autor de uma obra fortíssima e inquietante, que está criticamente por explorar. Ver texto meu sobre uma obra do autor, AQUI.

São seis ensaios organizados por Arnaldo Saraiva que, segundo refere na nota introdutória, «permitem caracterizar bem a galeria de personagens das narrativas breves de Marmelo e Silva: personagens preferentemente jovens e preferentemente masculinos, geralmente em relação difícil ou traumatizante com personagens femininos”típicos” (a ingénua, a dissimulada, a puta); frustrantemente fixados em espaços limitados e limitantes, de que alguns fogem ou tentam fugir, como o da família, o do campo, o do internato ou o da caserna (e da Beira, da Madeira, de Coimbra, de Lisboa, de Aveiro, do Porto…); confrontados com valores, hipocrisias e preconceitos patriarcais, autoritários, religiosos ou sexuais, contra os quais podem inglória ou dramaticamente rebelar-se.».

A assinar os ensaios estão Maria de Fátima Marinho, na obra «Sedução»; Paula Morão, em «O Sonho e a Aventura»; João Camilo, em «Adolescente Agrilhoado»; Celina Siva, em «Anquilose»; Tânia Moreira, em «O Ser e o Ter»; Cristina Costa Vieira, em «Desnudez Uivante».


Na inquietação da actualidade, marca de um «planeta que não gira bem», temos o Ensaio «Planeta Sexo – Turismos sexuais, mercantilização e desumanização dos corpos», dito assim pelo autor, Frank Michel, antropólogo e professor universitário, com tradução de Vítor Dias:
«Metamorfose do capitalismo selvagem, o turismo sexual prospera sobre as ruínas das desilusões do “desenvolvimento” e do “progresso” e assemelha-se frequentemente a uma invasão do Sul pelo Norte. Ele permite aos ocidentais que, aqui ou ali, perderam a batalha da colonização, restabelecerem posições firmes nas suas antigas (e novas) possessões, com uma conquista em vista: a dos corpos.»

São duas grandes partes espraiadas por 214 páginas para, sem contemplações, se abordar o “mercado mundial” do turismo e sexo, para reflexões sobre «a crise de identidade sexual no Ocidente», a comercialização da mulher, o tráfico sexual no mundo – com «as crianças na tormenta» da dominação –, a «herança colonial nas mentes e nos corpos», «Africas», Marrocos, Cuba, «as raparigas de leste», o Sudueste Asiático e, na conclusão, o desassossego de uma pergunta: «A caminho de um turismo sexual de massas?».


© Teresa Sá Couto

Trilogia maynardiana

(clicar na imagem para aumentar)

Uma perversidade nunca vem só. Pois. E a Assírio&Alvim lança o cartaz/convite para anunciar a apresentação da Trilogia Maynardiana, no próximo dia 29 de Junho, na Fnac do Chiado, com outra imagem para nos baralhar a imaginação da figura de Peter Maynard.
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Lá estarei com o meu companheiro desta magnífica saga, o inextinguível José Xavier Ezequiel.
Estão todos convidados. Evidentemente.
Teresa Sá Couto

O meu texto da Apresentação, titulado Peter Maynard – Beretta e consciência,  editado n' A Phala

sábado, 20 de junho de 2009

O desaforo da escrita de José António Barreiros

Há um homem por detrás de um fragmento de vidro. Olha fixamente a realidade e, cansado de a ver, congemina o que fazer com ela. Pela acção do olhar fixo, o fragmento de vidro estilhaça-se em dezasseis fulgurantes luminescências de um caleidoscópio chamado Contos do Desaforo. O homem da singular urdidura é José António Barreiros e o livro que aqui referencio é de 2007 e é a sua estreia nas paisagens que «a imaginação escreve e a fantasia ilustra».

«Só escreve quem vê. Só vê quem afasta (e se afasta)», diz Gonçalo M. Tavares no prefácio, referindo-se ao método utilizado por José António Barreiros. E é esse jogo de movimentos de proximidade e afastamento da realidade que encontramos nas curtas narrativas que ousam xeque-mates de desaforo contra o lugar comum e a apatia. São dezasseis olhares insubmissos pintalgados de humor insuperável, para uma leitura imperdível.

«A única coisa de que preciso para ser feliz é de tempo. Muito tempo», lê-se no primeiro texto, distinto dos que se lhe seguem, pois é esculpido em jeito de justificação ao leitor sobre «a necessidade de contar». E são de tempo as narrativas, de tempo e dos arranques sem razão de que é feita a vida que é feita de tempo. Mas o que tem para nos contar o autor? Conta-nos que todos somos, num qualquer momento, intrusos no nosso lugar, que todos temos um armário, com mais ou menos gavetas, «imóvel e disponível» e uma vontade desmedida de desarrumar o mundo para, à nossa maneira, o podermos arrumar nas gavetas do nosso armário, assim aprisionando a realidade, fugaz e passageira, ou a ilusão dela.

