domingo, 12 de abril de 2009

Como espanar tristezas

(Texto editado no site Orgia Literária em 10 de Abril de 2009)
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Depois do livro de contos «Os da Minha Rua» e do romance «AvóDezanove e o Segredo do Soviético», Ondjaki regressa com as enormes «manchas de infância», um «tipo de varicela» agora no corpo da poesia. O autor angolano, que se confessa «enamorado pela palavra antigamente», cria em Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristezas desobjectos para reabilitar aquele deslugar, para reaprender o lugar da alma, e não há tristeza nem solidão que resista ao espanador destas palavras musicais, tácteis, odoríficas, coloridas, afectuosas e confessionais que cantam madrugadas, praticam voolêncios e sonham borboletas.

Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristezas colige poemas narrativos e prosa poética com conversas que trazem «cócegas ao cosmos». São 86 páginas com uma magnífica síntese da navegação literária de Ondjaki pelo rio da infância, com elos ao anterior livro de poesia «Há Prendisajens com o Xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)» de 2002, e consubstancia o diálogo com outras obras do autor, como o inultrapassável livro infantil «Ynari – a menina das cinco tranças» de 2004 ou a novela «O Assobiador» de 2002, ambos chamados a estas novíssimas páginas.

Ondjaki, que confessa apreciar «muito a redondez do mundo», lança um longo abraço a artífices da lusofonia, fazendo vagabundear nos poemas Carlos Drummond de Andrade, Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Adélia Prado, entre outros. É a árvore dos afectos com raízes em Luanda – essa «palavra deitada / nas cicatrizes / de uma guerreira bela» – e ramos estendidos com sede de universo.

Este «é um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las», diz o escritor brasileiro Paulinho Assunção, no soberbo Posfácio. Acrescentamos: porque «há qualquer coisa de jangada na palavra rio», este é um livro sobre o sonho que corre no rio de antigamente, lugar de «verdades doces como mangas», do tempo em que «as pessoas emprestavam os pés às pombas / e elas roçavam os telhados /para cumprimentar as casas», casas onde circulavam «abelhas mansas» e os lagartos faziam parte da família, mas a família também fazia parte do lagarto. E se é certo que «o mundo, mesmo partilhado, /é muito a pele de cada qual», estas incursões de Ondjaki instigam-nos a escutar a pureza do vivenciado e trazer testemunhos de felicidade para a caminhada dos dias, como o próprio atesta.

Materiais e método dum poema
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“Sujo de infâncias”, Ondjaki constrói a casa dos sonhos que se recusam a partir, e mostra-nos com que materiais se espanta a tristeza e a solidão: «dedos quietos que crescem /pele nua /brincadeiras como o amor /pêndulo solto de sonhos /lógicas sacudidas /olhar de só-assim /modos de chegar como sementes /manobras de artesão contra o ego /desafio do «eu» /nudez de pele /de mãos /e (sob os teus olhos) / invenção de um sólido espanador de tristezas.». Depois, define-se o método: pedir emprestada a gaguez da garça, ganhar o hábito «de gaguejar tardes» e desenhar tudo com a tinta das veias: a família, os amigos, as vozes, as brincadeiras, o sol, as nuvens, o vento, as aves azuis. Para tanto, há que estender o «luando», emprestar o corpo ao chão e adormecer num poema «ardilhado de simplicidade».

Assim se convoca a chuva, uma «chuva carente» que precisa ser acariciada, ainda que o poema lhe seja um «lar provisório»: «e a chuva aceitou ficar. /vive actualmente /na leitura [mesmo que desatenta] /de um poema. / o barulhar dessa chuva /é uma espécie de pequena mentira. / dizem que as crianças lhe conseguem escutar. / dizem que os gambozinos lhe pressentem / e nela, por vezes, / se deixam vislumbrar. / dizem.»; assim surgem manhãs iniciáticas, apalpadas a «partir do tom amarelo das ramelas», aonde se chega com tombo deslizando num «escorrega», os fios de tarde empanturrados «de brandura» e noites inundadas de estrelas: «se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à/ noite /e terminava este poema assim: etestrelas…!».

Materiais Para Confecção De Um Espanador de Tristezas é uma celebração com «qualquer coisa de lágrima», anunciadora de saudade, fundadora de nostalgia, com qualquer coisa de tristeza. Cônscio, Ondjaki adverte: «há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las …». Cabe à palavra a metamorfose, pois «uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.». E o ofício de a erigir é-nos descrito assim, cristalinamente, por Ondjaki: «vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção…».


© Teresa Sá Couto

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