«Um dia, o céu e a terra unir-se-ão numa cratera fatal. Até lá, eu escrevo isto, pensando na eternidade, como se nisso acreditasse», diz o autor e explica a «escrita obsessiva e simultaneamente necessária e inútil»: «Sem ela eu não teria um mundo que vivesse, devorado pela monotonia do óbvio, pela materialidade do evidente. E, no entanto, descontado um ou outro encantamento que isso provoque, nada mais volátil do que as palavras que aqui ficam, como um perfume que um momento de rua faz evanescer. No fundo, é uma escrita de nada, manuscrita em folhas de coisa nenhuma. Mas haverá mais substância no real do que esta, que não existe?»

Afastando-se da realidade para a apreender - «estar longe é isso mesmo, é verem-se apenas as grandes coisas» - José António Barreiros edifica o «sonho de uma casa de papel» e o leitor constrói a ilusão de nela se encontrar. É a luta com o tempo e a necessidade de se ser algo nele.

A semelhança com o real é mera ilusão

«Cruzo-me comigo em cada página, às vezes fingindo não me ver», diz o autor em nota introdutória, esclarecendo que escondeu «muito quotidiano, ficcionando-o, para parecer plausível». Munido de uma escrita elástica, capta acontecimentos correntes, personagens em trânsito, entre o ser alguma coisa e coisa nenhuma, aprisiona a fugacidade: «há, nos encontros fugazes, a força do desejo: neles se concentra a vontade de encontrar».

Também o leitor se cruza consigo ao encontrar-se com as personagens e com a ironia do olhar que capta a comédia humana:
«Fazem assim as famílias. Atestam os carros de malas e de miúdos, guardam zangas para a viagem e coisas fundamentais de que se esquecerão. Entre o parar para vomitar, que eles são pequenos, e para urinar, porque ela é velha, lá vão galgando quilómetros, para voltarem estafados de terem ido».

E lá está o encontro com a mulher que não consegue entender porque não pode deixar em testamento a parca reforma às suas galinhas, minudências afectivas incomportáveis num documento do Direito; com o professor de liceu que vem numa camioneta para Lisboa e regista a azáfama galhofeira de duas viajantes com o seu pacote de bolachas; com o réu silencioso que só nas alegações finais resolve discursar para mostrar que ao ouvir a convicção de quem o acusa convence-se do seu crime: «Se um homem se condena por não saber resistir à veemência dos que o acusam, se a verdade é a força da convicção com que é dita e proclamada, condenara-se.».

Reputado advogado criminalista, José António Barreiros saltou para o mediatismo da nossa aldeia por defender Vale e Azevedo, Pimenta Machado ou José Castelo Branco. Sobre a sua intervenção pela escrita de ficção, o autor diz num dos seus blogues que «se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume». Aguarda-se. «Na representação cómica que é a vida», todos somos «arrumadores de almas», e esta escrita desafia-nos a arrumar as nossas gavetas ou a termos a ilusão disso, o que é a mesma coisa.


Outros blogues de José António Barreiros, aqui e aqui

Contos do desaforo, José antónio Barreiros; Editorial Presença, Lisboa 2007


© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Mulher e Arma com Guitarra Espanhola"

(clicar para aumentar)

Será esta a aparência de Peter Maynard, ele que se deu à perversidade de não possibilitar ao leitor nenhum indício do seu aspecto físico?

Eis, pois, outra perversidade da Assírio & Alvim, que hoje lança oficialmente o «Mulher e Arma com Guitarra Espanhola», último romance policial de Dennis McShade (Dinis Machado).
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"Dentro de momentos" estará aqui disponível o meu texto crítico da apresentação deste livro.
Ver textos dos anteriores na etiqueta Dennis McShade
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Teresa Sá Couto

terça-feira, 16 de junho de 2009

valter hugo mãe canta "governo"

Eis valter hugo mãe no caminho das palavras escritas para as palavras cantadas. O escritor integra o projecto "governo" (com antónio rafael, miguel pedro – ambos dos mão morta –, henrique fernandes – dos mécanosphère) e estreia-se como vocalista no tema «meio bicho e fogo», incluído na colectânea «novos talentos fnac 2009», agora à venda. Junto o vídeo oficial do projecto, que acabo de receber do valter. É uma belíssima animação de "esgar acelerado" (com desenhos de esgar acelerado e sara macedo).

Confiram, pois, e surpreendam-se:

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.